INTRODUÇÃO
A adolescência é uma das fases que integram o ciclo de vida humana, sendo definida pela Organização Mundial da Saúde como a segunda década de vida, referindo-se a pessoas que estao na faixa etária de 10 a 19 anos. Pode ser entendida como um processo de transição entre a infância e a vida adulta e envolve transformações simultâneas nos âmbitos físico, psíquico, interativo e social, que colaboram para um período de inconstância emocional e de conflitos pessoais.1,2 E um período marcado por constantes mudanças. O adolescente precisa de exemplos com os quais possa se identificar e nem sempre os encontra na família.3 Para, além disso, é um período marcado pela não aceitação pessoal e pela avaliação do seu papel nas relações interpessoais e na sociedade. O tema é complexo, existe muita dificuldade em produzir consenso. Entretanto, pode-se inferir que nas intra e inter-relações familiares encontram-se, indubitavelmente, as explicações para os mais diversos tipos de transtornos de comportamento onde as relações sociais se estruturam.4 Famílias desorganizadas e pais agressores, opressores e violentos podem gerar adolescentes agressivos e violentos na medida em que esses exemplos são copiados.5
Espaço privilegiado de interação entre os adolescentes, o ambiente escolar propicia-lhes o exercício de habilidades pró-sociais, contribuindo para seu desenvolvimento interpessoal e fortalecimento de habilidades para a vida em sociedade. É também nesse espaço que as dificuldades de relacionamento e interação entre os pares se tornam mais evidentes. Comportamentos agressivos, discriminações, preconceitos e exclusão social são exemplos da violência tida como escolar.
Sabe-se que a violência é um problema crescente em todo o mundo. Por sua contemporânea amplitude e disseminação, tem adquirido visibilidade, sendo discutida e estudada nos diferentes setores da sociedade, a fim de identificar os fatores que a determinam. Entre os adolescentes, pode ser expressa de várias formas, ocorrendo no ambiente familiar, escolar e na comunidade. Nesse cenário, destaca-se o bullying, comportamento violento, sem motivação aparente, repetitivo, intencional e caracterizado pelo desequilíbrio de poder entre os envolvidos.6
O bullying, termo de origem inglesa advinda da palavra bully (valentao, briguento), começou a ser utilizado em pesquisas norueguesas a partir da década de 70 e hoje já é utilizado em dezenas de países, inclusive no Brasil.7 Classifica-se em: direto - colocar apelidos, agressões físicas, ofensas verbais, roubos, ameaças ou expressões e gestos que geram mal-estar nos outros; e indireto - atitudes de indiferença, isolamento, difamação e negação de seus desejos.8 Outra variação do bullying que vem ganhando destaque é o cyberbullying, que compreende o uso de ferramentas tecnológicas para assediar, ameaçar, constranger ou humilhar outra pessoa, simular ou tentar violar senhas das vítimas.9 Entre os envolvidos nas ocorrências de bullying têm-se os perfis de vítima, vítima-agressora, agressores e espectadores. As vítimas geralmente apresentam características diferentes das demais, estigmas e/ou atributos considerados negativos. Já a vítima-agressora é aquela que reproduz os maus-tratos sofridos. O agressor ou bully é o que age para dominar e subjugar os outros e se impor mediante o poder e a ameaça para conseguir aquilo a que se propoe. Os espectadores são os que presenciam o bullying, porém não o sofrem nem o praticam.10
Os estudos mostram que ambos os sexos se envolvem nos comportamentos de bullying - as meninas tendem a praticar agressões na forma de terror psicológico, os meninos tendem a utilizar a força física para firmarem seu poder sobre os demais.11
É sabido que o bullying ocasiona prejuízos significativos a todos os envolvidos, o que define esse fenômeno como um problema de saúde pública, demonstrando assim a necessidade de estudos voltados para o desenvolvimento de estratégias de prevenção e intervenção. O objetivo deste trabalho é analisar o perfil da prática violenta do bullying entre os adolescentes de escolas públicas e privadas de Belo Horizonte.
