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ISSN: 0103-880X eISSN: 2238-3182
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Relato de Caso

Ozonoterapia como tratamento adjuvante na ferida de pé diabético

Ozonetherapy as adjuvant in the treatment of diabetic foot

Claudia Catelani Cardoso1; Edson Dias Filho2; Nemer Luís Pichara3; Eliane Golla Cristóvao Campos4; Maria Aparecida Pereira5; Joao Evangelista Fiorini6

Rev. Méd. Minas Gerais, 20(0), 442-445

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RESUMO

O diabetes mellitus é doença crônica que afeta mais de 120 milhoes de pessoas no mundo, muitas delas acometidas por úlceras no pé, podendo levar à amputação do mesmo, o que acarreta acentuados prejuízos para o paciente e o sistema de saúde. A ozonoterapia apresenta-se como promissora alternativa coadjuvante no tratamento dessas lesões, pois é bioxidativa com efeitos antimicrobianos e promotora de neoangiogênese. Causa, ainda, aumento local no número médio de fibroblastos, melhora a capacidade de transporte de oxigênio (O2) por parte dos eritrócitos, além de estimular o sistema imunológico. O caso clínico relatado refere-se ao tratamento de uma paciente diabética, aterosclerótica, com história de úlcera infectada associada à osteomielite em quarto pododactilo direito, com perfusão sanguínea, incompatível com cicatrização. Foram realizadas revascularizações e debridamentos cirúrgicos sucedidos de infecções recorrentes. A ozonoterapia tópica com hidro-ozononoterapia, bagging (mistura gasosa de O3/O2) e curativos com óleo de girassol e creme ozonizados foram introduzidos como adjuvante na terapia convencional. Seguindo o tratamento, observou-se redução do exudato purulento, formação rápida de tecido de granulação, reparação de grande área da ferida e alívio da dor. Houve um episódio de recorrência de infecção, o qual foi tratado cirurgicamente com resposta terapêutica semelhante. A cicatrização total se deu em cerca de 90 dias.

Palavras-chave: Ozônio/uso terapêutico; Cicatrização de Feridas; Pé Diabético/terapia.

INTRODUÇÃO

Aproximadamente 15% dos diabéticos desenvolverao úlceras, dos quais 15 a 20% irao requerer algum tipo de amputação. As úlceras crônicas representam, ainda, quase 50% das causas de internação dos pacientes diabéticos.1 Isso ocorre porque os pés são partes vulneráveis às complicações diabéticas, pois são expostos quotidianamente a traumas de repetição. As feridas no diabético tendem a cicatrizar-se lentamente e apresentam-se frequentemente associadas à infecção de difícil resolução que, na maioria dos casos, requerem intervenções cirúrgicas. Esse quadro é agravado pela reduzida circulação nos membros inferiores (principalmente dos joelhos aos pés), ocasionada pela aterosclerose, que promove redução do calibre das artérias (microangiopatia) e a progressiva destruição dos nervos que chegam ao pé e que, por sua vez, causam redução da sensibilidade (propriocepção e tato epicrítico) e consequente alteração da distribuição do peso corporal na superfície plantar, favorecendo o aparecimento das lesões por hiperpressão. A proteção ineficiente e ferimentos acidentais podem causar ulcerações que, em casos mais graves, levam à amputação de parte ou de todo o membro.

O ozônio é a forma triatômica do oxigênio. É uma molécula altamente reativa, porém instável. Pode ser produzida artificialmente, por geradores medicinal ou industrial ou naturalmente. Recentes avanços nas áreas de bioquímica, imunologia e microbiologia sugerem esse recurso como importante alternativa em uma série de condições clínicas2, estando entre as mais reconhecidas as doenças vasculares periféricas3, o tratamento da hérnia de disco4 e o tratamento de feridas de difícil cicatrização5.

Pesquisas atuais demonstraram que o ozônio é produzido quando há formação do complexo antígeno-anticorpo no corpo humano, o que comprova que essa molécula é fisiologicamente produzida via sistema imunológico.6 A terapia com derivados ozonizados como a água e o óleo de girassol ozonizados tem como principais objetivos armazenar o oxigênio ativo do ozônio para posterior utilização sem os riscos da inalação do gás.7

A assim chamada ozonoterapia tópica pode se apresentar como alternativa para auxílio no tratamento de lesões em diabéticos, pois, além de seu poder antimicrobiano, estimula a formação de novos vasos na regiao afetada, aumentando a irrigação local, acelerando a formação de tecido de granulação e diminuindo o tempo de cicatrização8,9, podendo, ainda, ser uma forma de induzir a adaptação ao estresse oxidativo.

 

RELATO DE CASO

SF, feminino, leucoderma, 78 anos, portadora de hipertensão arterial sistêmica de longa data, arritmia cardíaca, com diabetes mellitus não-insulino dependente e não-tabagista procurou o consultório médico com queixa principal de ferida no terceiro pododáctilo direito. Quando indagada, relatou que a lesão teve surgimento súbito, sendo precipitada por pequeno trauma direto. Descrevia, ainda, dor discreta e edema local.

