RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 24. (Suppl.2) DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/2238-3182.20140032

Voltar ao Sumário

Editorial

Mensagem da Presidente da Sociedade Mineira de Pediatria

Raquel Pitchon dos Reis

 

Caro Leitor,

No mês de março de 2014 foi realizado o Simpósio contra a Violência na Infância e Adolescência, promovido pela Sociedade Mineira de Pediatria, ocasiao em que foram discutidas questoes associadas à violência sexual e outras violências praticadas contra a criança e o adolescente.

O artigo 7º, capitulo I, do Estatuto da Criança e Adolescente diz que "a criança e o adolescente têm direito à proteçao à vida e à saúde, mediante a efetivaçao de políticas sociais públicas que permitam o nascimento e o desenvolvimento sadio e harmonioso, em condiçoes dignas de existência". Sabemos, ainda, que toda criança tem o direito de brincar, ir à escola, estar protegida e crescer forte e saudável. Mas esses direitos sao violados diariamente para milhoes de crianças brasileiras.

Estudo americano publicado por Afifi e colaboradores avaliou a associaçao entre uma história de cinco tipos de violência e maus-tratos na infância (abuso físico, abuso sexual, abuso emocional, negligência física e negligência emocional) e o uso abusivo de substâncias, incluindo álcool, sedativos, tranqüilizantes, opioides, anfetaminas, maconha, cocaína, alucinógenos, heroína e nicotina, durante a vida adulta. Todos os cinco tipos de maus-tratos na infância estavam associados à maior chance de todos consumirem drogas. O estudo conclui que a prevençao da violência e de maus-tratos na infância pode ajudar a reduzir o uso de drogas na populaçao em geral.

As causas associadas ao uso de drogas sao diversas. As mais frequentes associam-se a emoçoes e sentimentos com intenso sofrimento psíquico, depressao, culpa, ansiedade exagerada e baixa autoestima, seguidos pelo desconforto físico, uma dor sem localizar a causa e a busca pela "alegria e bem-estar".

O crack hoje bate em todas as portas. Entre as drogas, ele se destaca como elemento avassalador, pois ela é barato, de fácil acesso, tem alto poder de destruiçao e dessocializa a pessoa em mais velocidade que a cocaína e outras substâncias tóxicas. A capilarizaçao da droga é monstruosa e ela tem preponderância sobre o álcool e a cocaína. Precisamos lembrar que também o álcool pode trazer grandes danos ao feto e à criança.

O destino de órfaos do crack também é preocupante. Apenas 20% dos municípios brasileiros têm abrigos cadastrados pelas autoridades, de acordo com o Censo 2012 do Sistema Unico de Assistência Social. Ou seja, ou nao há abrigos ou sao clandestinos. Nao sao raros casos em que as crianças sao deixadas com vizinhos ou conhecidos. Os parentes dos usuários de crack relutam em ficar com seus filhos, pois temem o comportamento imprevisível dos pais. As famílias têm medo dos dependentes químicos de crack, tidos como mais agressivos. O uso de crack pela mae engrossa a lista dos preconceitos que permeiam a adoçao. Há receio de que os bebês abandonados venham a sofrer transtornos mentais no futuro, associados à droga consumida durante a gestaçao. Esse sentimento contra os órfaos do crack potencializa o seu risco de virem a desenvolver quadros psicóticos, depressao, bipolaridade e até virem a se envolver com drogas no futuro. Por outro lado a proteçao, o suporte psicológico e o apoio familiar anulam fatores de risco.

Quando se tem noçao da repercussao do abandono, é fácil constatar nossa situaçao de calamidade pública. Os vínculos familiares sao essenciais para a saúde mental e social, quanto mais nas fases iniciais do desenvolvimento humano. O abandono infantil representa uma questao nacional de saúde pública, além de grave violaçao aos direitos humanos, refletindo-se no sofrimento silencioso e insuperável de milhares crianças e comunidades. A violência impede que parte significativa dos jovens brasileiros usufrua dos avanços sociais e econômicos alcançados na última década e revela um inesgotável potencial de talentos perdidos para o desenvolvimento do país.

As açoes preventivas incluem o desenvolvimento de atitudes, valores, aptidoes, comportamento sociabilizante, estímulo para aprimoramento das relaçoes interpessoais e desempenho acadêmico e vocacional. Outra forma de prevenir e combater a violência contra os jovens é dar visibilidade e disseminar informaçoes sobre o problema, que permitam orientar os esforços das três esferas de governo e da sociedade civil.

Nesse excelente suplemento, você, leitor, poderá usufruir de excelentes revisoes de temas pediátricos variados e de alta prevalência na nossa prática clínica. No artigo sobre "Perspectivas para o desenvolvimento de investigaçao científica em Educaçao Médica" os autores descrevem a importância de promover a competência docente e a investigaçao e conduçao de estudos experimentais. O artigo "Relaçao médico-paciente na adolescência" ratifica o grande papel da relaçao médico-paciente, além da relaçao técnica, nao só privilegiando a doença em uma abordagem protocolar. No artigo "Derrame pleural parapneumônico: aspectos clínico-cirúrgicos e revisao da literatura", uma revisao completa foi realizada sobre os aspectos clínico-cirúrgicos na abordagem do derrame pleural em Pediatria. Os autores da revisao sobre "Nutriçao parenteral em Pediatria: revisao da literatura" apresentam os principais elementos e atuais recomendaçoes para o restabelecimento do estado nutricional da criança. O artigo "Doença Celíaca" aborda a complexidade do diagnóstico clínico, sorológico e da biópsia intestinal. Os autores discutem, ainda, sobre a real necessidade da realizaçao da biópsia intestinal em casos selecionados. Ainda seguem excelentes revisoes sobre os "Aspectos atuais no diagnóstico e abordagem da Infecçao do Trato Urinário", "Hepatites Virais A, B e C em crianças e adolescentes", "Alergia a himenópteros: do ambulatório à urgência", "Hidronefrose" e "Asma quase fatal".

Agradecemos, em nome dos pediatras mineiros, pelo envolvimento e dedicaçao incondicionais do grupo editor da RMMG, que colabora continuamente para o aprimoramento e atualizaçao dos pediatras.

Abraço,

 

Raquel Pitchon dos Reis

Presidente da Sociedade Mineira de Pediatria
Gestao 2013/2015