Open-access | Creative Commons Attribution License
ISSN: 0103-880X eISSN: 2238-3182
Home / Vol. 24 Num. 4 / Análise comparativa de lesão iatrogênica de vias biliares em colecistect...
Artigo Original

Análise comparativa de lesão iatrogênica de vias biliares em colecistectomias convencional e videolaparoscópicas

Comparative analysis of iatrogenic lesion of bile ducts in conventional and videolaparoscopic cholecystectomies

André Augusto Fortunato1; João Kleber de Almeida Gentile1; Diogo Peral Caetano1; Marcus Aurélio Zaia Gomes1; Marco Antônio Bassi2

DOI: 10.5935/2238-3182.20140137

Rev. Méd. Minas Gerais. 2014;24(4):470-473

14092 VISUALIZAÇÕES
Crossmark

RESUMO

OBJETIVOS: estudar comparativamente os casos de lesões iatrogênicas de vias biliares ocorridas em colecistectomias convencionais e videolaparoscópicas realizadas no Serviço de Cirurgia Geral e Gastrocirurgia do Hospital Ipiranga UGA-II, avaliando seus prováveis fatores causais, complicações e o seguimento no pós-operatório.
MÉTODO: estudo de coorte retrospectiva, com análise de prontuários dos pacientes submetidos a colecistectomias convencionais (CC) e videolaparoscópicas (CC-VLP) no período de dois anos (de 1º/01/2010 a 31/12/2011), analisando comparativamente as lesões de via biliar decorrentes do procedimento cirúrgico.

Palavras-chave: Colecistectomia; Colecistectomia Laparoscópica; Ductos Biliares.

INTRODUÇÃO

A colecistectomia (CC) foi inicialmente descrita por Carl Langenbuch em 1882. No século XX, seus princípios técnicos foram fundamentados e grandes inovações ocorreram nos últimos 25 anos com o surgimento da cirurgia videolaparoscópica (CC-VLP).1,2

A remoção cirúrgica da vesícula biliar está indicada no tratamento da litíase biliar e nas suas complicações, assim como nas neoplasias. A lesão iatrogênica das vias biliares representa a complicação mais temida da CC, com incidência em torno de 0,2 a 2,9%.3 Fatores como a videolaparoscopia, colecistite aguda, vesícula escleroatrófica, variações anatômicas do trato biliar e a curva de aprendizado de novos cirurgiões e residentes são vistos como as principais causas da maior incidência de lesões iatrogênicas das vias biliares.4-10

O manejo do paciente com lesão iatrogênica de via biliar é bastante complexo, exigindo cirurgiões experientes e, em sua maioria, serviços especializados. O prognóstico está intimamente ligado às condições clínicas do paciente e ao tempo decorrido entre a identificação da lesão e a instituição do tratamento cirúrgico adequado.5,6-12

Tendo em vista a curva de aprendizado de novos cirurgiões, de mais incidência de lesão iatrogênica de vias biliares, surgiu a motivação para realizar esta análise comparativa em nosso serviço de residência médica, fazendo uma analise comparativa com a literatura atual sobre lesão de via biliar após cirurgia.

 

CASUÍSTICA E MÉTODO

Foi realizado estudo de coorte retrospectivo com análise de prontuários do Serviço de Cirurgia Geral e Gastrocirurgia do Hospital Ipiranga UGA-II, avaliando todos os pacientes submetidos à CC convencional e CC-VLP no período 1º/01/2010 a 31/12/2011. Os critérios para inclusão no estudo foram os pacientes que apresentaram lesão da via biliar independentemente de sua localização ou tempo de diagnóstico. Não houve critérios de exclusão.

Dados relativos a sexo, idade, sintomas agudos ou crônicos, tipo de cirurgia realizada, tempo de diagnóstico da lesão e sua localização foram considerados para análise final do estudo. Todos os pacientes foram submetidos à anestesia geral e operados por residentes do segundo ano do serviço de cirurgia geral, orientados por cirurgiões assistentes ou preceptores do serviço.

 

OBJETIVOS

O objetivo do estudo foi avaliar os casos de lesões iatrogênicas de vias biliares ocorridas em CC convencionais e CC-VLP, avaliando seus prováveis fatores causais bem com as condutas tomadas em cada caso em comparação com a literatura.

 

RESULTADOS

Foi tratado e acompanhado no período de dois anos (1º/01/2010 a 31/012/2011) o total de 515 pacientes portadores de litíase biliar, sendo 320 submetidos à CC convencional e 195 à CC-VLP. A idade dos pacientes com lesão de via biliar variou de 29 a 70 anos, com idade média de 49,2 anos.

Entre os 320 pacientes (62,1%) submetidos à CC convencional, foram diagnosticados quatro (1,25%) com lesão de via biliar no período, correspondendo a 0,77% do total de pacientes, sendo todas as lesões diagnosticadas em pacientes femininos. Todos foram operados por médico-cirurgião assistente acompanhados de residentes do segundo ano do serviço de Cirurgia geral. A taxa de incidência de lesão de vias biliares no estudo foi de 0,007% do total de pacientes acompanhados (Tabela 1).

