INTRODUÇÃO
O sistema imunológico do recém-nascido apresenta habilidade limitada em montar uma resposta efetiva do ponto de vista quantitativo e qualitativo contra patógenos invasivos, implicando mais suscetibilidade a infecções. Sabe-se que quanto menor o período gestacional, menos desenvolvido será o sistema imunológico ao nascimento, de forma que recém-nascidos prematuros extremos (<28 semanas) apresentam risco 5-10 vezes mais alto de infecção que o recém-nascido a termo.1
O neonato é altamente dependente da transferência materna passiva de anticorpos no início da vida fetal e neonatal. O desenvolvimento imunológico somente estará completo na infância tardia.1 O leite materno é um exemplo importante de transferência de imunidade passiva no período pós-natal. Ele possui funções antimicrobianas, anti-inflamatórias e imunorreguladoras. Contém a IgA secretora, que coloniza o trato gastrintestinal e respiratório do neonato, células ativas (fagócitos, células natural killer e linfócitos), citocinas (IL-4, IL-6, IL-8, IL-10) além de lisozima, lactoferrina, peroxidase e lípides antimicrobianos.2
Os progenitores linfoide e mieloide, que estão no saco vitelino desde a quarta semana de gestação, migram para o fígado, principal órgão hematopoiético durante esse período, no qual proliferam sofrendo somente discreta diferenciação. Posteriormente, são encontrados no baço, timo e medula óssea.1 A imunidade pode ser classificada em inata (inespecífica) ou adquirida (específica), que, por sua vez, é dividida em imunidade humoral e celular. As vacinas atuam estimulando a imunidade específica, que é exercida por meio de anticorpos (imunidade humoral) e de linfócitos com função efetora (imunidade celular). Os anticorpos podem ser séricos, atuando na corrente sanguínea ou secretórios, bloqueando e impedindo a penetração de microrganismos através das mucosas. A defesa contra invasões microbianas inclui o desenvolvimento rápido e antígeno independente da imunidade inata e o desenvolvimento mais lento e específico da imunidade adaptativa.1,3,4
METODOLOGIA
Este trabalho constitui-se em uma revisão da literatura especializada, no qual foi feita consulta a artigos científicos selecionados a partir da busca nos bancos de dados MEDLINE e LILACS. Foram selecionados artigos de relevância e representativos do tema, assim como livros-textos sobre o assunto.
REVISÃO DA LITERATURA
A imunologia do feto e do recém-nascido
Imunidade inata
A imunidade inata é a primeira linha de defesa na exposição a um agente infeccioso e é ativada independente do contato prévio com antígenos. Ela é composta de barreiras epiteliais (pele e mucosas), citocinas, proteínas do sistema complemento e das células circulantes (fagócitos e células natural killer)5
A pele do recém-nascido é imatura e tem mais permeabilidade, possivelmente em consequência à produção inadequada de ácidos-graxos livres e pH alcalino. A quebra da integridade da pele que ocorre nesse período em pacientes hospitalizados pode agir como facilitador da entrada de agentes patogênicos. A produção de IgA secretória está ausente nos primeiros dias de vida, levando a maior vulnerabilidade das mucosas dos tratos respiratório e gastrintestinal a invasões por microrganismos patogênicos.3,4
As citocinas são proteínas de baixo peso molecular, secretadas em resposta a um antígeno, que modulam a intensidade e a duração da resposta imune e inflamatória. São produzidas pelos fagócitos (macrófagos e neutrófilos), células natural killer (NK) e linfócitos T helper. As principais citocinas da imunidade inata são interferon α, β e γ, fator de necrose tumoral (TNF) e interleucinas (1, 6, 10, 12, 15, 18).4
As proteínas do sistema complemento ativam-se em cascata e têm como função a opsonização de antígenos e a lise celular a partir de formação do complexo de ataque à membrana. Elas se encontram reduzidas nos recém-nascidos. Durante a gravidez, há pouca transferência materna de proteínas do complemento. Ao nascimento alcançam níveis próximos de 60-90% dos valores do adulto em recém-nascidos a termo e 47-70% em recém-nascidos pré-termo.4 Níveis semelhantes aos dos adultos somente são atingidos após um ano de idade.6
