INTRODUÇÃO
A obesidade é um distúrbio do estado nutricional, de difícil tratamento, relacionado ao aumento do tecido adiposo, com consequente elevação do peso corporal. É considerada doença crônica, multifatorial, causada pela sobreposição de fatores genéticos e ambientais.1
Em 1997, a Organização Mundial da Saúde (OMS) considerou a obesidade uma epidemia, conforme ressaltado na publicação "Obesity: Preventing and Managing the global Epidemic" como uma das formas de conscientizar os ministérios públicos e os profissionais de saúde para a magnitude e a importância médico-social do problema.2 Os resultados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2008-20093, realizada pelo IBGE em parceria com o Ministério da Saúde, informam que a população vem apresentando alta prevalência de excesso de peso. Em 2009, uma em cada três crianças de cinco a nove anos estavam acima do peso recomendado pela OMS. A POF revelou aumento significativo no número de crianças de cinco a nove anos com excesso de peso ao longo de 34 anos: em 2008-2009, 34,8% dos meninos estavam com o peso acima da faixa considerada saudável pela OMS. Em 1989, esse índice era de 15% contra 10,9% em 1974-75. Observou-se padrão semelhante nas meninas que, de 8,6% na década de 70, foram para 11,9% no final dos anos 80 e chegaram aos 32% em 2008-09.
O risco de que a criança com obesidade se mantenha nessa condição na vida adulta está relacionado ao tempo de duração e à sua gravidade. Cerca de 1/3 dos adultos obesos foram crianças obesas, e quando a obesidade é grave essa proporção aumenta para 1/2 a ¾.4
Entre as causas para explicar esse aumento tão importante no número de obesos no mundo estão as mudanças no estilo de vida e nos hábitos alimentares. Nota-se cada vez mais a preferência por alimentos industrializados e ricos em gordura, e os avanços tecnológicos proporcionam mais sedentarismo.5
O aumento do tecido adiposo, com consequente elevação do peso corporal, desencadeia múltiplas complicações, como: mais predisposição a artrose e osteoartrite; hipertensão arterial sistêmica; aumento do risco cirúrgico; menarca precoce; aumento do risco de mortalidade; elevada frequência de câncer de endométrio, mama, vesícula biliar, cólon/ reto, próstata além de alterações respiratórias.6 Dados da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) mostram que o Brasil gasta 1,45 bilhão de reais por ano com doenças ligadas à obesidade.7
Este estudo avaliou crianças na faixa etária de sete a nove anos, idade escolar. Neste trabalho, foram analisados os seguintes dados: peso, estatura e IMC para a idade, considerando-se as curvas da OMS de 2006.
MÉTODOS
Estudo do tipo transversal e observacional, realizado em quatro escolas públicas (estaduais) de Belo Horizonte - Minas Gerais.
Entre as nove regionais de Belo Horizonte, quatro foram escolhidas (regiões norte, centro-sul, leste e oeste) em conformidade com a realização do estudo. Posteriormente, foi sorteada uma escola de cada região com base em uma listagem completa das instituições, tendo sido a pesquisa realizada nas seguintes escolas: Escola Estadual Professor Alberto Mazoni Andrade (região norte); Escola Estadual Afonso Pena (região centro-sul); Escola Estadual Carlos Góes (região leste); Escola Estadual Professor Magalhães Drumond (região oeste).
Na maioria das literaturas estudadas, a prevalência de sobrepeso e obesidade infantil no Brasil é de aproximadamente 15%. Por conseguinte, esse valor foi utilizado para o cálculo amostral. Adotando-se intervalo de confiança de 95% e erro de 5%, tem-se que o tamanho da amostra deve ser igual ou superior a 195,92 alunos.
Foram analisados 194 alunos, conforme a estimativa, obtida a partir do cálculo amostral utilizado para esse fim. Os critérios empregados para inclusão no estudo foram: crianças em idade escolar (sete a nove anos de idade), que estudavam nas escolas selecionadas, sendo que após a aleatorização os responsáveis concordavam em participar e assinavam o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).
Os critérios de exclusão utilizados foram: crianças menores de sete anos, crianças maiores de nove anos e crianças cujos pais não assinaram o TCLE.
As medições foram feitas em um mesmo horário para todas as escolas, sempre com os alunos em um período médio entre as refeições. A distribuição de alunos que participaram em cada escola foi feita proporcionalmente, em conformidade com o número total de alunos nessa faixa etária em cada escola, sendo que a escola com maior número de crianças teve número proporcionalmente maior de crianças analisadas.