METODOLOGIA
Este trabalho é resultado de pesquisa realizada em 2013 e 2014 pelo Núcleo de Promoção de Saúde e Paz/DMPS/FM/UFMG. Trata-se de estudo transversal cuja metodologia consiste de realização de entrevista semiestruturada utilizando questionários autoaplicáveis preenchidos por amostra de adolescentes, calculada com erro de 5%, recrutados, por sorteio, nos diferentes turnos de 33 escolas públicas e privadas selecionadas nos nove distritos sanitários de Belo Horizonte. O número de adolescentes em cada escola é proporcional ao seu tamanho. Foram incluídos no estudo os adolescentes que aceitaram participar da pesquisa e cujos pais assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).
O questionário foi elaborado pela equipe da pesquisa a partir de subsídios originários de outros instrumentos e da literatura e testado posteriormente em estudo-piloto realizado na forma de entrevistas com 40 adolescentes das faixas etárias estudadas, sobre o entendimento destes a respeito de cada uma das perguntas existentes. Após correções necessárias, o questionário foi testado novamente, desta vez no modo em que seria utilizado na pesquisa, isto é, autoaplicável e anônimo. É estruturado em oito blocos temáticos: família, sobre você, violência, trabalho, sexualidade, escola, drogas e questoes temáticas. Para o presente trabalho, foram utilizadas sete variáveis do família e 17 do bloco escola. Os dados foram coletados em sala de aula. Sua aplicação dos questionários foi precedida de visita às escolas para contato prévio com os seus responsáveis e com os adolescentes. Nessa oportunidade, foram entregues as autorizações para a participação no estudo a serem levadas para casa e assinadas pelos pais. Adolescentes maiores de 16 anos assinaram, eles próprios, o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) no momento de realização da pesquisa.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Responderam o questionário 1.217 adolescentes, sendo 39,2% estudantes da rede estadual de ensino; 29,7% da rede municipal; 29,7% da rede privada; e 1,4% dos alunos estudava em escolas federais. Em relação ao sexo, 45,3% eram homens e 54,7% eram mulheres, não havendo, assim, diferença significativa entre os sexos. A idade mínima foi de 10 anos e a máxima de 19. A maior parte dos estudantes tinha 15 anos (17,6%). Do total, 34,8% se autointitularam brancos, 13,1% negros, 46,6% pardos, 3,2% orientais e 2,3% indígenas.
Quando questionados, 9,2% dos alunos e alunas responderam que se sentiam ameaçados/as na escola. Em relação ao ato de sofrer piadas ou comentários maldosos, 46,4% dos estudantes relataram já terem sido vítimas de tal comportamento. Quanto ao início desse comportamento, 19,8% relataram que sempre aconteceu. Para 9,7% dos estudantes, essa prática acontece desde o início do curso; 4,8% informaram sofrer piadas e serem vítimas de comentários maldosos desde a semana anterior à pesquisa. A Figura 1 mostra as formas de bullying encontradas neste estudo.
Figura 1 - Principais formas de intimidação e/ou maltrato. Fonte: Núcleo-Promoção de Saúde e Paz, 2014.
A Pesquisa Nacional de Saúde Escolar/2009 (PEN-SE) mostrou que entre os 60.973 estudantes entrevistados, do 9º ano do ensino fundamental de escolas públicas e privadas das 26 capitais dos estados brasileiros e do Distrito Federal, 62,9% relataram não sofrer bullying, 25,4% que raramente sofreram e 5,4% que sempre sofreram. Quanto à frequência de "sempre sofrer bullying" em escolas públicas, ela foi acima da média das capitais na cidade de Belo Horizonte, 7,1%. A capital mineira também apresentou a maior frequência de bullying entre as demais, 6,9%.12
As vítimas de bullying têm características diferentes das demais, no tocante a raça, a problemas escolares, crianças autistas; com necessidades especiais de saúde ou doenças crônicas; obesas; adolescentes gays ou que estao questionando sua sexualidade: meninos percebidos como "muito femininos" ou meninas como "muito masculinas".13 Compoem um grupo de indivíduos cujas características e/ou atributos são considerados negativos. Em consequência do bullying, podem desenvolver quadros graves de transtornos psíquicos e/ou comportamentais como sintomas psicossomáticos, transtorno do pânico, fobia escolar, fobia social, depressão, entre outros.14
Em relação ao local de ocorrência, a rua foi citada como o principal lugar para 33,4%, seguido pela sala de aula e o pátio da escola (22,2% cada). É sabido que no ambiente escolar as manifestações de bullying ocorrem tanto nas salas de aula como no pátio, durante o recreio. Ressalta-se que as formas pelas quais se manifesta alteram-se de acordo com a idade dos envolvidos. Nesse sentido, em crianças menores, com grau escolar compreendido entre os ciclos iniciais e a 4ª série, as condutas de bullying são mais perceptíveis, caracterizam-se pelos maus-tratos físicos associados a ameaças, chantagens, comportamento abusivo e imposição de autoridade por meio da força física e ameaças psicológicas.