A célula NK é um tipo de linfócito que destrói células infectadas por vírus, microrganismos intracelulares e células neoplásicas com base na produção do interferon γ (INF γ). As células NK dos recém-nascidos apresentam função reduzida com menos ação citotóxica contra vírus, embora sejam equivalentes em números às dos adultos.4
As células mononucleares inflamatórias, especialmente mastócitos e macrófagos, são as sentinelas do sistema de defesa contra os patógenos que vencem a barreira epitelial. Elas produzem fator de necrose tumoral α (TNF α) que recruta células do sistema inato (neutrófilos, monócitos e células dendríticas) e modula a apresentação de antígenos aos linfócitos T.3,5 O recém-nascido apresenta função reduzida de monócitos e macrófagos, com prejuízo na fagocitose.5
Os neutrófilos são as últimas células a aparecerem no feto e somente são produzidos em grande número após o nascimento. No recém-nascido estão reduzidos em número e efetividade. Sua concentração aumenta dramaticamente entre 12 e 24 horas após o nascimento.1 Observa-se nos recém-nascidos prejuízo na quimiotaxia, rolamento, adesão e migração até o sítio de infecção e também redução de sua atividade oxidativa, que é o seu mecanismo de citotoxicidade.7 O recém-nascido está menos capacitado a elevar o número de neutrófilos circulantes em resposta a um estímulo. Dessa forma, acredita-se que a incapacidade em mobilizar o pool medular durante um estresse associa-se a quadros sépticos nessa idade. 1,3
Outros mediadores inflamatórios importantes como fibronectina, fatores da coagulação e sistema cinina também se encontram reduzidos ao nascimento. Todos esses déficits são parcialmente responsáveis pela reduzida capacidade de opsonização, reduzida capacidade em lisar bactérias Gram-negativas e alguns vírus, pouca geração de processo inflamatório, assim como reduzida quimiotaxia de polimorfonucleares e monócitos. 4,6
Imunidade adaptativa
O déficit na imunidade inata acarreta redução da ativação do sistema adaptativo, já que esses dois componentes estão interligados. A resposta imune adaptativa divide-se em resposta mediada por células e resposta mediada por anticorpos. Os linfócitos são suas células efetoras.
Imunidade celular
Os precursores das células T são identificados no fígado fetal na sétima semana de gravidez, mas ainda não expressam CD3 em sua superfície. Migram para o timo, onde completam sua proliferação. Entre 18 e 24 semanas, os linfócitos T já se encontram em número semelhante ao do adulto. É no timo que ocorre a formação do receptor de célula T, conferindo a essas células especificidade e capacidade de reconhecimento do que lhes é próprio (self)1
Embora apresente número maior de células T na circulação ao nascimento que os adultos, a maioria são células imaturas e poucas são células de memória, fato explicado pela pequena exposição intraútero a antígenos.1,4
A imunidade celular é exercida pelos linfócitos T com seus subtipos T helper (CD3+ e CD4+) e T citotóxicos (CD3+ e CD8+). Os linfócitos T helper apresentam ainda dois subtipos, conforme seu padrão de produção de citocinas: Th1, que modula a imunidade celular, e Th2, que estimula a imunidade humoral.1
Enquanto os linfócitos B podem reconhecer antígenos diretamente com seus anticorpos, os linfócitos T somente reconhecem antígenos que lhe são apresentados pelas células apresentadoras de antígenos por meio dos antígenos maiores de histocompatibilidade de classe I e II.4
As propriedades fundamentais da imunidade celular são a produção de citocinas e a atividade citotóxica. As citocinas mais importantes da imunidade adaptativa são IL-2, 4, 5, 10 e 13 e INF γ β e TGF β.4
A produção das citocinas está desviada para o perfil de resposta Th2 até um ano de idade. A produção de IL-12 que ativa linfócitos T CD4 para o perfil Th1 está atrasada no recém-nascido.6 O déficit na resposta Th1 visto no neonato confere prejuízo na função de citotoxicidade.7 As citocinas criam um contexto imunoinflamatório que gera amplificação de resposta e recrutamento de células capazes de interferir em toda a resposta imune. Sendo assim, sua deficiência acarreta problemas em toda a imunidade. A menor produção de citocinas (IL-2, IL-4, IL-6 e IL-10) em resposta a antígenos ocorre, em parte, devido à baixa exposição intraútero, mas também devido à função secretória e inibitória da placenta.4,7,8
Imunidade humoral