A coleta de dados foi feita no período de agosto a novembro de 2012.
Antemão à coleta de dados, os responsáveis foram esclarecidos sobre a realização da pesquisa e foi obtida a assinatura no TCLE autorizando a participação dos menores na pesquisa.
Breve questionário foi utilizado com o intuito de obter algumas informações, como data de nascimento e alguns hábitos de vida, por exemplo, exercícios físicos, utilização de televisão, videogames, etc.
A OMS indica a antropometria como método mais útil para identificar pessoas obesas, visto que é o mais barato, não invasivo, universalmente aplicável e com boa aceitação pela população. Índices antropométricos são obtidos a partir da combinação de duas ou mais informações antropométricas básicas (peso, sexo, idade, altura).2 Atualmente, o índice mais utilizado para identificar pessoas obesas é o índice de massa corporal (IMC), calculado pela fórmula peso dividido pela altura ao quadrado.8
Foram então obtidos os dados antropométricos (peso e altura). A fim de evitar erros, foram utilizadas técnicas padronizadas, equipamento calibrado e os alunos foram preparados para a realização das medidas antropométricas de acordo com as seguintes condutas:
o peso corporal foi aferido por meio de uma balança digital da marca Cadenee - BAL 150, com capacidade para 150 kg e precisão de 100 g, com o avaliado na posição ortostática no centro da balança, descalço e vestindo roupas leves (uniforme escolar).9
para a medida da estatura utilizou-se fita métrica inextensível (fixada em paredes lisas). Os escolares foram colocados em posição vertical, eretos, com os pés paralelos e calcanhares, ombros e nádegas encostados na parede e mãos espalmadas sobre as coxas. 2,10
Os dados foram digitados e armazenados no software Epi-Info, 3.5.2 (2010). Para análise dos dados antropométricos e cálculo das prevalências de sobrepeso e obesidade foi utilizado o software WHO AnthroPlus. O IMC foi calculado consoante a fórmula "peso dividido pela altura elevada ao quadrado" e interpretado, juntamente com os valores de peso e estatura, segundo valores de escore-z, de acordo com as curvas da OMS. Os critérios para definição de sobrepeso e obesidade foram os propostos pela OMS, como descrito na Tabela 01. O teste do qui-quadrado foi utilizado para verificação da associação entre variáveis, tendo sido considerado nível de significância (p) < 0,05.
A pesquisa foi aprovada pela Secretaria Estadual de Educação de Minas Gerais e em seguida pelas direções das quatro escolas selecionadas. Antes do início da coleta de dados o estudo foi também aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais/ Hospital Universitário São José com base na Resolução CNS 196/96.
RESULTADOS
Foram analisadas 194 crianças, sendo que, dessa amostra, 84 (43,3%) crianças eram estudantes da região oeste; 52 (26,8%) da região centro-sul; 34 (17,5%) da região leste; 24 (12,4%) da região norte. Grande parte dos voluntários (48,5%) permanece em suas respectivas escolas no período da tarde, 29,9% nos turnos da manhã e da tarde, enquanto 21,60% estudam apenas no período matutino.
Das crianças analisadas, 30,4% tinham sete anos; 37,7% tinham oito anos e 31,9% tinham nove anos. Do total dessa amostra, 41,2% eram meninos e 58,8% eram meninas. Nota-se certa homogeneidade na distribuição entre as faixas etárias e maior número de crianças do sexo feminino em relação ao sexo masculino.
Conforme ilustrado na Tabela 2, das 114 meninas e dos 80 meninos participantes da pesquisa, 13,9% e 6,2% estão com sobrepeso, respectivamente, totalizando 20,1% de crianças classificadas neste estado nutricional. Entre a totalidade das crianças, 18,5% foram consideradas obesas, sendo que, dessas, 2,5% são classificados com obesidade grave. Considerou-se, portanto, que 38,6% das crianças estão com sobrepeso ou obesidade.
Constata-se maior número de crianças do sexo feminino com sobrepeso, o que ocorre também, mas com menos intensidade, em relação à obesidade. Contudo, a associação entre sexo (masculino e feminino) e sobrepeso não é estatisticamente significativa (p = 0,10), assim como ocorreu com a associação entre sexo e obesidade (p = 0,61).
O percentual de crianças com magreza acentuada, ou seja, com escore z < -3 é de 0,5%.
