RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Número Atual: 35 e35122 DOI: https://dx.doi.org/10.5935/2238-3182.2025e35122

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Artigo Original

Estado nutricional entre professores da rede de ensino estadual de Minas Gerais e seus fatores associados

Nutritional status among teachers of the state education network of Minas Gerais and its associated factors

Ketlyn Cecília Marques Pereira1; Thaynara Lopes Dourado2; Nayra Suze Souza e Silva3; Desirée Sant'ana Haikal4; Lucineia de Pinho5

1. Faculdade de Medicina, Centro Universitário FIPMoc (UNIFIPMoc), Montes Claros, Minas Gerais, Brasil
2. Faculdades de Saúde Ibituruna e Humanidades (FASI), Montes Claros, Minas Gerais, Brasil
3. Departamento de Educação Física, Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), Montes Claros, Minas Gerais, Brasil
4. Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde, Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), Montes Claros, Minas Gerais, Brasil
5. Programa de Pós-Graduação em Cuidado Primário em Saúde, Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), Montes Claros, Minas Gerais, Brasil

Endereço para correspondência

Lucineia de Pinho
E-mail: lucineiapinho@hotmail.com

Recebido em: 18 Setembro 2024
Aprovado em: 17 Agosto 2025
Data de Publicação: 9 Janeiro 2026.

Editor Associado Responsável:

Enio Roberto Pietra Pedroso
Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais.
Belo Horizonte/MG, Brasil.

Fontes apoiadoras: Financiamento da Fapemig (referente ao processo APQ-00901-22, aprovado pelo EDITAL 001/2022 - DEMANDA UNIVERSAL).

Conflito de Interesse: Não há.

Comitê de Ética: Número do Parecer nº 4.200.389

Resumo

OBJETIVO: Analisar o estado nutricional entre professores da rede de ensino estadual de Minas Gerais e seus fatores associados.
MÉTODOS: Este foi um estudo transversal entre professores do ensino fundamental e médio de Minas Gerais no período de outubro a dezembro de 2021. Um questionário online foi disponibilizado a todos os participantes através da plataforma Google Forms. A variável dependente verificou as condições do estado nutricional dos professores: eutrófico ≤24,9Kg/m2, sobrepeso de 25 a 29,9kg/m2 e obesidade ≥30kg/m2. Para a análise, foram avaliadas variáveis sociodemográficas, condições de trabalho e estilo de vida.
RESULTADOS: Participaram 1.907 professores, sendo 34,7% classificados como eutróficos, 40,2% com sobrepeso e 25,1% com obesidade. Houve maior chance de obesidade, em relação aos professores eutróficos, entre os homens (OR=1,64; IC95%: 1,21;2,22), entre professores com idade de 30 a 59 anos (OR=3,64; IC95%: 1,88;7,05) e de 60 anos ou mais (OR=3,46; IC95%: 1,50;8,01), entre os professores contratados/designados (OR=1,46; IC95%: 1,13;1,89), com jornada de trabalho de 40 ou mais horas semanais (OR=1,36; IC95%: 1,04;1,77), que a alimentação necessitava de modificação (OR=1,54; IC95%: 1,17;2,02) e estava inadequada (OR=1,76; IC95%: 1,16;2,67) e entre os professores que estavam nas fases de ação (OR=1,60; IC95%: 1,13;2,27), preparação (OR=2,24; IC95%: 1,55;3,23) e contemplação (OR=1,46; IC95%: 1,02;2,10) da mudança de comportamento para a prática de atividade física.
CONCLUSÃO: Os resultados deste estudo mostram um aumento da obesidade com a idade e a persistência de comportamentos pouco saudáveis.

Palavras-chave: Obesidade; Sobrepeso; Docentes; Estado nutricional; Qualidade de vida.

 

INTRODUÇÃO

O sobrepeso e a obesidade são considerados uma epidemia mundial de caráter multifatorial, que engloba as dimensões biológica, social, cultural, comportamental e política. Trata-se de um problema de saúde pública, visto que são associados à perda de qualidade de vida, limitações funcionais e responsável por parte substancial de mortes prematuras1,2.