A imunidade humoral é exercida por linfócitos B, os quais, estimulados por antígenos, diferenciam-se em plasmócitos produtores de anticorpos. Eles são reconhecidos por apresentarem em sua superfície os marcadores CD19 e CD20.4
Os precursores dos linfócitos B estão no fígado com oito semanas, onde já iniciam sua diferenciação. Após o nascimento, a maturação das células B se verifica na medula óssea. A produção de imunoglobulinas fetais já se inicia desde a 10ª semana de gestação, atingindo pico com 26 semanas. A partir de então, cai drasticamente até o nascimento. Isso ocorre devido à baixa exposição intrauterina a antígenos e aos altos níveis de imunoglobulinas maternas transferidas passivamente ao feto. Dessa forma, ao nascimento a criança apresenta baixos níveis de imunoglobulinas (IgM, IgA e IgE), sendo a grande maioria da IgG de origem materna.1
Após o nascimento, inicia-se a produção própria de imunoglobulinas em resposta a antígenos alimentares e ambientais. O período compreendido entre a queda dos anticorpos maternos e a produção sustentada de anticorpos próprios é chamado hipogamaglobulinemia transitória ou fisiológica. Ocorre entre o terceiro e o quinto meses de vida, com resolução completa entre dois e cinco anos.4
Estudos em humanos e em animais têm mostrado que a efetividade dos anticorpos produzidos pelas células B nos recém-nascidos difere da observada em adultos. A resposta neonatal é atrasada, os anticorpos atingem menores picos séricos e têm curta duração. A produção reduzida de anticorpos pelas células B nesse momento deve-se parcialmente a: anticorpos maternos, imaturidade das células B e imaturidade das células T helper, seu estimulante.8
Para que ocorra o "switch" de classe, ou seja, que o linfócito B apresente outras classes de imunoglobulinas em sua superfície, é necessária a interação com linfócitos T CD4. Na interação entre o linfócito T CD4 padrão Th2 e o linfócito B, ocorre produção de citocinas e, de acordo com o predomínio de algumas delas, o linfócito B produz uma ou outra classe de imunoglobulina. No recém-nascido essa interação está prejudicada.1
O desenvolvimento completo da microarquitetura do tecido linfoide acontece após o nascimento, de maneira que os centros germinativos se tornam aparentes por volta do quarto mês de vida. É provável que esse processo de desenvolvimento possa limitar a resposta de anticorpos no período neonatal.8
Resposta específica a patógenos no período neonatal
Estreptococo do grupo B (EGB)
O EGB é importante causa de infecção bacteriana no período neonatal. A mortalidade secundária a essa infecção permanece alta a despeito dos avanços obtidos nos cuidados intensivos desses pacientes. A colonização por estreptococos patogênicos do grupo B é facilitada pela grande capacidade de adesão às células da mucosa epitelial de neonatos e pela ausência de IgA secretora na primeira semana de vida.6 Além disso, a falta de anticorpos maternos específicos contra os polissacarídeos da cápsula da bactéria aliada à falha na síntese neonatal de anticorpos específicos é importante fator contribuinte para a alta mortalidade.6
Os neutrófilos são as células fagocitárias presentes na circulação, que contribuem para a morte dos EGBs de forma significativa. No entanto, a limitada gênese de fatores quimiotáticos pode retardar o recrutamento de neutrófilos, cuja capacidade de adesão é deficitária.9 O INF γ parece aumentar a defesa dos neonatos, promovendo a ativação dos neutrófilos, no entanto, sua produção encontra-se deficiente nesses pacientes. Além disso, a deficiência na produção de interleucina-12 pelas células fagocitárias tem sido proposta recentemente como outro mecanismo associado à má-resposta imune ao EGB.7
E. coli
A E. coli é uma das principais bactérias Gram-negativas causadoras de meningite e sepse no período neonatal. A sobrevivência da bactéria dentro das células do hospedeiro, como macrófagos e monócitos do sangue periférico, representa um mecanismo patogênico importante da bactéria.7
Sabe-se que a IgG não consegue se ligar de forma eficiente à superfície da bactéria, permitindo, dessa forma, que a mesma escape ao mecanismo de reconhecimento do sistema imune. A deficiência na cascata de complemento observada no sangue de cordão de recém-nascidos contribui também para o defeito de opsonização dos neonatos contra a E. coli. Dessa forma, a sobrevivência da bactéria dentro dos macrófagos pode exercer importante papel no surgimento de quadros como sepse e meningite.7
