RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 14. 3

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História da Medicina

A obra filosófica e médica de Pedro Hispano (Papa João XXI)

The philosophical and medical works of Pedro Hispano (Pope João XXI)

Sebastião Gusmão

Professor Adjunto da Faculdade de Medicina da UFMG. Coordenador do Centro de Memória da Faculdade de Medicina da UFMG

Endereço para correspondência

E-mail: gusmao@medicina.ufmg.br

Data de Submissão: 10/04/03
Data de Aprovação: 11/09/03

Departamento de Psiquiatria e Neurologia da Universidade Federal de Minas Gerais

Resumo

Descreve-se a obra filosófica e médica de Pedro Hispano (Papa João XXI), o único papa médico e português. Analisa-se sua contribuição à filosofia e à medicina, especialmente como um dos introdutores da filosofia de Aristóteles no mundo cristão, no final da Escolástica (século XIII).

Palavras-chave: Filosofia / História; Pessoas Famosas; História da Medicina Medieval

 

BIOGRAFIA

Pedro Julião Rebelo, posteriormente conhecido como Pedro Hispano (ou Petrus Hispanus, assim cognominado em razão de, no século XIII, Hispania designar toda a Península Ibérica) e Pedro Hispano Portugalense, é uma das figuras exponenciais da Escolástica do século XIII. Foi teólogo, filósofo, médico, professor de medicina e papa (Papa João XXI), sendo o único papa português e o único papa médico (Figura 1).

 


Figura 1 - Papa João XXI.

 

Pedro Hispano nasceu em Lisboa, provavelmente entre 1205 e 1210. Seu pai, Pedro Julião, era médico. Sua formação começou na escola catedral de Lisboa. A seguir, foi para Paris, já que Portugal não possuía, nessa época, nenhuma escola superior. Freqüentou a Universidade de Paris, cursando a Faculdade de Artes e a Faculdade de Medicina. Esta Universidade era, no século XIII, o maior centro de saber da Cristandade, tendo entre seus professores Alexandre de Hales, Lambert de Auxerre, João de Parma, São Boaventura, Santo Alberto Magno, Santo Tomás de Aquino e Rogério Bacon1-3.

Embora sem provas documentais, Grabmann4 admite que Pedro Hispano ensinou Lógica na Universidade de Paris, entre 1240 e 1245, e supõe ser sua obra, Summulae Logicales, produto do magistério na Faculdade de Artes. A orientação de sua obra e alguns documentos sugerem que tenha estudado medicina também em Salerno e Montpellier, as duas mais conceituadas escolas de medicina da época. Foi professor da Faculdade de Medicina de Siena, de 1245 a 1250, e exerceu simultaneamente a clínica, existindo documentação de sua atividade no leprosário dessa cidade. Entre 1250 e 1258 viveu em Portugal, onde ocupou, sucessivamente, os postos de prior de Mafra, arcebispo de Braga e cônego e deão da Catedral de Lisboa1,2,5,6.

A Medicina o colocou em contato com os mais altos dignitários eclesiásticos e o levou, posteriormente, ao cardinalato e ao papado. Em 1261, encontra-se em Viterbo, inicialmente no séquito do cardeal italiano Ottobonus Fieschi (Papa Adriano V, eleito em 1276, cujo pontificado durou apenas trinta e oito dias) e, a seguir, como médico pessoal do Papa Gregório X. Em 1273, é eleito bispo de Braga, sem chegar a tomar posse, pois se encontrava no concílio de Lião (1274). É quando Gregório X o nomeia cardeal de Tusculum (atual Frascati). Em 15 de setembro de 1276, logo após a morte de Adriano V, seu amigo e protetor, é eleito papa, assumindo o nome de João XXI1.

Seu breve pontificado ficaria marcado pela proteção aos letrados, pelo empenho na união entre os cristãos de Roma e os do Oriente, pela intervenção para a paz entre Filipe III de França e Afonso X de Castela; pelos preparativos de nova cruzada para libertar Jerusalém, e pelas desavenças com Afonso III (rei de Portugal, de 1248 a 1279, responsável pela expulsão definitiva dos mouros deste país), as quais levaram à excomunhão do rei.