Nos últimos anos, tem havido um aumento preocupante na prevalência de sobrepeso e obesidade em todo o mundo, com um aumento especialmente importante em países de baixa e média renda3. O excesso de peso afeta pessoas de todas as idades, raças, sexos e níveis socioeconômicos. Dessa forma, conhecer os elementos que sustentam as disparidades sociais é uma etapa para diminuir as desigualdades injustas nos desfechos de saúde indesejáveis4.

Existem vários fatores que podem colaborar para o desenvolvimento do sobrepeso e da obesidade, como estilo de vida sedentário, hábitos alimentares não saudáveis e condições médicas subjacentes. O consumo excessivo de alimentos processados, ricos em açúcares e gorduras saturadas, e a falta de atividade física são frequentemente citados como comportamentos associados ao sobrepeso e à obesidade5. Além disso, fatores psicológicos, como estresse, depressão e ansiedade, também podem contribuir para o ganho de peso e a obesidade6.

Aumentar o esforço mental e físico, como resultado de longas horas de trabalho, está associado a um maior risco de sobrepeso e, consequentemente, doenças crônicas não transmissíveis7. Nas ocupações em que a carga horária é excessiva, observa-se uma maior prevalência de obesidade entre os trabalhadores, uma vez que a demanda intensa de esforço físico pode ocasionar em esgotamento mental, cansaço físico, diminuição da prática da atividade física e, por consequência, sedentarismo, resultando no ganho de peso. O sobrepeso está se tornando um fator limitante para diversos tipos de trabalhos, em função do impacto na redução das habilidades e, por conseguinte, afeta negativamente o desempenho8.

O exercício da profissão docente pode comprometer o equilíbrio do organismo devido à carga de estresse enfrentada diariamente pelos professores9. Fatores relacionados à organização, ao conteúdo e às condições do trabalho, ainda que pouco explorados, são reconhecidos na literatura como influentes na saúde mental e física desses profissionais10. Há vários fatores envolvidos na atuação dos profissionais da educação, incluindo aspectos relacionados à natureza de suas funções, ao contexto institucional e social em que trabalham10. O tempo dedicado à docência está associado a um aumento do Índice de Massa Corporal (IMC), sugerindo que quanto mais horas diárias um professor atua, maiores são os riscos nutricionais, metabólicos, endócrinos, entre outras doenças relacionadas7.

Com o aumento crescente da incidência de sobrepeso e obesidade, torna-se cada vez mais relevante avaliar os efeitos desses eventos na qualidade de vida dos docentes. Acredita-se que o distanciamento social, decorrente da pandemia da COVID-19, diante da rotina diária alterada, afetou os hábitos de vida, o que pode influenciar a saúde dos professores. Assim, o objetivo deste estudo foi analisar o estado nutricional dos professores da rede estadual de ensino de Minas Gerais e avaliar os fatores associados às condições de saúde.

 

MÉTODOS

Trata-se de um estudo epidemiológico, transversal e analítico, do tipo websurveys. O estudo foi realizado com a população de aproximadamente 90.000 professores atuantes nas escolas estaduais de educação básica pública do estado de Minas Gerais, Brasil (dado fornecido pela Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais - SEE/MG), distribuídos em cerca de 3.500 escolas. O estado de Minas Gerais é composto por 853 municípios, com população de 20.538.718 habitantes de acordo com o censo de 202211.

Embora em websurvey seja difícil para os pesquisadores manter controle sobre o tamanho da amostra investigada, realizou-se cálculo amostral para se ter conhecimento no número mínimo de participantes capaz de representar a população de interesse. Para cálculo do tamanho amostral foi utilizada fórmula fundamentada em prevalência de doença ou evento, considerando população infinita. A prevalência foi de 50%, erro de 3% e acréscimo 20% para compensar possíveis perdas12. Dessa forma, estimou-se a necessidade de coletar dados de, no mínimo, 1.282 professores para garantir a representatividade desses, para o estado de Minas Gerais.