Lysteria monocytogenes
A infecção pela Lysteria em humanos ocorre mais comumente em recém-nascidos e crianças ou em adultos imunodeprimidos. A infecção perinatal é causada normalmente pela colonização ou infecção proveniente da mãe. A Lysteria monocytogenes causa uma infecção geralmente fulminante quando adquirida intra-útero ou no período neonatal precoce, enquanto, quando adquirida mais tarde, se manifesta como uma infecção meníngea de natureza insidiosa.9
A habilidade do organismo em se defender da infecção envolve elevado número de respostas integradas, grandemente influenciadas pela imunidade adaptativa, determinada principalmente por linfócitos T e anticorpos, na qual a especificidade, a memória e o reconhecimento do que é não próprio (nonself) são características importantes. Apesar da imunidade inata ser efetiva em promover alguma proteção contra a bactéria, a adequada resposta imunológica só é possível com o surgimento da imunidade adquirida.7
A bactéria inicialmente induz uma resposta imune humoral, que consiste na síntese e liberação de anticorpos no sangue circulante a partir de células plasmáticas, os quais neutralizam as exotoxinas dessa bactéria e favorecem sua fagocitose. Já a resposta celular que se segue é mais importante nesse tipo de bactéria, que tem multiplicação intracelular.6 A ativação macrofágica é de suma importância para a destruição eficiente da bactéria e a ativação pelo INF γ é fundamental nesse processo, sendo sua produção deficitária relacionada à escassez e ao atraso no desenvolvimento de células T de memória no período neonatal.7,9
Herpes-vírus
O herpes-vírus é um patógeno capaz de causar infecção sistêmica disseminada ou doença do sistema nervoso central com altas taxas de mortalidade nas primeiras semanas de vida. A infecção congênita é usualmente causada pelo herpes-vírus tipo 2 presente no canal de parto. Anticorpos maternos específicos no recém-nascido exercem importante papel na proteção contra o desenvolvimento da doença após a exposição. Dessa forma, sabe-se que as taxas de infecção em recém-nascidos de mães que apresentam a doença primária são mais altas que aquelas observadas em recém-nascidos de mães com infecções recorrentes.10
Tanto a resposta celular quanto a humoral estão envolvidas no controle da infecção pelo herpes.7 A resposta celular pelos linfócitos T, comprometida em recém-natos, pode ser responsável pela rápida progressão da doença. A evolução fatal após o período neonatal é rara e acomete crianças com imunodeficiência relacionada às células T, em uso de quimioterapia ou radioterapia.7 O atraso na resposta das células Th 1 à infecção, na proliferação dos linfócitos T CD4, na secreção de INF γ e do fator de necrose tumoral, além da produção deficiente de anticorpos específicos contra o vírus, permite que a infecção torne-se disseminada, causando danos importantes a todos os órgãos.7
Alguns estudos mostram que há expressiva produção de IL-6 e IL-8 nos recém-nascidos a termo e pré-termo, em resposta à infecção pelo herpes-vírus. No entanto, a produção exagerada de citocinas inflamatórias parece estar associada à maior intensidade das manifestações clínicas da doença, na comparação com adultos.7,10
Citomegalovírus (CMV)
O CMV é a principal causa de infecção intraútero, afetando 0,3 a 2,2% dos recém-nascidos vivos. A infecção congênita é importante causa de deficiência auditiva, visual ou paralisia cerebral no recém-nascido. O vírus pode ser transmitido para o feto durante a infecção primária da mãe, podendo ainda ser transmitido anos após a mãe ter adquirido a infecção. Anticorpos maternos não impedem a transmissão viral, mas parece proteger o feto de uma infecção maciça, reduzindo a intensidade dos sintomas.9
A resposta imune do hospedeiro à infecção pelo CMV desempenha importante papel como limitante da infecção e das manifestações clínicas da doença. Estudos mostram que a grande suscetibilidade do feto à infecção pelo CMV pode estar relacionada a problemas na imunidade celular, tanto inata (células natural killer) quanto adaptativa (linfócitos T).