Seus conhecimentos em ciências naturais pareciam suspeitos ao inculto clero de seu tempo, o que lhe valeu a alcunha de magus (mago). A trágica catástrofe que pôs fim a sua vida pareceu dar razão às críticas. Para trabalhar tranqüilamente, o Papa mandara construir nos fundos do palácio papal de Viterbo um gabinete-laboratório, onde realizaria estudos científicos. Este anexo desmoronou sobre ele em 14 de maio de 1277, existindo dúvida sobre a causa do desabamento: se acidente ou explosão, provocada por experimento seu. Gravemente ferido, Pedro Hispano faleceu em 20 de maio de 1277. Encontra-se sepultado na Catedral de Viterbo1,2,5.

 

O PENSAMENTO DO SÉCULO XIII

Pedro Hispano escreveu suas obras em meados do século XIII, período que representa verdadeira reviravolta da cultura medieval. Para bem situá-las, é necessário conhecer o pensamento filosófico subjacente. Contemporâneo e colega na Universidade de Paris dos três grandes nomes da alta Escolástica: Alberto Magno (1193-1280), Roger Bacon (1214-1292) e Tomás de Aquino (1227-1274), foi, como estes, membro do alto clero da igreja e estudioso interessado pela filosofia aristotélica e pela medicina, integrando a típica intelectualidade do século XIII. Este período do pensamento cristão é chamado de Escolástica, por ser a filosofia ensinada nas escolas da época pelos mestres, os escolásticos. A Escolástica surge do desenvolvimento da dialética, procurando, pela especulação, elaborar a filosofia cristã. Atinge seu apogeu no século XIII com a filosofia tomista (de Tomás de Aquino), sob o influxo do pensamento grego, especialmente o aristotélico, introduzido na escola medieval através da cultura árabe7.

Com o final da era clássica, precipitada pela queda do império romano no século V, ocorreram, nos séculos seguintes, estagnação intelectual e perda material da maior parte dos textos gregos e romanos, provocada pelas invasões bárbaras e pela filosofia cristã precedente. Após a depressão causada pelas devastações dos escandinavos a norte e sul e pelos sarracenos ao sul e ocidente, houve, nos séculos XII e XIII, uma mudança de rumo do pensamento medieval, desencadeada pela descoberta dos escritos de Aristóteles, preservados pelos muçulmanos e bizantinos e, então, traduzidos para o latim.

Esta "redescoberta" de Aristóteles que, na segunda metade do século XII e, principalmente, ao longo do século XIII, vai alterar os quadros tradicionais do ensino, sendo um dos fatores do apogeu da Escolástica, ocorreu através de traduções indiretas. Os árabes, após terem conquistado o oriente helenista, conheceram a ciência grega trazida por cristãos nestorianos de Jundishapur, que a haviam traduzido para o siríaco, língua que desde o século III tinha substituído o grego como língua literária da Ásia ocidental. Houve também a fonte direta de originais gregos do Império Bizantino.

Em seguida, estendendo suas conquistas até a Península Ibérica, os árabes trouxeram ao ocidente latino-cristão sua própria cultura impregnada de aristotelismo. Avicena (980-1037), que tentou harmonizar a filosofia aristotélica com a religião islâmica, e Averroes (1126-1198) que, pelo contrário, afirmava a subordinação da religião à filosofia aristotélica, foram os filósofos árabes que mais influenciaram os escolásticos.

Em meados do século XII, em Toledo, na Espanha, teve início a tradução do árabe para o latim das obras de Aristóteles, um texto há muito desfigurado por interpolações de sucessivas traduções. No século 13, Guilherme de Moerbeke fez diretamente do grego novas traduções de Aristóteles, a pedido de Tomás de Aquino. A Igreja, que ainda no início do século XIII condenava a leitura de Aristóteles, acabou por reconhecê-lo como fonte de conhecimentos comparável à Bíblia e aos Santos Padres. Nova atenção foi dada ao mundo natural e surgiram as universidades como centros de aprendizado, locais de reunião de estudantes de todos os pontos da Europa. Entre estas, a Universidade de Paris foi a mais importante, nela desenvolvendo-se o maior centro de estudos de filosofia e teologia inspirados na doutrina aristotélica.

