RMMG - Revista Médica de Minas Gerais

Volume: 26. (Suppl.8)

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Artigo Original

Consumo de álcool e condições de trabalho: uma revisão integrativa

Alcohol consumption and working conditions: an integrative review

Gerferson André Silva Costa1; Tatiana Helga da Silva2; Andréa Maria Silveira3

1. Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear - CDTN/CNEN; Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, Faculdade de Medicina - FM, Programa de Pós-graduação em Promoção da Saúde e Prevenção da Violência. Belo Horizonte, MG - Brasil
2. Hospital Governador Israel Pinheiro; UFMG, FM, Programa de Pós-graduação em Promoção da Saúde e Prevenção da Violência. Belo Horizonte, MG - Brasil. 3 UFMG, FM, Departamento de Medicina Preventiva e Social, Programa de Pós-graduação em Promoção da Saúde e Prevenção da Violência. Belo Horizonte, MG - Brasil.

Endereço para correspondência

Gerferson André Silva Costa
E-mail: andre-scosta@hotmail.com

Instituição: Faculdade de Medicina da UFMG Belo Horizonte, MG - Brasil

Resumo

OBJETIVO: este estudo realizou revisão bibliográfica sobre as possíveis associações entre condições de trabalho e o consumo de álcool.
METODOLOGIA: trata-se de estudo qualitativo, do tipo revisão bibliográfica integrativa. Foram selecionados artigos da base de dados da Bireme e da Pubmed que tratavam sobre tema.
RESULTADOS E DISCUSSÃO: foram encontrados 10 artigos disponíveis e/ou que mostravam associação entre consumo de álcool e condições de trabalho. Apesar de ser um estudo qualitativo, os resultados mostraram que vários riscos (físicos, químicos e ergonômicos), demandas (psicológicas) e falta de suporte social no trabalho estavam possivelmente associados ao consumo indevido de álcool.
CONCLUSÃO: este estudo mostrou que certas condições de trabalho podem estar associadas ao consumo abusivo de álcool e estudos que investiguem a relação de causalidade entre essas variáveis devem ser realizados. O álcool é um problema de saúde pública, sendo certas características do trabalho possíveis fatores de risco para o seu consumo. Assim, estratégias de prevenção devem ser elaboradas, a fim de impedir o seu consumo prejudicial.

Palavras-chave: Consumo de Bebidas Alcoólicas; Condições de Trabalho; Educação em Saúde; Promoção da Saúde.

 

INTRODUÇÃO

O álcool é a droga mais consumida no mundo.1 Sabe-se que o seu uso indevido pode trazer uma série de consequências, desde doenças (o álcool contribui com cerca de 200 doenças e agravos), mortes (a cada 100 segundos, aproximadamente, uma morte ocorre devido o uso de álcool), danos a terceiros (acidentes de trânsito, violência, acidentes de trabalho, etc.) e prejuízo econômico para um país (o álcool é responsável por levar indivíduos à incapacidade na sua faixa etária mais produtiva).2

No "I levantamento nacional sobre os padrões de consumo de álcool na população brasileira", foi evidenciado que 52% dos brasileiros bebem pelo menos uma vez por ano. Além disso, no ano anterior à entrevista, apurou-se que 60% dos homens consumiram cinco doses ou mais, contra 33% das mulheres. Quando se analisa o consumo mais frequente dos homens, evidencia-se que 11% bebem todos os dias e 28% consomem bebida alcoólica uma a quatro vezes por semana.1 Os prejuízos acarretados pelo consumo de álcool variam de acordo com a quantidade consumida e com os padrões de consumo.

Analisando o consumo de bebida alcoólica por região do Brasil, foi evidenciado que a região Sul é a com maior porcentagem de consumo de álcool uma ou mais vezes por semana.3 Porém, o consumo abusivo de bebida alcoólica (cinco ou mais doses em um único episódio para homens e quatro ou mais doses para mulheres), também conhecido como "beber pesado episódico" ou, internacionalmente, "binge drinking", teve maior porcentagem nas regiões Centro-Oeste e Nordeste.3 Sabe-se que esse tipo de consumo de bebida alcoólica é mais perigoso por trazer importantes modificações neurofisiológicas (comprometimento cognitivo, diminuição da capacidade julgamento, etc.).3

Tais números mostram a necessidade de se compreender as possíveis causas que levam os indivíduos a consumirem bebida alcoólica e em quais aspectos as políticas de saúde deveriam ser elaboradas para reduzir e/ou prevenir o seu consumo nocivo. Algumas teorias revelam que o consumo de bebidas alcoólicas pode estar relacionado à busca pela inclusão num determinado grupo ou mesmo quando o objetivo são os efeitos farmacológicos trazidos pelo álcool (calmante, estimulante, relaxante, indutor do sono, etc).4

Estudos recentes têm tentado identificar características do ambiente de trabalho e das relações estabelecidas que poderiam favorecer o consumo de bebida alcoólica.5,6 Possivelmente, o sofrimento advindo da relação de desigualdade entre "trabalho e capacidade física e intelectual e projetos de vida" pode favorecer o adoecimento físico e mental do trabalhador.7

Como o trabalho é essencial aos indivíduos de uma sociedade, entender como ele é executado, organizado e a que condições o trabalhador se expõe para obter o produto de sua atividade pode levar a possíveis associações com o consumo indevido de bebida alcoólica. Partindo desse pressuposto, a presente revisão objetiva explorar as possíveis associações entre condições de trabalho e alcoolismo.