Ao exame clínico, a paciente encontrava-se em bom estado geral, corada, afebril, eupneica, hidratada, consciente, aparelho respiratório normal, extrassístoles eventuais e pressão arterial (PA) de 130/80 mmHg. Apresentava-se hiperêmica e com edema no terceiro pododáctilo direito com tecido necrótico, sugerindo osteomielite. Indice de pressão perna-braço (IPB) igual a 0,3. Após revasculização, que elevou o IPB a 0,6, foram realizados debridamentos em função de infecções sucessivas com amputação do terceiro, quarto e quinto pododáctilos direitos (Figura1).

 

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Figura 1 - Aspecto do pé diabético com exudato purulento, fibrina e tecido necrótico, após sucessivas intervenções cirúrgicas.

 

Iniciou-se entao a ozonoterapia tópica, que consistiu de banhos (hidro-ozonoterapia-Ozonomatic®) (Figura 02) seguidos de curativos de demora com óleo ozonizado. A hidro-ozonoterapia teve por finalidade remover a secreção e a matéria orgânica, promover a abertura dos poros, hidratar e melhorar a circulação periférica, facilitando o trabalho de remoção de fibrina e tecido isquêmico. Nas primeiras cinco sessões foi aplicado o óleo ozonizado puro e a partir da sexta sessão, creme ozonizado a 30%. Foram realizadas, no total, 26 sessões de ozonoterapia tópica. Domiciliarmente, a paciente foi instruída a aplicar óleo ozonizado a 50%, uma vez por dia, por 15 dias. Posteriormente, na concentração de 10% até o final do tratamento. No quinto dia de tratamento já era possível observar diminuição progressiva da área lesada, áreas de granulação, diminuição do processo infeccioso (eliminação do odor fétido) e diminuição da fibrina.

 

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Figura 2 - Hidro-ozonoterapia com equipamento Ozonomatic® (emulsão com óleo de girassol ozonizado a 1% + água ozonizada).

 

Na fase intermediária do tratamento havia grande área de granulação (Figura 3). Outra intervenção cirúrgica para a remoção do segundo pododáctilo direito foi necessária, por constatarem-se sinais de osteomielite.

 

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Figura 3 - Após duas semanas: área de granulação e sinais de osteomielite no segundo pododáctilo direito.

 

Na 10ª semana de tratamento foi introduzida mistura gasosa (bagging) de oxigênio e ozônio, antes da hidro-ozonoterapia, o que incrementou significativamente a velocidade do processo de cicatrização. Após 14 semanas do início do tratamento a ferida estava completamente cicatrizada (Figura 4).

 

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Figura 4 - Após 14 semanas - cicatrização total da ferida.

 

DISCUSSÃO

Numerosos artigos têm sugerido relação entre o diabetes mellitus e o estresse oxidativo.10,11 A hiperglicemia acarreta a geração de espécies reativas de oxigênio, que podem superar a capacidade de defesa das enzimas antioxidantes. Esses acontecimentos estao associados às complicações do diabetes tais como as doenças microvasculares na retina, nos rins e nos nervos periféricos. O diabetes pode acelerar o aparecimento de doenças ateroscleróticas macrovasculares, que afetam o suprimento sanguíneo para o coração, cérebro e para a extremidade dos membros inferiores. Em decorrência disto, esses pacientes têm alto risco de sofrer infarto do miocárdio, derrames e amputações dos membros. Por ser a úlcera complicação comum e dispendiosa e que pode conduzir à amputação do membro, Anichini et al.12 investigaram os efeitos da ozonoterapia local no tratamento de úlceras em pé diabético. Os autores concluíram que a ozonoterapia parece acelerar a cicatrização de úlceras e reduzir a necessidade de amputação.

Outros autores relatam a importância da ozonoterapia no tratamento de úlceras crônicas, uma vez que o ozônio demonstrou propriedades antissépticas, induziu a formação de tecido de granulação e a neoangiogênese.13

No caso clínico descrito neste artigo, a ozonoterapia tópica pode ter agido:

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Induzindo a neoangiogênese, aumentando, consequentemente, o fluxo sanguíneo no local da ferida;

evitando a proliferação de microrganismos, principalmente com desinfecção e limpeza da ferida;

promovendo a adaptação do tecido ao estresse oxidativo.

Esses fatores, associados à revascularização e às intervenções cirúrgicas, levaram à cicatrização total, uma vez que sem infecção e com irrigação suficiente o processo de cura foi favorecido.

A paciente continua com acompanhamento.

 

CONCLUSÃO

A ozonoterapia associada à terapia convencional favoreceu a cicatrização da úlcera em pé diabético, provavelmente porque apresenta fortes propriedades antissépticas, causa oxigenação local de per se e, devido à neovascularização induzida, acelera a reparação tissular .