O século XIII foi marcado pela especulação racional. A partir de 1225, os mestres da Universidade de Paris passam a aplicar a lógica aristotélica ao exame dos problemas teológicos, culminando este movimento com a Suma Teológica de Tomás de Aquino, que tenta reconciliar a razão aristotélica com a fé cristã. Inspirado na teologia tomista, Dante Alighieri (1265-1321) integrou na Divina Comédia (na qual cita Pedro Hispano) a cosmologia aristotélico-ptolomaica com o universo cristão, sintetizando a Era Medieval7.

A medicina sempre se relacionou com as correntes filosófico-religiosas predominantes, estando no ocidente medieval ligada ao cristianismo. No início deste período, foi influenciada pelos Padres da Igreja (medicina patrística), posteriormente pela atividade dos monges (medicina monástica) e, finalmente, pela filosofia Escolástica.

Durante o século XIII, o estudo de Medicina, principalmente nas Universidades de Paris, Salerno, Bolonha e Montpellier, atingiu importância considerável. Estas Universidades albergavam estudantes vindos de diferentes nações e nelas ensinavam as figuras mais prestigiosas do pensamento e da ciência do século XIII, como Arnaldo de Villanova (1235-1311), Raimundo Lullio, Alberto Magno (1206-1280), Tomás de Aquino (1227-1274), Bernard Gordon, Rogério Bacon (1214-1292), Gilbertus Anglicus (1180-1250), Thaddeus Alderotti (1223-1303), Mundinus de Luzzi (1270-1326) e Pedro de Abano (1250-1316).

O século XIII foi um período de estudo e de disseminação da medicina greco-romana, através da cultura árabe. Entretanto, a onipresença do cristianismo e a influência preponderante do clero fizeram com que a medicina se encontrasse integrada em um modo de pensar dominado pela fé cristã. Pedro Hispano, membro do alto clero e médico, é um típico representante desta época.

Enquanto a Escolástica como um todo pode ser vista como precursora da emancipação da razão, seu efeito na medicina foi prejudicial. O método hipocrático de estudo da doença à beira do leito foi substituído pelos escritos dos antigos autores sobre as doenças e a própria doença deixou de ser estudada. A observação dos sintomas e sinais foi substituída pelo raciocínio especulativo. O método dialético, baseado fundamentalmente no círculo vicioso de opiniões de autoridades, foi de pouca utilidade para a medicina, que depende principalmente da observação e da experiência.

O termo "médico", durante a Idade Média, era restrito a detentores de posição social elevada e de formação acadêmica. Os poucos médicos despendiam mais tempo pensando na enfermidade em termos filosóficos do que exercendo a prática médica. Tal atitude derivava, em parte, do próprio Aristóteles, que considerou o trabalho manual inferior ao intelectual. Como conseqüência, o povo em geral tinha pouco contato com os médicos. No século XIII, havia em Paris apenas seis médicos com contrato oficial. Mesmo na Itália, onde os médicos eram mais numerosos, era raro o enfermo ter relação terapêutica continuada com o médico8.

Na terapêutica, vários tipos de produtos eram utilizados, principalmente vegetais e, de forma geral, obedeciam ao humorismo clássico agregado às idéias de Hipócrates. O misticismo tinha papel importante, acreditando-se que procedimentos simbólicos eram eficientes não só quando utilizados isoladamente, mas também no preparo dos medicamentos; também a astrologia tinha peso importante6,8.

 

OBRA FILOSÓFICA

São atribuídas a Pedro Hispano as seguintes obras filosóficas: Summulae Logicales, Syncategoreumata, Expositio librorum Beati Dionysii, Scientia libri de anima e comentários ao De sensu et sensato, De morte et vita, De causa longitudinis et brevitatis vitae e De anima. Escreveu também Concilium de tuenda valetudine, dedicado à Branca, filha do Rei Afonso IX de Castela e esposa de Luís VIII de França9,10.