A resposta específica das células T CD4 e T CD8 à infecção primária pelo citomegalovírus parece estar reduzida quando comparada à resposta observada em adultos. A resposta deficiente das células T CD4 está associada à eliminação prolongada do vírus na urina dos pacientes infectados, o que sugere seu papel fundamental no controle da replicação viral em superfícies mucosas.10
Recentemente, têm sido descritos linfócitos T citotóxicos (T CD8) em recém-nascidos com infecção congênita pelo CMV. Esse achado sugere que a estimulação intrauterina antigênica tenha o potencial de estimular a resposta imunológica protetora do feto e que, ao contrário dos linfócitos T CD4, a reposta dos linfócitos T CD8 possa estar preservada. No entanto, a eficiência da resposta mediada por essas células no recém-nascido ainda não está clara.7,10
Ebstein-Barr vírus (EBV)
A infecção pelo EBV ocorrendo na primeira infância não está associada a algum quadro clínico específico. No entanto, quando ocorre na adolescência ou em adultos, grande proporção de indivíduos desenvolve o quadro clínico da mononucleose, o qual se verifica quando a infecção primária pelo EBV não está adequadamente controlada, levando ao estímulo exagerado das células T CD8 pelos linfócitos B infectados. Esses achados sugerem que a infecção seja mais bem controlada em recém-nascidos e lactentes que em adultos. Isso ocorre porque a resposta dos linfócitos TCD8 parece ser reduzida em neonatos e lactentes, o que explica a ausência de manifestações clínicas da doença.9
Vírus varicela-zoster
A síndrome da varicela fetal ocorre em cerca de 2% dos pacientes cujas mães desenvolvem varicela nas primeiras 20 semanas de gestação. Já a varicela no recém-nascido pode resultar de infecção vertical ou horizontal. A varicela no recém-nascido adquirida no período perinatal (cinco dias antes a dois dias após o parto) ocorre em decorrência da viremia materna, havendo transmissão do vírus sem que haja tempo para a transmissão de anticorpos maternos. O envolvimento visceral e a alta mortalidade são características dessa apresentação da doença. Dessa forma, a imunidade inata durante o período em que a criança encontra-se sem anticorpos maternos é crítica para o controle da infecção.7
Durante a gestação, anticorpos maternos transmitidos por via transplacentária à criança cuja mãe adquiriu a varicela até seis dias antes do parto desempenham papel importante na proteção do recém-nascido contra as manifestações da doença.7
O papel exato da resposta humoral e celular do neonato na proteção contra o vírus varicela-zoster tem sido continuamente estudado. No entanto, a resposta humoral parece não desempenhar proteção completa contra o vírus. A imunidade mediada por células assim como a imunidade secretória exercem papéis importantes.7
A grande produção de INF γ observada nos pacientes com infecção congênita pelo vírus da varicela sugere que a resposta dos linfócitos Th 1 é importante como primeiro mecanismo de defesa da infecção, ainda que não seja eficaz para o controle da mesma.2 A falência em se desenvolver uma resposta imune celular adequada a partir das células T, macrófagos e células natural killer tem se correlacionado com o óbito dos pacientes infectados.11
Vírus respiratório sincicial (VRS)
A infecção pelo VRS é uma das doenças mais comuns no mundo e estima-se que toda criança esteja infectada até o terceiro ano de vida. O vírus não se replica fora da árvore respiratória, sendo a infecção restrita à mucosa respiratória. O espectro clínico da doença é extremamente variável de uma infecção leve do trato respiratório à pneumonia grave.