Inicialmente, foram obtidas autorizações e parceria com a SEE/MG. Após autorização, a coleta de dados ocorreu de 26 de outubro a 31 de dezembro de 2021, por meio de formulário online disponibilizado aos professores via plataforma Google Forms. O link do formulário de coleta foi divulgado pela SEE/MG, tendo sido publicado convite em sua página oficial (https://www.educacao.mg.gov.br/) e e-mails enviados às 45 Superintendências Regionais de Ensino (SREs) de Minas Gerais, sendo solicitado que as SREs encaminhassem o convite por meio dos e-mails institucionais dos professores. O envio do link do formulário ocorreu em dois momentos, no primeiro dia de início da coleta e aproximadamente trinta dias após o início da coleta. e e-mails enviados às 45 Superintendências Regionais de Ensino (SREs) de Minas Gerais, sendo solicitado que as SREs encaminhassem o convite por meio dos e-mails institucionais dos professores. O envio do link do formulário ocorreu em dois momentos, no primeiro dia de início da coleta e aproximadamente trinta dias após o início da coleta.

Segundo dados do estudo-piloto realizado com 16 professores de diferentes cidades de Minas Gerais, o preenchimento do formulário de coleta de dados resultou em aproximadamente 40 minutos. E, para evitar o preenchimento automático do formulário da pesquisa, foi utilizado um reCAPTCHA que apresentava testes em imagens, dificultando o preenchimento do formulário por sistemas robóticos.

O endereço eletrônico (e-mail) e o número de matrícula do servidor público com dígito verificador (MASP) foram coletados com o objetivo de verificar a elegibilidade dos participantes e prevenir o preenchimento duplicado do formulário. Para garantir a confidencialidade dos dados, foram adotadas medidas de proteção, sendo que todos os procedimentos de tabulação, sistematização e análise foram realizados exclusivamente com base nos códigos atribuídos a cada formulário, sem associação direta com as informações pessoais dos respondentes.

Foram incluídos no estudo os professores em exercício da função docente no ano de coleta de dados, que atuavam no ensino fundamental e/ou médio, que possuíam vínculo em uma das escolas estaduais de Minas Gerais e aqueles que aceitaram participar da pesquisa. Como critérios de exclusão, não participaram do estudo os professores que estavam em desvio de função docente (ex.: diretores), os aposentados e aqueles que não aceitaram participar do estudo.

A variável dependente verificou as condições do estado nutricional dos professores, sendo considerada por meio da avaliação do IMC "peso (kg)/estatura (m)2", calculado através do peso e altura autorreferidos pelos professores e classificado com pontos de corte estabelecidos pela OMS13, sendo categorizado em: eutrófico ≤24,9kg/m2, sobrepeso de 25 a 29,9kg/m2 e obesidade ≥30kg/m2. Para maior fidelidade dos resultados, foram excluídas da análise as professoras que informaram estar grávidas no momento da coleta.

As variáveis independentes aplicadas foram: sexo (feminino; masculino), idade (menos de 30 anos; 30 a 59 anos; 60 anos ou mais), vínculo com a escola (concursado/efetivo; contratado/designado), jornada de trabalho semanal (menos de 40 horas; 40 horas ou mais), alimentação (saudável; necessita de modificação; inadequada)14 e mudança de comportamento para a prática de atividade física (manutenção; ação; preparação; contemplação; pré-contemplação)15.

A escala para avaliação da alimentação é um instrumento validado que contém 24 questões que tem por objetivo mensurar práticas alimentares saudáveis. As questões contemplam as dimensões de planejamento, organização doméstica, modos de comer e escolhas alimentares. As opções de respostas são apresentadas em uma escala Likert de quatro pontos. O escore total é obtido a partir da somatória dos itens (1 a 24), sendo categorizada em: alimentação inadequada (até 31 pontos), necessita de modificação (entre 31 e 41 pontos) e alimentação saudável (acima de 41 pontos)14.

A mudança de comportamento para a prática de atividade física divide-se em 5 estágios: manutenção (mudanças de comportamentos foram feitas e mantidas por 6 meses ou mais); ação (mudança de comportamento feita nos últimos 6 meses); preparação (há uma intenção de mudança no futuro imediato - 30 dias); contemplação (há alguma intenção de mudança nos próximos 60 dias); pré-contemplação (não há intenção de mudança no comportamento em um futuro próximo - próximos 6 meses)15.