Pedro Hispano, como os demais filósofos do século XIII, foi altamente influenciado pela filosofia aristotélica, sendo sua obra máxima em filosofia, as Summulae logicales (Súmulas lógicas)11, uma sistematização da lógica de Aristóteles. Escrita entre 1230 e 1245, teve grande número de edições e se tornou o compêndio clássico de lógica em toda a Europa até o século XVII. Nas universidades medievais, a lógica era ensinada nas faculdades de artes como preparação para o ingresso nas faculdades superiores de teologia, direito e medicina e, segundo Prantl12, as Summulae logicales foram o "compêndio de lógica que maior influência exerceu na Europa cristã ocidental na Idade Média". Gilson7 relata que "A Summulae logicales do português Petrus Hispanus foi de imenso sucesso e cuja influência se exercerá durante vários séculos, sendo não apenas utilizada largamente nas Universidades medievais, como foi freqüentemente comentada e, coisa digna de nota, pelos representantes de todas as escolas filosóficas e teológicas rivais, indício seguro de que sua dialética não parecia ligada a nenhuma doutrina metafísica particular".

Dante13, que tinha 12 anos quando do pontificado de Pedro Hispano, coloca-o na Divina Comédia (Paraíso, canto 12, versos 134-135) não como papa, mas como teólogo e autor da Summulae logicales, obra em doze volumes:

...Pietro Spano, lo qual giú luce in dodici libelli (Pedro Hispano, a reluzir nos doze belos livros). Tendo como guia Tomás de Aquino, Dante encontra Pedro Hispano no quarto céu ou o céu do Sol, entre os teólogos. Foi o único papa de sua época que Dante colocou no Paraíso.

As Summulae logicales, em doze livros, é dividida em duas partes: logica antiquorum (lógica antiga), que discute a lógica aristotélica e logica nova (lógica nova), que discute as propriedades dos termos. Esta última, conhecida como "lógica terminista", constitui a parte teoricamente mais imporertante das Summulae logicales e inclui a distinção entre significatio e suppositio. Esta distinção, embora não seja originária de Pedro Hispano, foi submetida por ele ao mais profundo estudo da Escolástica, visando à correta compreensão das diferentes funções que as palavras podem ter nas proposições, ou seja, as relações da lógica com a gramática. No sexto livro das Summulae logicales, De suppositionibus, define significatio como representação de uma coisa por meio de uma palavra e suppositio como a aceitação de um substantivo sujeito como representante de entes supostos.

A obra Syncategoreumata14 (Tratado sobre as palavras sincategoremáticas) é uma espécie de adendo às Summulae logicales, ressaltando-se que, antes de falar das proposições, deve-se analisar os termos que as compõem. Os termos são divididos em categoremáticos, que têm significado preciso em si mesmos (como os nomes e os verbos) e sincategoremáticos, que não têm significado preciso e definido em si mesmos, mas a função de modificar ou determinar os nomes ou os verbos. A distinção entre termos categoremáticos e sincategoremáticos era considerada de grande importância pelos lógicos medievais. Tal distinção corresponde, aproximadamente, àquela que, na lógica contemporânea, se realiza entre variáveis e constantes lógicas. Alguns historiadores da lógica vêem nela uma antecipação da lógica formal moderna. Em Syncategoreumata, o autor faz a análise exaustiva do uso desses termos nas proposições e esta análise semântica constitui uma das principais inovações da lógica Escolástica em relação à lógica antiga7.

A análise dos termos da linguagem na dialética, que inclui a distinção entre as coisas e os significados, tem origem em Abelardo (1079-1142) e estava, por sua vez, integrada na mais ampla polêmica sobre os universais, que já preocupara a Platão e Aristóteles e dominou os debates acadêmicos e inquietações da epistemologia Escolástica. Os universais são os conceitos que podem ser aplicados a todos os indivíduos da mesma espécie, ou seja, são os gêneros e as espécies e se contrapõem aos indivíduos. Os indivíduos, ao mesmo tempo que existem na realidade, são pensados mediante seus gêneros e espécies. A polêmica dos universais compreende o problema da relação entre as idéias (universais) e as realidades (indivíduos) ou, em última análise, é o problema da relação entre as palavras e as coisas, entre o pensamento e o ser.