A Tabela 2 e as Figuras 1, 2 e 3 mostram a distribuição das crianças, de acordo com os indicadores peso/idade, estatura/idade e IMC, respectivamente, comparando-se com as curvas de crescimento da OMS.
Figura 1 - Distribuição das crianças de acordo com o indicador peso/idade (escore-Z), comparando-se com a curva da OMS.
Figura 2 - Distribuição das crianças de acordo com o indicador estatura/idade (escore-Z), comparando-se com a curva da OMS.
Figura 3 - Distribuição das crianças de acordo com o indicador IMC (escore-Z), comparando-se com a curva da OMS.
Nas Figuras 1 e 3 há desvio da curva para a direita e achatamento na área central, evidenciando índices elevados de sobrepeso e obesidade na população estudada em relação às curvas da OMS. Já a Figura 2 (estatura/idade) mostra conformação semelhante às curvas da OMS.
Considerando-se alguns hábitos de vida, todas as crianças assistem à televisão, de modo que 76,3% declararam frequência diária desse hábito e 41,2% delas permanecem três a cinco horas por dia assistindo a desenhos, novelas, filmes e programas diversos. Sobre os videogames, 57,2% das crianças têm acesso ao eletrônico, sendo que 37,8% deles jogam todos os dias. E desse percentual, 34,2% dizem jogar por uma a duas horas por dia.
Verificando-se a frequência com que as crianças assistem à televisão em relação à prevalência de sobrepeso e obesidade, observa-se que, das 75 crianças que estão acima do peso, 65 assistem à televisão pelo menos três vezes por semana, sendo que 50 dessas crianças passam pelo menos três horas por dia em frente à televisão. Em contrapartida, das 119 crianças classificadas nos demais estados nutricionais, 103 assistem à televisão pelo menos três vezes por semana, sendo que 63 passam pelo menos três horas por dia em frente à televisão. A associação entre a prevalência de sobrepeso e obesidade e a frequência com que assistem à televisão (menos de três vezes por semana e mais de três vezes por semana) bem como o tempo gasto para tal atividade (menos de três horas por dia e mais de três horas por dia) não foi estatisticamente significativa (p = 0,84 e p = 0,40, respectivamente).
Ademais, 38,74% das crianças que jogam videogame estão acima do peso (sobrepeso e obesidade), sendo que 34,88% jogam pelo menos três vezes por semana. Quando associadas as variáveis obesidade e tempo que a criança passa jogando videogame, tem-se que, das crianças que usam o eletrônico por mais de três horas por dia, 30,77% são obesos e 69,23% estão no escore-z < 2 de IMC. Entre as crianças que o utilizam por menos de três horas por dia, 13,56% são obesas e 86,44% estão no escore-z < 2 de IMC. Essa associação foi estatisticamente significativa (p=0,049).
Quanto à realização de dieta para emagrecimento, 22,70% das crianças relatam seguir regime alimentar. Destes, apenas 15,9% fazem dieta de acordo com recomendações de um profissional de saúde. Ao associar as variáveis dieta e prevalência de sobrepeso e obesidade, observa-se que, das crianças que não fazem dieta, 34,67% estão acima do peso, enquanto 65,33% estão no escore-z < 1 de IMC. Das crianças que fazem dieta, 52,27% estão acima do peso e 47,73% estão no escore-z < 1 de IMC. Tais dados possuem significância estatística (p=0,043).
A respeito da realização de atividades físicas, 55,70% dos participantes fazem algum exercício capaz de exigir esforço respiratório e/ou provocar sudorese uma ou duas vezes por semana, enquanto 13,4% deles realizam essas atividades mais de cinco vezes por semana. Dos que realizam atividades físicas, 83 gastam 30 minutos a uma hora a cada prática. Ao associar as variáveis sobrepeso e obesidade e a prática de atividade física, tem-se que 34,97% das crianças que não praticam atividade física ou praticam menos de duas vezes por semana estão acima do peso e 65,03% estão no escore-z < 1 de IMC. Entre crianças que praticam atividade física com frequência superior a três vezes por semana, 49,02% estão acima do peso, enquanto 50,98% estão alocadas nas demais classificações do estado nutricional. A associação entre a prevalência de sobrepeso e obesidade e a frequência com que praticam atividade física (menos de duas vezes por semana e mais de duas vezes por semana) não foi estatisticamente significativa (p = 0,10).
