RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 16. 4

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Artigos Originais

Marcadores de remodelação e densidade mineral óssea em pacientes com deficiência de calcitonina

Markers of bone remodeling and bone mineral density in patients with calcitonin deficiency

Pedro Weslley Souza do Rosário1; Michelle Aparecida Borges2; Janice Sepúlveda Reis2; Flávio Palhano Jesus Vasconcelos3; Saulo Purisch4

1. Doutor em Clínica Médica pela Santa Casa de Belo Horizonte
2. Pós-Graduanda em Clínica Médica da Santa Casa de Belo Horizonte
3. Médico Endocrinologista
4. Professor Titular de Endocrinologia da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais

Endereço para correspondência

Pedro Weslley Souza Rosário
Centro de Estudos e Pesquisa da Clínica de Endocrinologia e Metabologia (CEPCEM)
Av Francisco Sales, 1111, 5 andar Ala D, Sta. Efigênia
CEP 30150-221, Belo Horizonte,MG
E-mail: pedrorosario@globo.com

Resumo

OBJETIVO: Este estudo avaliou marcadores de remodelação e densidade mineral óssea (DMO) em mulheres pré-menopausadas com deficiência de calcitonina.
METODOLOGIA (PACIENTES E MÉTODOS): Um total de 12 pacientes tireoidectomizadas por doença benigna, mantidas em terapia de reposição com levotiroxina e com calcitonina sérica indetectável foram comparadas a 15 pacientes controles (semelhantes em relação a: idade, IMC, níveis de TSH). Elas não apresentavam co-morbidades associadas.
RESULTADOS: Cálcio, PTH e 1,25 (OH)2 vitamina D não diferenciaram nos dois grupos. Houve tendência a mais baixos valores séricos de fosfatase alcalina óssea e osteocalcina naquelas com deficiência de calcitonina e o N-telopeptídeo urinário foi significativamente mais alto neste grupo. A densidade mineral óssea foi significativamente mais baixa nas pacientes tireoidectomizadas, tanto em coluna lombar quanto em colo de fêmur.
CONCLUSÃO: A deficiência de calcitonina pode estar associada a aumento da reabsorção óssea e redução da DMO em mulheres antes da menopausa.

Palavras-chave: Densidade Óssea; Calcitonina; Pré-Menopausa; Marcadores Biológicos.

 

INTRODUÇÃO

A tireoidectomia total ou quase total, procedimento de escolha em pacientes com carcinoma diferenciado1, também tem sido recomendada no tratamento de doenças benignas da tireóide.2,3,4 Diferentemente de pacientes com câncer - para os quais se recomenda a terapia supressiva com levotiroxina (L-T4)1 associada à redução da massa óssea em mulheres na pós-menopausa sem terapia anti-reabsortiva5,6 - indivíduos operados por doença benigna são mantidos apenas em terapia de reposição. Apesar disso, pacientes tireoidectomizados podem apresentar redução na densidade mineral óssea secundária à deficiência de calcitonina7-12, hormônio sabidamente com atividade anti-reabsortiva.13

O objetivo deste estudo foi avaliar marcadores de remodelação e densidade mineral óssea em mulheres prémenopausadas com deficiência de calcitonina por tireoidectomia total.

 

PACIENTES E MÉTODOS

Foram avaliadas 12 pacientes na pré-menopausa (ciclos regulares sem uso de anovulatórios e níveis séricos normais de FSH) submetidas à tireodectomia total por doença nodular benigna bilateral2,3,4 e mantidas em terapia de reposição com L-T4 há pelo menos cinco anos (> 3 dosagens anuais de TSH, com valores próximos de 0,3-5 mUI/l em > 90% das medidas, em nenhuma TSH < 0,1 mUI/l). Todas apresentavam níveis séricos basais indetectáveis de calcitonina, nenhuma apresentava hipoparatireoidismo e não houve reimplante das paratireóides na cirurgia. Foram estudadas 15 mulheres hígidas como controle. Como a tireoidite de Hashimoto compromete a reserva de calcitonina14, todas estas tinham anticorpos antiTPO negativo. Em todas se excluíram outras causas de doença óssea e nenhuma estava em uso de medicamentos que interferissem na avaliação proposta.

Avaliaram-se densidade mineral óssea (DMO), cálcio, 1,25(OH)2 vitamina D, paratormônio (PTH), fosfatase alcalina (FA) óssea específica e osteocalcina séricos e Ntelopeptídeo X (NTx) urinário.

As características das pacientes estão apresentadas na Tab. 1.

 

 

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisas da instituição e as pacientes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido antes da inclusão no estudo.