O problema dos universais emprestou importância aos estudos gramaticais na dialética medieval, tornando-se objeto de sistematização de Pedro Hispano. Admite ele a solução platônica dos universais (realismo), segundo a qual os mesmos teriam existência real fora da mente, ocorrendo, dessa forma, adequada correspondência entre os conceitos universais e a realidade dos objetos. Pedro Hispano parece influenciado por Avicena, cujo aristotelismo está profundamente permeado de neoplatonismo e de elementos extraídos da religião islâmica, o que permitiu fácil acolhida por pensadores cristãos.

Já a solução nominalista dos universais, que sustenta serem os mesmos meros nomes, não correspondendo a nenhuma realidade, tomou seu pleno desenvolvimento em Guilherme de Occam (1285-1349), retratado por Eco em O nome da rosa na figura de Frei Guilherme de Baskerville. Occam baseou-se nas idéias de Pedro Hispano referentes à suppositio (estudo das várias funções lingüísticas que um termo pode assumir no interior da proposição). Ele rejeita o uso da suppositio simplex de Pedro Hispano e outros filósofos medievais como representação da natureza universal (realismo). Não existindo os universais, só o conhecimento do singular é verdadeiro. Daí se conclui que o verdadeiro conhecimento deve ser prático e experimental. O nominalismo de Occam rejeitou a síntese tomista entre razão e fé, separando a teologia da filosofia e apontando o caminho da filosofia moderna e do empirismo nas ciências naturais7.

O lugar de Pedro Hispano na história da filosofia e da medicina medievais assumiu maior importância a partir de 1928, quando Grabmann4 chamou a atenção para a obra Scientia libri de anima, distinto de seu comentário sobre a obra de Aristóteles de mesmo título, espécie de compêndio de psicologia, mostrando sua singularidade na literatura filosófica da Escolástica. Constitui exposição desprendida da sistematização aristotélica e arábica e de citações de Aristóteles, Avicena e Averroes. Ultrapassa em amplidão os escritos contemporâneos afins e inova na explanação das bases fisiológicas da vida anímica, usando seus conhecimentos médicos. Ainda nesta obra encontra-se uma teoria do conhecimento que consiste no sincretismo da doutrina agostiniana da iluminação com a teoria aviceniana da emanação e das Inteligências. Em Scientia libri de animia, Pedro Hispano é adepto da tradição galênica no século XIII acerca das localizações cerebrais. Grabmann7 e Sudhoff15 consideram a psicologia mais rica, completa e sistematizada da Escolástica e, para Gilson7, é a obra mais importante de Pedro Hispano.

No Commentarium in De anima, Pedro Hispano apresenta concepção de alma mais rica e mais minuciosa do que a exposta pelos escolásticos, para quem, na versão tomista, a alma não seria mais do que a forma substancial do corpo.

 

OBRA MÉDICA

São atribuídas a Pedro Hispano as seguintes obras médicas: Thesaurus pauperum, De regimine sanitatis, Líber de conservanda sanitate, De diaetis universalibus, De diaetis particularibus, De urinis, De longitudine et brevitate vitae, Tractatus de febribus, Liber de oculo e comentários ao De animalibus de Aristóteles e a obras médicas da Antigüidade Clássica e da Idade Média. Mais recentemente, Sudhoff15 encontrou num manuscrito de Paris um pequeno tratado, De Flebotomia, e uma dietética para feridos, ambos atribuídos a Pedro Hispano.

Sua obra médica de maior difusão foi Thesaurus pauperum (Tesouro dos pobres)16, escrita provavelmente enquanto era médico de Gregório X, pois é dedicada a este papa. Teve mais de setenta cópias manuscritas entre os séculos XIII e XVII e mais de oitenta edições impressas no original latino, sendo a primeira em Antuérpia, em 1497, pouco tempo após a invenção da imprensa. Ainda no século XV foi traduzida para o italiano, espanhol, francês, português, inglês, alemão, dinamarquês, catalão e hebraico. Era uma das principais obras usada no ensino da medicina nos séculos XIV e XV. Sua grande difusão é explicada, em parte, pela referida impossibilidade de acesso do povo aos pouquíssimos médicos durante a Idade Média.