O recém-nascido nos primeiros dias de vida é capaz de desenvolver a resposta inata ao vírus, no entanto, devido à falta de estímulos antigênicos intraútero, a resposta adaptativa se faz necessária para o adequado controle da infecção.7 O receptor toll-like 4 (TLR4) participa do reconhecimento do VSR pela imunidade inata. Os recém-nascidos prematuros apresentam pouca quantidade de TLR4 e reduzida produção de citocinas após sua ativação, o que implica mais suscetibilidade à infecção por esse vírus.12
A resposta adaptativa eficiente a patógenos virais é mediada pelas citocinas produzidas pelas células Th1. No entanto, a produção destas pode ser inibida por citocinas secretadas pelos linfócitos Th2, de maneira que um balanço adequado entre ambas seja essencial para a erradicação do VRS.7
Proteínas virais como as glicoproteínas e proteínas de fusão são importantes para a penetração viral nas células do hospedeiro, assim como iniciam a resposta imune reacional. Elas são capazes de induzir a formação de anticorpos neutralizantes, no entanto, em recém-nascidos essa resposta pode contribuir para a doença pulmonar. Da mesma forma, alguns estudos mostram que anticorpos maternos transferidos passivamente nos primeiros meses de vida possam contribuir para quadros mais graves da doença.7
Toxoplasma gondii
O toxoplasma é um patógeno intracelular obrigatório que acomete especialmente o feto e o recém-nascido. Cerca de 60% das infecções maternas não são transmitidas ao feto, pois a placenta pode agir como barreira à passagem hematogênica dos taquizoítos, que ocorre em especial no terceiro trimestre. A doença pode resultar em lesões cerebrais ou oculares, no entanto, a infecção disseminada é rara no neonato. Sugere-se que as diferentes taxas de transmissão dependem do fluxo sanguíneo placentário, da virulência da cepa do toxoplasma, da suscetibilidade genética do paciente e do número de parasitas.11
Como se verifica em outras doenças congênitas, a gravidade da infecção adquirida na gestação se relaciona à capacidade de os parasitas intracelulares lesarem os órgãos do feto em formação, assim como à imaturidade imunológica do feto e à barreira placentária que separa a resposta humoral materna e fetal.7 O equilíbrio entre as respostas Th1 e Th2 influenciam a presença ou não de manifestações clínicas.9
A parasitemia estimula a resposta imunológica do hospedeiro, inicialmente humoral e após alguns dias, celular. A ativação dos linfócitos T leva à produção de alto número de interleucinas e à redução da parasitemia.9 No entanto, sabe-se que a sobrevida no ambiente intracelular promove proteção do parasita contra o sistema imune.14 O INF γ desempenha importante papel no controle da infecção como forte ativador dos macrófagos infectados, limitando o crescimento intracelular dos taquizoítos. No entanto, nos neonatos a produção do INF γ encontra-se prejudicada, sendo um importante fator relacionado à alta suscetibilidade do recém-nascido.9
Candidíase
A Candida albicans é a principal espécie causadora de infecção fúngica em recém-nascidos, sendo responsável por 40 a 70% dos casos de candidemia nessas crianças. A pele é colonizada ao nascimento por espécies de Candida que residem no canal do parto e a proliferação do fungo leva à doença mucosa ou mucocutânea.
A incapacidade em localizar, controlar e erradicar infecções pela Candida albicans é característica nessa faixa etária e decorre da deficiência relativa dos mecanismos de defesa específicos e inespecíficos que predispõem às infecções invasivas por fungos.9 A suscetibilidade aumentada do neonato à infecção, em especial da cavidade oral, resulta da imaturidade da resposta dos linfócitos T CD4 comumente observada nessa idade.7 Além disso, sabe-se que o papel dos anticorpos passivamente adquiridos na defesa do recém-nascido é insignificante.7
Mycobacterium tuberculosis
A infecção tuberculosa em neonatos geralmente manifesta-se de forma disseminada e resulta em quadros graves como a tuberculose miliar ou a meningite tuberculosa. Tais manifestações são acompanhadas da reposta imunológica deficitária das células T, observada nas respostas negativas aos testes cutâneos de sensibilidade.