 

 

As lesões foram diagnosticadas no intra e no pós-operatório. As reconhecidas no intraoperatório foram uma lesão de ducto hepático direito e uma avulsão de ducto cístico. Os outros dois casos decorreram de estenose de colédoco no 17º e 41º dias de pós-operatório, diagnosticado por colangiopancreatografia retrógrada endoscópica (CPRE). Em um destes havia ligadura de ducto biliar acessório, enquanto o outro não fazia qualquer menção à lesão ou intercorrência no ato cirúrgico.

Nos três casos (75%) de lesão de via biliar havia sintomatologia no momento da internação e uma paciente com indicação de cirurgia eletiva. A paciente operada eletivamente foi a óbito por complicações da lesão de via biliar. Não foram diagnosticadas lesões de via biliar nos 195 pacientes (37,9%) submetidos à CC-VLP no período do acompanhamento.

 

DISCUSSÃO

A CC representa a cirurgia intra-abdominal eletiva mais frequente no mundo. A lesão iatrogênica de vias biliares constitui-se em uma de suas mais temidas complicações. A incidência de lesão de via biliar é em torno de um para cada 800 procedimentos.6-14

Após a introdução da cirurgia videolaparoscópica, indicada como padrão-ouro no tratamento da colecistopatia, a incidência aumentou para uma em 120 procedimentos, em virtude da curva de aprendizado e dificuldade técnica no procedimento segundo a maioria dos autores.7,9,14

Neste estudo a taxa de lesão de via biliar foi de 0,77%, associada à CC convencional (1,25%), que possui incidência mundial entre 0,1 e 0,5%. Não se observou lesão associada às cirurgias videolaparoscópicas que, por sua vez, apresenta incidência mundial de lesão biliar entre 0,07 e 0,95%.

Inúmeros fatores são implicados na gênese da lesão de via biliar, como sexo masculino, colecistite aguda, via de acesso e variação anatômica, sendo esta última a mais responsável pela dificuldade técnica da CC. A variação anatômica está presente em 6 a 25% dos pacientes com lesão de via biliar, sendo a anomalia mais comum o ducto hepático direito aberrante entre o triângulo de Calot.6,10-16

A identificação precoce da injúria biliar é de fundamental importância para o tratamento, entretanto, só é diagnosticada em menos da metade dos casos, responsável por resultar em graves complicações tardias como cirrose biliar, insuficiência hepática e óbito. Um caso teve como desfecho óbito por complicação da lesão de via biliar.

Entre as várias classificações existentes para a lesão de via biliar, destaca-se a de Bismuth (1982),7,12 mais usada em estenoses tardias, decorrentes, na maioria dos casos, de lesões térmicas ou de ligaduras próximas da via biliar, com reação inflamatória e subsequente estenose, não englobando as lesões agudas. A escassez de dados dos prontuários e a apresentação bastante tardia dificultaram sua classificação.5,17,18

O primeiro objetivo no seu tratamento deve ser o controle da sepse e do vazamento de bile. A reconstrução cirúrgica após a resolução da septicemia não é urgente e pode ser realizada depois de cinco a seis semanas.4,9

Em relação ao procedimento cirúrgico, a hepaticojejunostomia em "Y" de Roux é a melhor opção terapêutica e a mais frequentemente empregada. Outra forma de tratamento é a terapêutica radiológica intervencionista, realizada pela simples colocação de dreno T (Kehr) em lesões mínimas e dilatação ou colocação de endopróteses em casos de estenose diagnosticados por CPRE.4,9,19,20

 

CONCLUSÃO

A doença de via biliar é extremamente comum e invariavelmente requer terapêutica cirúrgica, sendo a CC-VLP o padrão-ouro de tratamento, requerendo muito cuidado no ato cirúrgico para evitar lesão inapropriada de vias biliares. A CC-VLP comparativamente à CC convencional apresentou baixa taxa de lesão de via biliar em contrapartida à literatura, assim como a taxa de lesão encontrada neste trabalho foi menor comparativamente com a literatura. Torna-se evidente a experiência do cirurgião na incidência das complicações cirúrgicas precoces e tardias nas lesões de via biliar tanto nas cirurgias abertas como laparoscópicas.

 

REFERÊNCIAS

1. Lau KN, Sindram D, Agee D. Bile duct injury after single incision laparoscopic cholecystectomy. JSLS. 2010;14:587-91.

2. Lau WY, Lai ECH. Classification of iatrogenic bile duct injury. Hepatobiliary Pancreat Dis Int. 2007;6:459-63.

3. Chiruvella A, Sarmiento JM, Sweeney JF, Lin E, Davis SS. Iatrogenic combined bile duct and right hepatic artery injury during single incision laparoscopic cholecystectomy. JSLS. 2010;14:268-71.