Thesaurus pauperum é uma compilação de tratamentos preconizados por vários autores, sendo citados mais de trinta, como Hipócrates, Galeno, Dioscórides, Isaac, Rasis, Avicena, Constantino Africano, Zacharias e Benvenuto de Jerusalém: "Coligi fielmente de todos os que pude encontrar, nos livros dos antigos físicos e mestres e modernos experimentadores". Freqüentemente, informa que ele próprio experimentou o medicamento. Tratava-se de formulações à base de produtos vegetais, animais e minerais, associados, em alguns casos, a procedimentos simbólicos, como era usual na Idade Média.

O título do livro deve-se ao objetivo do autor de propiciar um meio aos pobres de cuidar da própria saúde, sendo, portanto, uma espécie de obra de divulgação. Com efeito, constata-se na obra a preocupação constante do autor de cuidar da saúde do público em geral e não somente do conforto de alguns privilegiados. Já em Siena, ele demonstrava a mesma preocupação ao escrever obras sobre doenças infecciosas (Tractatus de febribus) e dietética para lesados e ao trabalhar em um leprosário15. O objetivo do autor é mais de fazer obra útil, sobretudo ao pobre, do que de realizar obra científica ou original. Cita, o mais fielmente possível, os autores clássicos e, algumas vezes, tenta uma explicação, ainda que superficial, ou uma justificação. Uma edição crítica do Thesaurus pauperum, acompanhada de tradução em português, foi publicada em 1973 por Maria Helena da Rocha Pereira16. Esta edição inclui o Tractatus de febribus, o Liber de conservanda sanitate e o De regimine sanitatis.

Textos de compilação eram correntes na Idade Média, sendo todos influenciados pela medicina árabe que, por sua vez, era derivada da tradição hipocrática. São freqüentes, inclusive, os termos árabes nas obras médicas de Pedro Hispano, presumindo-se que ele tivesse conhecimento da língua árabe, mesmo porque, durante os anos em que viveu em Portugal, os árabes ainda dominavam parte deste país.

No prólogo, anuncia seu propósito de "tratar das enfermidades da cabeça, descendo até os pés". O livro inicia-se pela queda de cabelos e pela depilação, e passa ao estudo dos exantemas da cabeça, das afecções do cérebro, da dor de cabeça, para, finalmente, tratar das doenças dos olhos, dos ouvidos, dos dentes, e assim por diante. Indica, após cada receita, o nome do autor de quem colheu a informação respectiva e apresenta, freqüentemente, sua própria opinião e experiência com o uso da preparação medicamentosa.

Para dar uma idéia da textura da obra e dos meios terapêuticos disponíveis ou acreditados no século XIII, transcrevemos alguns dos tratamentos prescritos para três condições: epilepsia, icterícia e excitação da libido16:

"Para a epilepsia. 1. Chifre de veado pulverizado e bebido com vinho cura os epilépticos. Sixto a Augusto. 2. Item dar com freqüência cérebro de raposa às crianças faz com que nunca sejam epilépticas. Idem. 3. Item tomar testículos de javali ou porco varrasco com vinho cura os epilépticos. Idem. 4. Item tomar fel de urso com água quente faz o mesmo. Idem. 5. Item beber leite de égua cura os epilépticos. Idem. 6. Item dar o líquido que destila de um pulmão de carneiro, enquanto assa, cura; e também o pulmão e os testículos. Idem. 7. Item fígado de abutre moído com sangue e bebido durante nove dias liberta os epilépticos. Idem."

"Para curar a icterícia, a receita própria é raspas de marfim, suco de hepática-das-fontes e açafrão oriental, conforme parecer conveniente, sabão gaulês, na quantidade de uma castanha; ponha-se tudo num bocado de pano e agite-se em água da fonte, o tempo suficiente para a virtude dessas coisas passar para a água e, então, administrando-as sem o doente saber, atua com muita eficácia. Gilberto. 2. Item se o doente beber, em qualquer dia, a sua urina com suco de marroio, estando em jejum, com certeza que se cura. Gilberto."