 

METODOLOGIA

Trata-se de um estudo qualitativo, do tipo revisão integrativa. Esse tipo de revisão busca sistematizar o conhecimento produzido ao longo dos anos sobre um tema, a fim de problematizá-lo, compreendê-lo e/ou traçar novos caminhos de pesquisa.8

A pergunta que esta pesquisa pretende responder é: quais características do local e da organização do trabalho têm sido associadas ao consumo de álcool? Para isso, utilizaram-se como critérios de inclusão todas as pesquisas que investigaram possíveis associações entre variáveis do trabalho e o consumo de álcool. As bases de dados utilizadas foram a Bireme e a Pubmed.

Os descritores utilizados para a pesquisa de artigos foram: alcoolismo/alcoholism AND "condições de trabalho"/"working conditions" e álcool/alcohol AND "condições de trabalho"/"working conditions". O intervalo de tempo pesquisado foram os 10 últimos anos (2006-2016). Para os primeiros termos utilizados foram encontrados sete artigos, dos quais apenas dois estavam disponíveis e/ou condiziam com o tema (após a leitura dos títulos). Para os descritores álcool/alcohol AND "condições de trabalho"/"working conditions" foram encontrados 175 artigos, dos quais apenas 10 estavam disponíveis para leitura e/ou condiziam com o tema da pesquisa, de acordo com a leitura do resumo.

Após a seleção dos artigos, foram feitas a sua leitura na íntegra e a criação de categorias com os principais resultados encontrados sobre o tema.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Para melhor discussão, os resultados foram divididos em categorias, de acordo com os temas abordados em cada artigo e sua possível relação com o consumo de bebida alcoólica.

Status socioeconômico do local de trabalho e o uso de álcool

Estudo realizado na Finlândia com professores de escolas públicas mostrou que o status socioeconômico do bairro onde estava localizada a escola indicava associação com o uso pesado de bebida alcoólica (> 275 g de álcool/semana)9. Possivelmente, fatores prejudiciais como a violência ou menores condições socioeconômicas dos locais de trabalho estariam relacionados ao consumo pesado de álcool.

Estresse e exposição a riscos no trabalho e o consumo de bebida alcoólica

Salonsalmi et al.10 identificaram que condições psicossociais do trabalho explicavam, em parte, a associação entre consumo de bebida alcoólica e o absenteísmo do trabalho entre homens. A possível justificativa para essa associação estaria no fato de o consumo de bebida alcoólica ser motivado pela necessidade de atenuar o estresse do trabalho. O consumo frequente de bebida alcoólica ocasionaria o adoecimento desse trabalhador e traria, por consequência, a sua ausência do trabalho.

Outro estudo que buscou identificar as possíveis associações entre alto consumo de bebida alcoólica e certas características do trabalho foi realizado na Espanha. Colell et al.6 confirmaram a associação entre "beber pesado" (≥ 40 g de álcool/dia para homens e ≥ 24 g de álcool/dia para mulheres) e quatro medidas de estresse relacionadas ao trabalho (ambiente nocivo de trabalho - calor, frio, odores, ruído e/ou permanece em posições desconfortáveis; extensas jornadas de trabalho; insegurança sobre o futuro no trabalho e o sentimento de estar adequadamente treinado para executar o trabalho) em trabalhadores espanhóis.

Bartram et al.11 fizeram pesquisa com veterinários do Reino Unido e eles identificaram que quanto menor era a demanda psicológica no trabalho, menor era o consumo de álcool de risco (frequência, quantidade de bebida alcoólica e frequência do beber pesado episódico).

Por fim, em uma pesquisa realizada com trabalhadores latinos imigrantes nos Estado Unidos, muitos dos entrevistados relataram consumir bebida alcoólica, devido às dificuldades relacionadas à imigração, como o subemprego, as dificuldades financeiras e o fato de estarem longe de suas famílias.12 A motivação para o consumo de bebida alcoólica surgia da necessidade de relaxar após um dia de trabalho árduo.

Insegurança no trabalho e o consumo de bebida alcoólica

O estresse relacionado ao trabalho, devido à exposição a uma série de fatores de risco ou mesmo à exposição a um tipo de violência, mostrou-se como uma possibilidade de associação ao abuso e dependência do álcool, em motoristas de ônibus.13 Esse fato evidencia que a insegurança no ambiente de trabalho tem um fator importante na associação com a bebida alcoólica.