4. Buddingh KT, Nieuwenhuijs VB, van Buuren L, Hulscher JBF. Intra-operative assessment of biliary anatomy for prevention of bile duct injury: a review of current and future patient safety interventions. Surg Endosc. 2011;25:2449-61.

5. Milcent M, Santos EG, Bravo GP. Lesão iatrogênica da via biliar principal em colecistectomia videolaparoscópica. Rev Col Bras Cir. 2005;32(6):332-6.

6. Linhares BL, Magalhães AG, Soares PM. Lesão iatrogênica de via biliar pós-colecistectomia. Rev Col Bras Cir. 2011;38(2):95-9.

7. Garden CS. Lesão iatrogênica da via biliar e videocirurgia. Br J Surg. 2006;93:158-68.

8. Girometti R, Brondani G, Cereser L, Como G, Del Pin M, Bazzocchi M. Post-cholecystectomy syndrome: spectrum of biliary findings at magnetic resonance cholangiopancreatography. Br J Radiol. 2010;83:351-61.

9. Nordin A, Grönroos JM, Mäkisalo H. Treatment of biliary complications after laparoscopic cholecystectomy. Scand J Surg. 2011;100:42-8.

10. Aguiar GB, Oliveira GIB, Silva JBS, Santos LS, Vieira SC. Lesão iatrogênica de vias biliares. Rev Col Bras Cir. 2005;32(2):69-73.

11. Crema E. Lesões iatrogênicas da vias biliares: como prevenir. Arq Bras Cir Dig 2010;23(4):215-6.

12. Lillemoe KD. Melton GB, Cameron JL, Pitt HA, Campbell KA. Postoperative bile duct strictures: management and outcome in the 1990s. Ann Surg. 2000;232(2):430-41.

13. Santibánes E, Ardiles V and Pekolj J. Complex bile duct injuries: management. HPB 2008;10:4-12.

14. Wu JS, Peng C, Mao XH, Lv P. Bile duct injuries associated with laparoscopic and open cholecystectomy: sixteen-year experience. World J Gastroenterol 2007;13(16):2374-8.

15. Jablonska B, Lampe P. Iatrogenic bile duct injuries: etiology, diagnosis and management. World J Gastroenterol 2009;15(33):4097-104.

16. Connor S, Garden J. Bile duct injury in the era of laparoscopic cholecystectomy. Br J Surg. 2006;93:158-68.

17. Fathy O, Wahab MA, Hamdy E, Elshoubary M, Kandiel T, Elraof AA, et al. Post-cholecystectomy biliary injuries: one Center experience. Hepatol Gastroenterol. 2011;58:719-24.

18. Shamin M, Urooj R and Dawani A. Post-cholecystectomy biliary injuries: diagnosis and management. Pakistan J Surg. 2007;23(3):166-8.

19. Lau WY, Lai CH. Classification of iatrogenic bile duct injury. Hepatol Pancreat Dis Int. 2007;6:459-463.

20. Manouras A, Pararas N, Antonakis P, Lagoudiannakis EE. Management of major bile duct injury after laparoscopic cholecystectomy: a case report. J Med Case Reports. 2009;44(3):1-6.

André Augusto Fortunato

Afiliação: Médico-Residente. Serviço de Cirurgia Geral do Hospital Ipiranga UGA-II. São Paulo, SP - Brasil

João Kleber de Almeida Gentile

Afiliação: Médico-Residente. Serviço de Cirurgia Geral do Hospital Ipiranga UGA-II. São Paulo, SP - Brasil

Diogo Peral Caetano

Afiliação: Médico-Residente. Serviço de Cirurgia Geral do Hospital Ipiranga UGA-II. São Paulo, SP - Brasil

Marcus Aurélio Zaia Gomes

Afiliação: Médico-Residente. Serviço de Cirurgia Geral do Hospital Ipiranga UGA-II. São Paulo, SP - Brasil

Marco Antônio Bassi

Afiliação: Médico. Diretor Técnico do Serviço de Cirurgia Geral e Gastrocirurgia do Hospital Ipiranga UGA-II. São Paulo, SP - Brasil

Recebido em: 19/05/2013

Aceito em: 23/07/2014

Instituição: Hospital Ipiranga UGA-II São Paulo-SP - Brasil

Endereço para correspondência

João Kleber de Almeida Gentile
E-mail: joaokleberg@gmail.com

Nenhum parecer disponível para este artigo.

Como citar este artigo

Fortunato, AA, Gentile, JKA, Caetano, DP, Gomes, MAZ, Bassi, MA. Análise comparativa de lesão iatrogênica de vias biliares em colecistectomias convencional e videolaparoscópicas. Rev. Méd. Minas Gerais. 2014;24(4):470-473. DOI: 10.5935/2238-3182.20140137

Indexadores e Buscadores