As áreas comuns das escolas, como o pátio do recreio, são os locais de mais incidência. Da 5ª série em diante as condutas de bullying geralmente se dao com linguagem visual, gestual e corporal. Expressam-se por intermédio de ameaças, apelidos, difamações, discriminações, ofensas, furtos, abusos sexuais, indução aos maus-tratos e exclusão da vítima do grupo social. Ocorrem principalmente no exterior da escola, tornando-se mais difícil a sua detecção. Assim como nas séries finais do ensino fundamental, no ensino médio a maioria dos maus-tratos acontece de forma disfarçada, por meio apelidos, ofensas, ameaças e brigas dentro e fora da escola.10
Diante de uma intimidação, 14,3% dos estudantes afirmaram falar o que estava acontecendo para os professores, 29,6% disseram contar para os pais. Já 27,8% responderam que conversavam com a coordenação ou a direção da escola. Os colegas eram os ouvintes dos relatos de intimidação para 18,8% dos estudantes. Estudos realizados por Galdino e Ferreira acerca do apoio de figuras significativas na superação do bullying no contexto escolar mencionam a família e os amigos da escola como as principais figuras buscadas, em face do desejo de sair da situação de agressão e da necessidade de serem ouvidas. Reforçam, ainda, que representam figura significativa para a vítima de bullying quem tem interesse em ajudá-la, sente-se sensibilizado com as dificuldades que ela sofre, preocupando-se com seu bem-estar e ajudando-a a superar a situação.16 Em contrapartida, consideram-se como fator de risco para ocorrência de bullying casos em que há pouca atenção dos pais frente aos relatos de maus-tratos escolares sofridos e/ou perpetrados por seus filhos; a incapacidade dos professores de lidarem com a situação; bem como o processo de negação destes e do corpo diretivo das escolas quando indagados sobre a presença do fenômeno bullying nos espaços escolares aos quais pertencem.
Sobre os agressores, verificou-se que a maioria das intimidações é feita por um grupo de meninos. Segundo os estudantes, 18,6% das intimidações são realizadas por um grupo de meninos. Em seguida, aparece o grupo formado por meninos e meninas, responsáveis por 9,1% das intimidações. Intimidações causadas apenas por meninos ou meninas individualmente corresponde a 4,6 e 1,6%, respectivamente. Conforme a literatura estudada10, quando agressoras, as meninas assumem formas mais sutis de agressão, como o bullying indireto, motivo que somado às demais formas de expressão do fenômeno tende a explicar a maior proporção do público masculino quanto aos perfis de agressor.
Outra possível explicação pode estar associada ao processo de inserção do adolescente na cultura de pares ao afastar-se do âmbito familiar e aproximar-se de outros espaços sociais. Nessa perspectiva, principalmente nas fases iniciais da adolescência, quando os grupos de pares são unissexuais e mais numerosos entre os meninos, enquanto os grupos femininos constituem-se de relações mais íntimas, influenciadas pela afetividade, laços de amizade, emoção e sentimentos, nos grupos masculinos essas relações norteiam-se pela resistência à autoridade adulta, pelas competições e alcance de objetivos.17
CONCLUSÃO
O bullying é um fenômeno contextual sociocultural, dinâmico que está relacionado à complexa rede de interação entre indivíduos, famílias e escolas; requer intervenções no próprio local, ajustadas ao contexto e ancoradas na participação processual dos adolescentes. Devolver a voz a esses sujeitos do processo de ensino e aprendizagem pode ser mais que uma alternativa para mapear a dinâmica relacional da escola.
