RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 32

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Editorial

Editorial

Maria do Carmo Barros de Melo

 

O primeiro número do Suplemento da Revista Médica de Minas Gerais vinculado à Sociedade Mineira de Pediatria foi lançado em 2008, sob a coordenação do Prof. Ennio Leão. Atualmente, estamos o décimo quarto ano consecutivo do suplemento, buscando cumprir o papel de divulgar informações confiáveis e de boa evidência científica.

Como aconteceu em edições anteriores, o suplemento está sendo vinculado aos anais do Congresso Mineiro de Pediatria. A importância da veiculação de temas relevantes para pediatra é enorme. O suplemento busca, em especial, a publicação de artigos de educação continuada como forma de uniformizar o conhecimento e promover reflexões, abordando consolidação do conhecimento, atualidades, inovações e protocolos.

Desta vez, os temas selecionados para os artigos científicos foram alimentação durante a pandemia, pneumonias, via aérea difícil em pediatria, intubação traqueal, tumor benigno hepático na infância, sangramento de varizes esofagianas em pacientes com hipertensão porta.

A Sociedade Brasileira de Pediatria lançou recentemente, em 28 de outubro de 2022, uma nota de alerta "A desnutrição infantil voltou?". A preocupação é grande em relação ao retorno da desnutrição ao cenário pediátrico nacional, sendo necessária a mobilização de diversos setores da sociedade e a implantação de estratégias para a prevenção, tratamento e combate. A nota conclui que as políticas públicas devem investir em: ações de promoção à saúde e educação para primeira infância; fortalecer o sistema de atenção à saúde básica, especializada e hospitalar; ampliar as ações de planejamento do cuidado integral da criança, vigilância do crescimento e desenvolvimento; implantar as estratégias que promovam a prática do aleitamento materno e da alimentação complementar adequada; e melhorar a divulgação das recomendações para diagnóstico e tratamento de crianças desnutridas, visando reduzir a morbimortalidade em curto prazo nesse grupo. A atualização do pediatra nos vários níveis assistenciais é fundamental para o sucesso destas propostas.

Um dos artigos publicados neste suplemento retrata a rotina alimentar de pré-escolares e escolares no período da pandemia de Sars-CoV-2. Registra o uso expressivo de alimentos ultra processados e açucarados, com baixo consumo de frutas e vegetais. O resultado, no grupo estudado, foi a ocorrência de sobrepeso e obesidade, em conjunto com a baixa prática rotineira de atividades esportivas. Ressalta, ainda, a importância da intervenção do pediatra na rotina diária dos pacientes e na orientação sobre as práticas alimentares.

A pneumonia ainda é a principal causa de mortes em crianças menores de 5 anos. A pandemia impôs medidas de distanciamento físico que limitaram o contato das crianças com seus pares e com alguns vírus e bactérias. Esse fato ocasionou impacto positivo na redução da circulação de outros vírus respiratórios, como também das hospitalizações por asma, bronquiolite viral aguda e pneumonia. Com a redução do isolamento social foi observado expressivo adoecimento, aumento das demandas de consultas pediátricas, sobrecarga nos serviços de prontos atendimento. Ocorreu também aumento do número de casos de pneumonia com evolução rápida e grave, complicadas com derrame pleural, necrose de parênquima e abscesso pulmonar.

Um desafio para os pediatras, em especial nos serviços de referência para as urgências e emergências é a necessidade de capacitação constante e de desenvolver habilidades para a intubação traqueal, em especial diante dos pacientes que por algum motivo apresentam via aérea difícil. A grande preocupação é manter a integridade das vias aéreas do paciente, evitando lesões, preservando a vida e melhorando o prognóstico.

O sangramento de varizes de esôfago é a principal causa de morbimortalidade nos pacientes com doença hepática crônica. A chance de complicações como ascite, encefalopatia hepática e peritonite bacteriana espontânea e outras é alta. O pediatra geral deve saber acompanhar os pacientes, em especial os que vivem longe dos municípios de referência, buscando o compartilhamento de informações para melhor prognóstico.

Crianças menores de cinco anos, e especialmente nos menores de dois anos, com aumento do volume abdominal devem ser investigadas e o hamartoma mesenquimal deve ser suspeitado. O diagnóstico diferencial é um desafio. O pediatra deve estar atento ao diagnóstico, pois o prognóstico é bom casso seja identificado.

Diante da pandemia, o pediatra enfrentou muitos desafios, profissionais e pessoais. A partir de agora, é hora de renovar as forças e lutar para a valorização do aleitamento materno, segurança alimentar, adesão ao calendário vacinal, combate ao tabagismo, implementação de boas políticas públicas. É necessário garantir condições de vida adequadas para a população. A criança é resultado do meio ambiente e das condições familiares. Não podemos esquecer de lutar pelo meio ambiente e por um sistema de saúde público que atenda às necessidades da população brasileira. Preconceitos em geral, violência doméstica, assédio e violência sexual devem ser combatidos.

O Congresso Mineiro de Pediatria mais uma vez traz à tona o tema "A pediatria de hoje e do amanhã", demonstrando que o conhecimento científico, tecnologia, educação, cultura e artes constroem um ambiente saudável e de esperança para um futuro melhor.

Uma boa leitura do suplemento, bom congresso e um feliz 2023 para todos e para todas!

 

Maria do Carmo Barros de Melo
Professora Titular do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da UFMG
Membro da Academia Mineira de Pediatria da SMP