"Para excitar o coito, triturem-se bagas de loureiro e prepare-se uma confecção das mesmas com suco de satirião; untem-se com isso os rins e as partes genitais; excita poderosamente ao coito. Experimentador. 2. Item fervam-se em azeite eufórbio bagas de loureiro, eruca e raiz de satirião triturados, para ficar um ungüento; untem-se as partes genitais e os rins; excitam admiravelmente o poder de geração. Experimentador."

O Liber de oculo é um tratado de oftalmologia clínica, constituído por 93 capítulos. Serviu como livro-texto de oftalmologia por dois séculos, sendo citado por vários autores, inclusive Guy de Chauliac (1300-1367), o mais famoso cirurgião da Idade Média, e Arnaldo de Villanova (1225-1311), possuidor de conhecimento enciclopédico e uma das mais extraordinárias personalidades da Escolástica. Em parte, o De oculo coincide com o capítulo oito (De dolore oculorum) do Thesaurus pauperum, que versa sobre os olhos17. O autor apresenta o livro como fruto da sua experiência, tendo-o escrito a pedido de um discípulo. No primeiro capítulo, descreve minuciosamente a anatomia do olho, distinguindo nele sete túnicas e três humores. Apresenta sua concepção sobre a fisiologia da visão de acordo com a teoria aceita na época, segundo a qual os raios visuais emitidos pelo olho iriam pousar sobre os objetos, estabelecendo assim um contato entre o mundo do espírito e o meio ambiente. Descreve os músculos motores do olho e identifica várias das suas doenças. Atribui ao sistema nervoso central algumas anomalias da visão, conceito original para a época. Cita Hipócrates, Avicena, Constantino, o Africano, e outros médicos da Antigüidade Clássica e da Idade Média. Há, nesta obra, várias considerações clínicas tiradas da própria prática do autor e algumas receitas, principalmente de águas, para conservar a vista. Michelangelo, que na velhice apresentava problemas oculares e morreu quase cego, usava um colírio prescrito nesta obra, denominado aquae mirabilis, composto de vinte vegetais triturados em vinho, e depois diluídos em urina de mulher virgem e destilados em alambique3.

O Líber de conservanda sanitate é um extenso repertório de orientações sobre atividades físicas e alimentares para conservar a saúde, escrita em forma de epístola e dedicada a Frederico II, imperador do Sacro Império Romano Germânico. No prefácio, define saúde como "uma disposição que conserva o que é natural no homem, segundo o curso da natureza" e afirma que "é mais útil prevenir as doenças do que, uma vez contraídas, pedir auxílio, que provavelmente é impossível". Aconselha moderar-se na alimentação "porquanto morrem muitíssimos de excesso de saturação, e poucos de inanição" e aconselha "beber vinho claro e bom". Por outro lado, desaconselha o excesso de banhos, pois "os banhos em certo modo são uma coisa deliciosa, mas quanto bem fazem é também quanto inconveniente causam". Prescreve "coisas que fazem bem e mal" para cada órgão, "começando pelo cérebro, por ser a raiz de todo o corpo". Define o cérebro como "o órgão principal, nobre, esponjoso, de cor branca, composto de três partes, base de todo o corpo, e denominado sede da alma pelos profetas". Tais afirmações mostram a influência dos conceitos de Hipócrates e não de Aristóteles, para quem o coração era o centro das emoções.

Em 1927, Grabmann4 descobriu, na Biblioteca Nacional de Madri, o manuscrito 1877, composto de um conjunto de obras médicas, comentários a escritos de Hunain Ibn Isaac, Galeno, Hipócrates, Abu Diafar Ahmad, Isaac Israeli e Aristóteles, atribuídos a Pedro Hispano. Em 1931, Wingate18 encontrou o manuscrito G.4853 do Fondo Conventi Soppressi, da Biblioteca Nacional de Florença, com questões sobre o De animalibus, também atribuídas a Pedro Hispano. Esta obra parece ser anterior ao manuscrito de Madri e contém notas das suas lições em Siena.