 

REFERENCIAS

1. Ronald A. Sherman Maggot therapy for treating diabetic foot ulcers unresponsive to conventional therapy. Diabetes Care. 2003;26:446-51.

2. Leon OS, Menendez S, Merino N, Castillo R, Sam S, Perez L, et al. Ozone oxidative preconditioning: a protection against cellular damage by free radicals. Mediators Inflamm. 1998;7(4):289-94.

3. Verrazzo G, Coppola L, Luongo C, Sammartino A, Giunta R, Grassia A, et al. Hyperbaric oxygen, oxygen-ozone therapy, and rheologic parameters of blood in patients with peripheral occlusive arterial disease. Undersea Hyperb Med. 1995;22(1):17-22.

4. Andreula CF, Simonetti L, Santis F, Agati R, Ricci R, Leonardi M. Minimally invasive oxygen-ozone therapy for lumbar disk herniation. AJNR Am J Neuroradiol. 2003;24:996-1000.

5. Luongo M, Ferrara L, Giordano G, Genio FD, Paolella V, Mascolo L, Sammartino A, Luongo C. Advanced dressings and oxygen-ozone therapy to treat ulcers in chronic obliterant peripheral artheriopathies (AOCP). Eur J Clin Invest. 2003;33:45.

6. Babior BM, Takeuchi C, Ruedi J, Gutierrez A, Wentworth Jr P. Investigating antibody-catalyzed ozone generation by human neutrophils. Proc Natl Acad Sci USA. 2003;100(6):3031-4.

7. Nagayoshi M, C Kitamura, Fukuizumi T, Nishihara T, Terashita M. Antimicrobial effect of ozonated water on bacteria invading dentinal tubules. J Endod. 2004;30(11):778-81.

8. Rodrigues KL, Cardoso CC, Caputo LR. Cicatrizing and antimicrobial properties of an ozonized oil from sunflower seeds. Inflammopharmacology. 2004;12(3):261-70.

9. Cardoso CC, Macedo SB, Carvalho JCT. Azione dell'Olio Ozonizzato (Bioperoxoil ®) nelle Lesione Chirurgiche dei Modelli Pre- Clinici. Farmaci & Terapia Int J Drugs Therapy. 2002;19(1/2):56-60.

10. Koya D, Hayashi K, Kitada M, Kashiwagi A, Kikkawa R, Haneda M. Effects of antioxidants in diabetes-induced oxidative stress in the glomeruli of diabetic rats. J Am Soc Nephrol. 2003;14:250-253.

11. Avogaro A, Elisa P, Lorenzo C. Monocyte NADPH Oxidase Subunit p22phox and inducible hemeoxygenase-1 gene expressions are increased in type ii diabetic patients: relationship with oxidative stress . J Clin Endocrinol Metab. 2003;88:1753-9.

12. Anichini R, Bellis A, Butelli L, Gioffredi M, Gori R, Picciafuochi, et al. Ozone-therapy in treatment of diabetic foot ulcers: a suggestive approach in wound bed preparation. Eur J Clin Invest. 2003;33(1):46-7.

13. Bearzatto A, Vaiano F, Franzini M. O2-O3-therapy of nonhealing foot and leg ulcers in diabetic patients. Eur J Clin Invest. 2003;33(1):44-6.

Claudia Catelani Cardoso

Afiliação: Doutora em Quimioterapia - Universittá di Millano, Itália

Edson Dias Filho

Afiliação: Médico-Cirurgiao Vascular - Santa Casa de Misericórdia de Sao José do Rio Preto-SP, Brasil

Nemer Luís Pichara

Afiliação: Acadêmico de Medicina - UNIFENAS, Alfenas-MG, Brasil

Eliane Golla Cristóvao Campos

Afiliação: Farmacêutica Bioquímica - Farmácia Artemísia, Sao José do Rio Preto - SP, Brasil

Maria Aparecida Pereira

Afiliação: Acadêmica de Farmácia - UNIFENAS, Alfenas-MG, Brasil

Joao Evangelista Fiorini

Afiliação: Professor Doutor - Pesquisador Sênior - UNIFENAS, Alfenas-MG, Brasil

Recebido em: 10/05/2006

Aceito em: 08/07/2009

Instituiçao: Universidade de Alfenas - UNIFENAS Laboratório de Biologia e Fisiologia de Microrganismos Centro de Estudos com Ozônio. Alfenas - MG, Brasil.

Endereço para correspondência

Joao Evangelista Fiorini
Rodovia MG 179, Km 0
Alfenas, MG - Brasil CEP: 37130-000
E-mail: microrganismo@unifenas.br

Altmetrics, Dimension e PlumX ficam disponíveis quando o artigo tiver um DOI.

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Como citar este artigo

Cardoso, CC, Filho, ED, Pichara, NL, Campos, EGC, Pereira, MA, Fiorini, JE. Ozonoterapia como tratamento adjuvante na ferida de pé diabético. Rev. Méd. Minas Gerais. 20(0):442-445.

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