DISCUSSÃO
O percentual de crianças acima do peso é elevado e deve ser considerado preocupante, todavia, valores semelhantes foram observados em outros estudos feitos em diversas regiões brasileiras. Em pesquisa feita na Bahia com escolares, a porcentagem da prevalência global de obesidade na amostra estudada foi 15,8%.11 Em outro estudo sobre prevalências de sobrepeso e obesidade em escolares de Brasília (DF), os índices foram, em conjunto, de 18,8% dos meninos e 21,2% das meninas.6,9
Os dados são semelhantes também ao estudo realizado em escolares no Paraná, que encontrou prevalência de sobrepeso de 20% e de obesidade de 7%, sendo que a maioria dos alunos (72%) não praticava atividade física fora da escola e pouco mais da metade deles (53%) gastava mais de quatro horas por dia em atividades sedentárias.12 Outros estudos mostraram resultados semelhantes.13,14 Prevalências significativamente menores foram encontradas em algumas pesquisas (6,7% e 11,2%).15,16
Em relação ao gênero e excesso de peso, a predominância em meninas não é constantemente observada, sendo que em alguns estudos ela foi estatisticamente significativa no sexo masculino.13,14 Contudo, observa-se variabilidade nos diversos estudos em relação à predominância de gênero com excesso de peso, de modo que alguns estudos predominam o gênero masculino e em outros o gênero feminino, e na grande maioria das vezes as diferenças não são significativas.
Ao associar a frequência com que as crianças assistem à televisão com a prevalência de sobrepeso e obesidade, o resultado poderia ter sido mais significativo estatisticamente, posto que o presente estudo não analisou outras variáveis que podem interferir no sobrepeso e obesidade. Múltiplos fatores de risco podem ser considerados para o desenvolvimento de sobrepeso e obesidade, entre eles genética familiar, baixo peso ao nascimento, diabetes gestacional na mãe, tabagismo na gestação e etnia. Entre os fatores ambientais, podem ser elementos importantes os hábitos alimentares inadequados.17
Como demonstrado no estudo de Fiates et al.17 sobrepeso e obesidade em crianças têm sido tradicionalmente associados ao hábito de assistir à TV, pois este promove o sedentarismo. Além disso, sabe-se hoje que os anúncios de alimentos veiculados na TV têm o poder de, efetivamente, promover seu consumo, influenciando diretamente os hábitos alimentares de crianças.
Quanto à dieta para emagrecimento, observa-se que 34,67% das crianças que não fazem dieta estão acima do peso. Tal fato leva a pensar no possível desconhecimento dos responsáveis por essas crianças em relação ao sobrepeso e obesidade. Grande parte dos pais que não instituem dietas para os seus filhos o faz pelo desconhecimento da importância de tal prática ou até mesmo pelo desconhecimento do fato de seu filho(a) não estar com o peso adequado. O reconhecimento do excesso de peso pelos pais representa um notável passo para o processo de prevenção, diagnóstico e tratamento da obesidade na infância. Uma vez que muitos pais podem não perceber o sobrepeso em seus filhos(as) ou até mesmo associar essa condição a melhor nível de saúde, a busca do profissional de saúde pode ser tardia ou então não participam adequadamente do tratamento prescrito quando o excesso de peso é diagnosticado.18
Grande parte das crianças apresenta estatura adequada para a idade, o que é esperado, já que não existem evidências de que foram submetidas a agravos e condições inadequadas que poderiam interferir no seu crescimento normal.
Considerando-se os altos índices de sobrepeso e obesidade encontrados em crianças em idade escolar e a probabilidade significativa de que futuramente sejam adultos obesos, há necessidade de que decisões e ações sejam efetivadas pelos órgãos públicos e serviços de saúde. Há também a necessidade de ações intersetoriais, com participação também dos órgãos ligados à área de educação. As prevalências crescentes de sobrepeso e obesidade devem ser consideradas como um dos maiores problemas de saúde pública, sendo que algumas atitudes e intervenções, como a conscientização das crianças, de seus pais e familiares e da população, sobre a importância de mudanças nos hábitos de vida e outras medidas preventivas e de cuidados, poderiam minimizar os seus efeitos deletérios em crianças e na vida adulta.
CONCLUSÃO
O sobrepeso e a obesidade podem ser considerados importantes problemas de saúde pública, tendo sido encontrados neste estudo índices que sugerem altas prevalências desses distúrbios nutricionais em crianças na idade escolar. E sendo a obesidade uma doença crônica, requer atenção permanente em relação aos hábitos de vida dessa população.
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