Os resultados da coleta de dados foram organizados, auditados e analisados com o auxílio do programa Statistical Package for Social Sciences (SPSS®) versão 22.0. Inicialmente foram realizadas análises descritivas (frequência simples e relativa) e bivariadas (utilizando o teste estatístico Qui-quadrado de Pearson). Em sequência, as variáveis que apresentaram nível descritivo inferior ou igual a 20% (p≤0,20) foram selecionadas inicialmente para compor o modelo múltiplo. No modelo múltiplo, adotou-se a Regressão Logística Multinomial, considerando os professores classificados em "eutrófico" como a categoria de referência. O modelo foi manualmente ajustado. Todas as variáveis que apresentaram p≤0,20 entraram juntas no modelo e foram mantidas no modelo final apenas as variáveis com nível descritivo inferior a 5% (p<0,05). Para o modelo múltiplo final foram apresentadas análises ajustadas, estimadas pela Odds Ratio (OR), o intervalo de confiança de 95% (IC95%) e nível descritivo (p<0,05). A qualidade dos ajustes do modelo foi avaliada pelo coeficiente de determinação (Pseudo R2).

O projeto passou por análise e aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), com Parecer nº 4.200.389/2020. Todos os professores que participaram da pesquisa receberam uma via do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e concordaram em participar ao marcar a opção "sim". Ressalta-se que, por se tratar de um formulário eletrônico elaborado na Plataforma Google, o sistema garante o envio automático de uma via do termo ao e-mail do participante, assegurando o cumprimento da exigência ética de fornecimento de uma via ao participante. A pesquisa seguiu integralmente a Resolução nº 466/12 do Conselho Nacional de Saúde/Ministério da Saúde, que estabelece as diretrizes para a realização de pesquisas envolvendo seres humanos.

 

RESULTADOS

Participaram do estudo 1.907 professores de aproximadamente 354 cidades de Minas Gerais. Do total de professores, 77,2% eram do sexo feminino, 89,8% tinham de 30 a 59 anos de idade, 57,5% eram concursados/efetivos, 34,3% trabalhavam 40 ou mais horas semanais, 38,7% relataram que a alimentação necessita de modificação e 34,4% dos professores realizaram mudanças de comportamentos para a prática de atividade física mantidas por 6 meses ou mais (fase de manutenção) (Tabela 1). Quanto ao IMC, 34,7% dos professores foram classificados como eutróficos, 40,2% com sobrepeso e 25,1% com obesidade.

 

 

No modelo múltiplo final (Tabela 2), as chances de apresentar sobrepeso, em relação aos professores eutróficos, foram maiores entre os homens (OR=1,60; IC95%: 1,23;2,10), entre aqueles com idade de 30 a 59 anos (OR=2,42; IC95%: 1,46;4,01) e de 60 anos ou mais (OR=2,71; IC95%: 1,39;5,26), que a alimentação necessitava de modificação (OR=1,33; IC95%: 1,05;1,67) e nos professores que estavam na fase de preparação (OR=1,63; IC95%: 1,17;2,26) da mudança de comportamento para a prática de atividade física.

 

 

Houve maior chance de obesidade, em relação aos professores eutróficos, entre os homens (OR=1,64; IC95%: 1,21;2,22), entre aqueles com idade de 30 a 59 anos (OR=3,64; IC95%: 1,88;7,05) e de 60 anos ou mais (OR=3,46; IC95%: 1,50;8,01), entre os professores contratados/designados (OR=1,46; IC95%: 1,13;1,89), com jornada de trabalho de 40 ou mais horas semanais (OR=1,36; IC95%: 1,04;1,77), que a alimentação necessitava de modificação (OR=1,54; IC95%: 1,17;2,02) e estava inadequada (OR=1,76; IC95%: 1,16;2,67) e entre os professores que estavam nas fases de ação (OR=1,60; IC95%: 1,13;2,27), preparação (OR=2,24; IC95%: 1,55;3,23) e contemplação (OR=1,46; IC95%: 1,02;2,10) da mudança de comportamento para a prática de atividade física. O modelo final ajustado explicou 5,4% da variabilidade da variável dependente (Tabela 2).