Duração do período de trabalho e o consumo de bebida alcoólica

Estudo canadense que objetivava estimar as contribuições das condições e da organização do trabalho no consumo de álcool de alto risco mostrou que a quantidade de horas trabalhadas e a insegurança no trabalho estavam diretamente associadas a esse consumo.5 De acordo com este estudo, uma pessoa que trabalha 50 horas por semana tem 10% a mais de chance de se tornar um consumidor de alto risco (consumo superior a 15 doses/semana de bebida alcoólica para homens e acima de 10 doses/semana para mulheres). Além disso, a chance do consumo de álcool de alto risco aumenta 27% para cada aumento na escala de insegurança no trabalho (aferidas pelo Job Content Questionnaire). Para esses pesquisadores, esse consumo de álcool está relacionado à tentativa de amenizar os fatores de estresse no ambiente de trabalho.

Em pesquisa realizada com pescadores e marinheiros mercantes verificou-se que o consumo de mais de 60 g de álcool em um dia habitual foi maior em pescadores, assim como o consumo de risco do álcool, de acordo com os critérios da Organização Mundial de Saúde, era maior também em pescadores.14 As variáveis do trabalho não foram avaliadas detalhadamente. A única variável que poderia indicar uma possível relação com o consumo de álcool foi o tempo de permanência em alto mar, que foi maior no grupo de pescadores. Pesquisa mais detalhada a respeito das condições de trabalho entre essas categorias poderia ser realizada, a fim de investigar as possíveis associações com o consumo de álcool.

Outra pesquisa com pescadores revelou que 68% deles relataram consumir bebida alcoólica e aproximadamente 10% referiram consumir durante as viagens.15 Essa mesma pesquisa evidenciou que, além do consumo de álcool, uma dieta pobre e o tabagismo eram possíveis explicações para sintomas cardiovasculares, respiratórios e gastrintestinais. Tal informação mostra que a bebida alcoólica pode contribuir com o adoecimento do trabalhador e piorar a sua qualidade de vida no trabalho.

Sexo, raça e os problemas relacionados ao álcool

Em estudo realizado com trabalhadores agrícolas na África do Sul identificou-se que possuíam problemas relacionados ao álcool: 45,3% dos homens (contra 27,3% das mulheres), 13,8% da raça/cor preta (contra 1,7% dos brancos) e 25,9% da faixa etária de 18-34 anos16. Esses autores acreditam que provavelmente a pobreza, o estresse no trabalho e o sistema de fornecer bebida alcoólica ao trabalhador como forma de pagamento explica o alto número de trabalhadores com problemas relacionados ao álcool.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os problemas relacionados ao consumo de bebida alcoólica são de ordem tanto física quanto psicológica. Entender o que motiva os indivíduos a consumirem o álcool é de grande importância para o estabelecimento de políticas públicas em saúde e execução de atividades preventivas.

Apesar da quantidade de artigos disponíveis e/ou com o tema em questão ter sido reduzida (apenas 10 artigos), a síntese dos resultados encontrados mostrou que certas características no trabalho podem contribuir para o consumo de bebida alcoólica. A violência no trabalho, a exposição aos riscos (físicos, químicos e ergonômicos), a duração da jornada de trabalho, o estresse, a alta demanda no trabalho, o sexo, a raça, a faixa etária e a própria localização do trabalho podem contribuir para um consumo exagerado de bebida alcoólica tanto ao longo de uma semana, quanto em uma única ocasião.

Este estudo revela a necessidade de pesquisas que possam estabelecer a relação de causa e efeito entre condições de trabalho e os problemas relacionados ao consumo de bebida alcoólica.

O trabalho, sendo uma atividade essencial aos indivíduos em sociedade, por proporcionar a aquisição de bens materiais, conforto e status social, deve ser analisado. E intervenções que propiciem um ambiente saudável para a execução das atividades laborativas devem ser almejadas e conquistadas.

O alcoolismo representa um problema de saúde pública, trazendo danos não só ao indivíduo, como para o país, que perde em termos de força produtiva. Com informações bem analisadas estatisticamente, ter-se-á a certeza dessas associações. E estratégias de prevenção do adoecimento da classe trabalhadora, devido ao alcoolismo, serão mais efetivas e duradouras.

 

REFERÊNCIAS

1. Laranjeira R, Pinsky I, Zaleski M, Caetano R, Duarte PCAV. I levantamento nacional sobre os padrões de consumo de álcool na população brasileira. Brasília: Secretaria Nacional Antidrogas; 2007.

2. Pan American Health Organization (PAHO). Regional status report on alcohol and health in the Americas. Washington, DC: PAHO; 2015.

3. Ministério da Saúde (BR). Datasus. Pesquisa Nacional de Saúde. Módulo estilo de vida: uso de álcool e tabagismo. [citado em 2016 out. 26]. Disponível em: http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/deftohtm.exe?pns/pnspf.def.

4. Ministério da Saúde (BR). Representação do Brasil. Doenças relacionadas ao trabalho: manual de procedimentos para os serviços de saúde. Brasília: Ministério da Saúde; 2001. p.580.

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10. Salonsalmi A, Laaksonen M, Lahelma E, Rahkonen O. Drinking habits and sickness absence: the contribution of working conditions. Scandinav J Public Health. 2009; 37(8): 846-54.

11. Bartram DJ, Sinclair JMA, Baldwin DS. Alcohol consumption among veterinary surgeons in the UK. Occup Med. 2009; 59(5): 323-6.

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