O bullying pode variar de acordo com a idade, sexo e características individuais, além de contextos culturais e sociais. Ele pode afetar a saúde física e mental dos adolescentes, o que requer a atenção das escolas, pais e da comunidade. Conhecer os adolescentes que frequentam a escola, para além de um conceito abstrato da sua categoria social, é o desafio essencial que se apresenta aos educadores comprometidos com uma educação que se qualifica pela ousadia de alterar e questionar continuamente.
São necessárias pesquisas adicionais, especialmente análises qualitativas, para entendimento aprofundado da violência e para entender melhor as diferenças e os contextos que produzem esses comportamentos. Entretanto, a atuação dos profissionais de saúde e educação no sentido de identificar essas violências e preveni-las é algo que se impoe para a agenda atual, segundo trabalho que integre múltiplos setores, tanto nos aspectos macroestruturais - a exemplo das políticas públicas sociais - como nos microespaços, definindo-se e estabelecendo-se redes de apoio e proteção.
É importante o investimento e treinamento de profissionais da área da educação para elaboração e execução de programas de prevenção ao bullying. Torna-se necessária a tomada de consciência das graves consequências desse fenômeno que merece a atenção da pesquisa. Entre as recomendações que se estabelecem para maia compreensão do bullying e sua interação com autoestima, identifica-se a necessidade de estudos adicionais sobre a natureza do evento, abrangendo a dinâmica familiar e outras situações de vulnerabilidade, bem como estratégias qualitativas de investigação do fenômeno.
REFERENCIAS
1. World Health Organization. The second decade - improving adolescent health and development. Genebra: WHO; 2001.
2. Aramis A. Bullying: comportamento agressivo entre estudantes. J Pediatr. (Rio J.). 2005; 81(5): 33-9.
3. Lira FC. Etapas da adolescência. [citado em 2016 out. 15]. Disponível em: http://educacao.aaldeia.net/etapas-adolescencia/
4. Marques QR. Bullying na adolescência: a terapia psicomotora como forma de intervenção. In: XI Congresso Brasileiro de Psicomotricidade, Rio de Janeiro, Universidade do Estado do Rio de Janeiro; 2010.
5. Assis SG, AvanciJQ, Pesce RP, Ximenes LF. Situação de crianças e adolescentes brasileiros em relação à saúde mental e à violência. Ciênc Saúde Coletiva. 2009; 4(2): 349-61.
6. Olweus D. Bullying at school. Massachusetts: Blackwell Publishers Inc; 1993.
7. Antunes DC, Zuin AAS. Do bullying ao preconceito: os desafios da barbárie à educação. Psicol Soc. 2008; 1(20): 33-42.
8. LopesNAA, Saavedra LH. Diga não para o bullying: programa de redução do comportamento agressivo entre estudantes. Rio de Janeiro (RJ): ABRAPIA; 2004
9. Wendt GW, Lisboa CSM. Agressão entre pares no espaço virtual: definições, impactos e desafios do cyberbullying. Psicol Clín. 2013; 25(1): 73-87.
10. Fante C. Fenômeno bullying. 2ª ed. Campinas: Versus; 2005.
11. Silva ABB. Mentes perigosas: o psicopata mora ao lado. Rio de Janeiro: Objetiva; 2008.
12. Malta DC, Silva MAI, Mello FCM, Monteiro RA, Sardinha LMV, Crespo C, et al. Bullying nas escolas brasileiras: resultados da pesquisa nacional de saúde do escolar (PeNSE) 2009. Ciênc Saúde Coletiva. 2010; 15(2): 3053-63.
13. Silva VR. Bullying não é brincadeira. Campo Grande: Ed do Autor; 2012.
14. Silva ABB. Bullying: mentes perigosas nas escolas. Rio de Janeiro: Objetiva; 2010.
15. Galdino MJR, Ferreira SPA. O apoio das figuras significativas na superação do bullying no contexto escolar. Psicol Educ. 2013; 37: 31-41.
16. Pigozi PL, Machado AL. Bullying na adolescência: visão panorâmica no Brasil. Ciênc Saúde Coletiva.2015; 20(11): 3509-22.