 

DISCUSSÃO

Os dados do presente estudo evidenciaram que mais da metade dos professores avaliados encontravam-se com sobrepeso/obesidade. Esses resultados são similares aos apresentados pela OMS, que, em estimativas globais recentes, apurou que em média 52% da população adulta mundial apresentavam sobrepeso e/ou obesidade16. Já um estudo realizado pelo Ministério da Saúde, no qual um conjunto de 27 cidades foram avaliadas, a frequência de sobrepeso e/ou obesidade foi de aproximadamente 75%17. Em um outro estudo feito com professores da rede municipal da educação básica de ensino em um município do norte de Minas Gerais, evidenciou uma prevalência total de sobrepeso e/ou obesidade de 52,7%18. A presença de sobrepeso e/ou obesidade aumenta os riscos de surgir diversos tipos de doenças crônicas não transmissíveis, que podem ser amplamente evitáveis16.

No presente estudo, constatou-se que os indivíduos do sexo masculino possuem uma probabilidade maior de desenvolver obesidade. Esse mesmo resultado foi observado em uma pesquisa conduzida com professores na cidade de Jequié, Bahia19. Um estudo realizado com professores da Universidade de Viçosa conseguiu demonstrar que, embora a prevalência de sobrepeso e obesidade tenha sido alta nos homens, não houve uma correlação entre o IMC e níveis glicêmicos. Isso pode ocorrer porque a glicemia não está diretamente relacionada à quantidade de gordura corporal, podendo incluir também a massa muscular magra, o que pode ter influenciado diretamente os resultados dos participantes do sexo masculino20. Com base nessas informações, é importe que políticas e serviços públicos sejam implementados, com o objetivo de promover a saúde dos homens, visando melhorias significativas21.

No que se refere à faixa etária, constatou-se que os professores entre 30 e 59 anos e acima de 60 anos apresentaram uma maior prevalência de obesidade. Essa descoberta é consistente com um estudo realizado no México, o qual investigou a prevalência e a tendência de obesidade em adultos e mencionou que as taxas mais altas são observadas durante a quarta década de vida22. Uma pesquisa prévia, realizada com professores da educação básica no Brasil, também confirmou resultados desfavoráveis em relação à saúde dos docentes com mais de 40 anos23. À medida que a idade aumenta, ocorre uma diminuição da massa magra e um aumento da massa gorda, resultando em um aumento do percentual de gordura24.

Professores contratados que atuavam como docentes tinham maior chance de sofrer de obesidade. Foi constatado por meio de uma pesquisa realizada com professores da rede estadual de Minas Gerais (REE/MG) que os professores designados apresentavam um quadro mais grave de doenças, pois o tempo de afastamento por motivos de saúde era maior em comparação aos professores efetivos25. Uma possível explicação pode ser o fato de que esses professores enfrentam insegurança devido ao vínculo empregatício, o que geralmente resulta em demora em buscar tratamentos de saúde quando estão doentes25. Essa falta de preocupação dos docentes com sua saúde tem um impacto negativo evidente nos resultados relacionados a ela.

No presente trabalho, a jornada de trabalho foi associada à obesidade nos professores. A alta carga horária de trabalho dos professores pode levar a um desequilíbrio na alimentação e impactar negativamente o estado nutricional26. Estudos anteriores demonstraram que uma alta carga horária de trabalho está associada a uma série de problemas de saúde, incluindo estresse, fadiga, falta de sono adequado e comprometimento do equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. Esses fatores podem influenciar diretamente os hábitos alimentares desses profissionais, levando a escolhas menos saudáveis e desequilíbrios nutricionais27. A preparação de refeições saudáveis requer tempo e planejamento, o que pode ser difícil de conciliar com uma carga horária intensa28.

Além disso, a alta carga horária de trabalho pode levar ao estresse crônico e, consequentemente, desencadear alterações no apetite e nos padrões alimentares29. Algumas pessoas tendem a comer em excesso em situações de estresse, o consumo de alimentos ricos em gorduras e açúcares é uma estratégia para obter conforto emocional. Essa prática é fator associado ao ganho de peso e ao desenvolvimento de problemas de saúde relacionados à alimentação, como diabetes, hipertensão e doenças30.