O mecanismo exato pelo qual a bactéria escapa da resposta elaborada pelo sistema imune ainda não foi bem explicado. A resistência do bacilo aos macrófagos tem sido bastante estudada. Micobactérias viáveis parecem inibir a fusão dos fagossomos com os lisossomos, os quais contêm substâncias tóxicas que promovem a morte do bacilo.13
A imunidade mediada por células tem sido a principal responsável pela resposta imunológica ao bacilo da tuberculose. A resposta mediada por células T é fundamental no processo de estabelecimento da memória imunológica e de proteção. Além disso, as citocinas produzidas são capazes de direcionar as células do sistema macrofágico de modo a conter e destruir os bacilos infectantes.13
O recém-nascido é capaz de desenvolver significativo número de INF γ produzido pelas células T CD4 em resposta ao estímulo pela vacina BCG com o bacilo vivo atenuado. No entanto, a resposta das células T ao bacilo virulento nas infecções pelo Mycobacterium bovis ou Mycobacterium tuberculosis ainda encontra-se deficitária.10
CONCLUSÃO
O recém-nascido tem capacidade de defesa limitada contra agressões de seu meio, decorrente das características de seu sistema imunológico ao nascimento. Esse conhecimento sustenta a prevenção de agravos infecciosos, seja a partir do reconhecimento precoce e tratamento adequado das doenças já instaladas e especialmente da restrição à exposição a antígenos das crianças durante esse período de fragilidade imunológica.
REFERÊNCIAS
1. Holt PG, Jones CA. The development of the immune system during pregnancy and early life. Allergy. 2000;55:588-697.
2. Goldman AS. The immune system in human milk and the developing infant. Breastfeed Med. 2007;2(4):195-204.
3. Clapp DW. Developmental Regulation of the Immune System. Sem Perinatol. 2006;30(2):69-72.
4. Jacob CMA, Pastorino AC. Desenvolvimento do sistema imunológico. In: Jacob CMA, Pastorino AC, editors. Alergia e imunologia para o pediatra. São Paulo: Manole; 2010. p. 3-17.
5. Yoon HS. Neonatal innate immunity and Toll-like receptor. J Pediatr. 2010;53(12):985-8.
6. Carvalho BTC, Nudelman V, Carneiro-Sampaio MMS. Mecanismos de defesa contra infecções. J Pediatr (Rio J). 1998;74 (Supl.1):S3-S11.
7. Ofer L. Innate immunity of the newborn: basic mechanisms and clinical correlates. Immunology. 2007;7:379-90.
8. Adkins B, Leclerc C, Marshall-Clarke S. Neonatal adaptive immunity comes of age. Immunology. 2004;4:553-64.
9. Kovalhuk LCS, Rosário Filho NA. Imunologia do feto e do recém-nascido. In: Couto JCF, Andrade GMQ, Tonelli E, editores. Infecções perinatais. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan. 2006, p. 16-35.
10. Lewis DB, Gern JE, Hill HR, Friedlander SL, Pine TR, Lemanske RF, et al. Newborn Immunology: relevance to the clinician. Curr Problem Pediatr Adolesc Health Care. 2006;36:189-204.
11. Roberts F, Boyer K, McLeod R. Toxoplasmosis. In: Gershon AA, Hotez PJ, Katz SL, editors. Infectious Disease of Children. Philadelphia: Mosby; 2004. p. 697-730.
12. Gershon AA, LaRussa P. Varicella-zoster virus infections. In: Gershon AA, Hotez PJ, Katz SL, editors. Infectious disease of children. Philadelphia: Mosby. 2004, p. 785-816.
13. Starke JR. Tuberculosis. In: Gershon AA, Hotez PJ, Katz SL, editors. Infectious disease of children. Philadelphia: Mosby; 2004. p. 731-68.