São as seguintes as obras comentadas da Biblioteca Nacional de Madri, atribuídas a Pedro Hispano4,15:

  • Isagoge ad artem parvam Galeni, de Hunain Ibn Ishac, o Johanitius dos latinus
  • Microtecne ou Ars parva, de Galeno
  • De regimine acutorum, de Hipócrates
  • Prognosticon, de Hipócrates
  • De viatico, de Abu Diafar Ahmad
  • De dietis particularibus e De dietis universalibus, de Galeno
  • De pulsibus, de Filareto
  • De urinis, de Issac Israeli
  • De crisibus e De diebus decretoriis, de Galeno
  • De animalibus, de Aristóteles
  • Estas obras estão relacionadas com o ensino médico e são comentários em forma de quaestiones (a abordagem clássica dos compêndios da Idade Média) aos tratados das ciências grega e árabe que constituíam os manuais da época. Sudhoff15 afirma que "todos estes trabalhos destinavam-se ao ensino elementar dos jovens estudantes de medicina. Ao ensino dos adiantados serviam Quaestiones super libro de animalibus Aristotelis...".

    Nas quaestiones sobre o De dietis universalibus de Ysaac Israele, Pedro Hispano disserta sobre a importância do método experimental (via experimenti), que compara com o discorrer da razão (via rationis), dois métodos que se completam. No comentário ao Viaticum de Abu Gazzar Ahmad (Ibn al Gazar), analisa o morbus amoris, descrevendo em pormenores as diferenças do apetite e do prazer sexual no homem e na mulher.

    De todos esses comentários, aquele sobre De animalibus, de Aristóteles, tem especial importância histórica. Nos século IX, Iahya Ibn el-Batric traduziu para o árabe os três primeiros tratados do De animalibus: De historia animalium, De partibus animalium e De generatione animalium. Foi Miguel Escoto (1175-1235) quem realizou em Toledo, por volta de 1210, a primeira tradução latina dos três primeiros tratados do De animalibus. Os outros dois tratados desta obra (De motu animalium e De progressu animalium) só foram traduzidos para o latim em 1260, quando Guilherme de Moerbeke fez, diretamente do grego, novas traduções de Aristóteles, a pedido de Tomás de Aquino7,9,18.

    Nas Questiones super libro de animalibus, o texto que serve de base a este comentário é o da tradução árabe-latina de Miguel Escoto. Como, por vezes, aparece a expressão "circa lectionem istam", Grabmann4 admite que este comentário resultou de preleções e cursos. Considera-o muito anterior à obra de Alberto Magno e o mais antigo comentário às obras zoológicas de Aristóteles, que teve poucos comentadores na Escolástica, enquanto são numerosos os que têm por objeto os escritos lógicos, a metafísica e a física. Por isso, o comentário de Pedro Hispano se reveste de significado especial.

    Cruz Pontes10, por meio do estudo comparativo com os escolásticos do século XIII, coloca Pedro Hispano na linha dos que primeiro tomaram contato com as doutrinas aristotélicas. Como nos tratados de Rogério Bacon, durante seu magistério parisiense, não se encontram quaestiones sobre o De animalibus, o trabalho de Pedro Hispano seria o primeiro escrito da Escolástica sobre a zoologia aristotélica. O mais célebre comentário sobre o De animalibus é, porém, o de Alberto Magno, em vinte e seis livros, que usa o texto da tradução de Miguel Escoto e a tradução grego-latina de Guilherme de Moerbeke, o que permite deduzir que a redação é posterior a 1260, ano em que este concluiu a tradução grego-latina das obras de Aristóteles. Muito provavelmente, o monumental trabalho de Alberto Magno, que junta aos tratados de Aristóteles várias investigações pessoais e é a mais original contribuição da Idade Média à zoologia, é responsável por manter na obscuridade o comentário atribuído a Pedro Hispano.

     

    REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

    1- Stapper R. Papst Hohannes XXI. Munster, 1898:26-38.

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