Dosagens laboratoriais

N-Telopeptídeo (NTx) foi dosado em urina de vinte e quatro horas coletada pela manhã por imunoensaio enzimático (referência para mulheres pré-menopausas: 5 a 65 nMBCE/mM creatinina). A osteocalcina sérica foi dosada por radioimunoensaio (referência para mulheres < 50 anos: 08 a 35 ng/ml); fosfatase alcalina (FA) óssea, por imunoensaio por captura (referência: 10 a 22 U/L); TSH e PTH por imunoensaioradimétrico (IRMA) (referências: 0,3 a 4 mUI/l e 10 a 53 pg/ml, respectivamente); T4 livre por radioimunoensaio (referência: 0,8 a 1,8 mcg/dl); 1,25(OH)2 vitamina D, por cromatografia líquida de alta performance (HPLC) (referência: 20 a 76 pg/ml); e calcitonina, por imunoensaiorradiométrico (IRMA) (referência: até 50 pg/ml). O coeficiente de variabilidade interensaio, determinado previamente pelo laboratório em uma população semelhante de mulheres pré-menopausadas a partir do o mesmo método e com intervalo de três meses, apresentou limite de confiança de 97,5%.

Para minimizar as interferências nas medidas dos marcadores,16 padronizou-se que todas as amostras, exceto urina de 24h, fossem coletadas pela manhã. Todas as avaliações foram feitas durante a fase folicular do ciclo menstrual e as pacientes foram orientadas para não praticarem atividade física exaustiva e não modificarem a dieta na semana em que realizaram a propedêutica.

Calcitonina foi mensurada apenas em condições basais, quando já houve nítida diferença entre os grupos, não sendo necessária a repetição da dosagem após estímulo.

Estudo densitométrico

Os estudos densitométricos foram realizados através da técnica "dual energy X-ray absorptiometry" (DEXA). A densidade mineral óssea (DMO) foi quantificada em colo do fêmur proximal direito e na coluna lombar, utilizando-se o valor médio da DMO das vértebras lombares (L2-L4).

Análise estatística

Para comparação entre os grupos, foi usada a ANOVA se a variável apresentasse distribuição normal e teste de Kruskall-Wallis se distribuição não normal. Correlação entre parâmetros foi determinada por análise de correlação de Pearson. O valor de p < 0,05 foi considerado significativo.

 

RESULTADOS

Cálcio, PTH 1,25 (OH) 2 vitamina D, FA sérica e osteocalcina sérica, não diferenciaram significativamente nos dois grupos. Mas os marcadores de formação óssea, FA sérica e osteocalcina sérica, tenderam a serem mais baixos nas pacientes tireoidectomizadas. NTx urinário foi significativamente maior no grupo de pacientes (Tab. 2) mas não se correlacionou com dose de L-T4 ou tempo de tratamento, níveis séricos de T4 livre, TSH, idade ou IMC.

 

 

A DMO foi significativamente menor nas pacientes tireoidectomizadas, tanto em coluna lombar, quanto em colo de fêmur (Tab. 3) e não se correlacionou com os marcadores de remodelação óssea.

 

 

DISCUSSÃO

A calcitonina é um hormônio sabidamente com ação anti-reabsortiva óssea,13 sendo inclusive usada no tratamento da osteoporose, reduzindo o "turn over" ósseo e resultando em ganho, ainda que leve, na massa óssea em coluna vertebral.15 Assim, pode-se inferir que a deficiência desse hormônio resulta aumento da atividade osteoclástica e redução da densidade mineral óssea.

A tireoidectomia total origina deficiência absoluta de calcitonina, mas sua associação com redução na massa óssea é dificultada pela terapia supressiva com L-T4, a que muitos pacientes são sumetidos após a tireoidectomia por apresentarem câncer diferenciado de tireóide,9,10,12 que também pode ter efeito na DMO.5,6 Assim, pacientes tireodectomizados totais e mantidos apenas em reposição com L-T4 são ideais para avaliação do papel da deficiência de calcitonina na DMO.

Estudos anteriores em pacientes tireoidectomizados sem a interferência da terapia supressiva com L-T4 já haviam demonstrado que a tireoidectomia total é um fator associado à redução da massa óssea, sugerindo o papel da deficiência de calcitonina como responsável por essa associação.7,9,12 O presente estudo confirma essa relação e chama a atenção para o fato disto poder ocorrer mesmo em mulheres na pré-menopausa. O aumento dos marcadores de reabsorção óssea, também demonstrado anteriormente,7 indica aumento da atividade osteoclástica como mecanismo mais importante na diminuição da massa óssea nesses pacientes.

 

CONCLUSÕES

Concluiu-se que a deficiência de calcitonina secundária à tireoidectomia total pode estar associada ao aumento da atividade osteoclástica e redução da densidade mineral óssea mesmo antes da menopausa.

 

REFERÊNCIAS

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