No presente estudo, foi observada uma maior chance de obesidade em professores que necessitam de modificação alimentar. Estudos com trabalhadores espanhóis associam as condições de trabalho com a nutrição dos trabalhadores, como é o caso dos professores cuja alta rotatividade da jornada de trabalho e nível de estresse foram associados ao aumento de consumo de alimentos processados e redução do consumo de frutas31. Iniciativas de promoção da alimentação saudável em escolas localizadas em Recife apresentaram uma correlação relevante com menores prevalências de excesso de peso e obesidade32, destacando que o ambiente escolar desempenha um papel importante para mudanças no padrão de saúde. Os professores, como figuras influentes na escola, desempenham um papel de modelos para seus alunos e são capazes de influenciar a adaptação de hábitos de vida saudáveis33. A aplicação de educação alimentar e prática regular de exercícios físicos é importante para tratar dos fatores modificáveis que causam a obesidade nessa classe de trabalhadores33.

Entre os professores houve maior chance de obesidade entre aqueles que estavam nas fases de ação, preparação e contemplação da mudança de comportamento para a prática de atividade física. Um estudo foi conduzido com mulheres de um programa multiprofissional de tratamento da obesidade, em que os resultados demonstraram uma redução significativa no peso corporal das participantes do grupo de intervenção, enfatizando a relevância da interferência e do progresso no estágio comportamental para prática de exercício físico34.

Em uma pesquisa de corte transversal envolvendo adultos brasileiros, residentes em Cambé, Paraná, realizada para analisar os estágios de mudança para atividade física no lazer ao longo de 4 anos, observou-se a manutenção do mesmo estágio em relação à avaliação inicial em 40% dos entrevistados. Ademais, 31,6% dos participantes tiveram recaída. Esses dados estão em concordância com o resultado do estudo, visto que as fases de preparação e contemplação não executam a prática da atividade física, propiciando a manutenção da obesidade35. Os resultados desse estudo corroboram a ideia de que além do interesse em iniciar uma prática de atividade física, é necessária uma motivação, que pode ser aumentada com o aconselhamento de um profissional, visto que os professores que apresentaram maior chance de obesidade reconhecem o problema e estão dispostos a superá-lo36.

Recomenda-se, em futuras pesquisas na área, a inclusão de um conjunto mais abrangente de variáveis relacionadas ao contexto da Saúde do Trabalhador. Embora as variáveis analisadas neste estudo sejam pertinentes, reconhece-se que outros aspectos relevantes - como condições organizacionais, riscos psicossociais, ambiente institucional e políticas de gestão do trabalho - poderiam ter sido incorporados, ampliando a compreensão do fenômeno investigado.

Há limitações neste estudo que devem ser mencionadas. A utilização de questionários autorreferidos para avaliar estado nutricional reflete na confiabilidade dos dados (peso e altura) informados pelos professores e também pelas questões quanto à alimentação e à prática de atividade física. O índice de massa corporal, embora útil, não contempla toda a complexidade do estado nutricional. Além disso, variáveis importantes relacionadas às condições e à organização do trabalho não foram incluídas, o que poderia enriquecer a análise dos resultados. A necessidade do acesso à internet afeta o viés de seleção, mas também viabiliza a coleta de dados à distância. Com isso, foi possível ter uma amostra mais abrangente do estado de Minas Gerais, incluindo professores atuantes na Zona Rural. Outras vantagens do estudo são a precisão metodológica e o apoio da SEE-MG.

 

CONCLUSÃO

O estado nutricional dos professores está relacionado a variáveis sociodemográficas, vínculo com a escola, jornada de trabalho e estilo de vida. Os resultados deste estudo mostram um aumento da obesidade com a idade e a persistência de comportamentos pouco saudáveis. Observou-se que os professores contratados apresentam condições de saúde mais instáveis. Há necessidade de implementar políticas públicas sobre hábitos saudáveis para melhorar a qualidade de vida dos professores e proporcionar, assim, melhor desempenho.

 

CONTRIBUIÇÃO DOS AUTORES

As contribuições dos autores estão estruturadas de acordo com a taxonomia (CRediT) descrita abaixo:

Conceptualização, Investigação, Metodologia, Visualização & Escrita - análise e edição: KCM Pereira; TL Dourado; NSS Silva; DS Haikal; L Pinho.

 

COPYRIGHT

Copyright© 2021 Santos et al. Este é um artigo em acesso aberto distribuído nos termos da Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Licença Internacional que permite o uso irrestrito, a distribuição e reprodução em qualquer meio desde que o artigo original seja devidamente citado.

 

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