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ISSN: 0103-880X eISSN: 2238-3182
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Educação Médica

Relato de um encontro clínico "fora dos padroes"

Reportofan "out ofthe box" clinical meeting

Celmo Celeno Porto

DOI: 10.5935/2238-3182.20180043

Rev. Méd. Minas Gerais, 28(1), e-1953

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RESUMO

O relacionamento médico-paciente requer não só o conhecimento das técnicas da entrevista clínica, mas, também, é preciso ter a consciência de que o mundo do paciente e sua família, pode ser tao diverso daquele domédico, que a comunicação só será possível se souberusar a principal qualidade do método clínico, a sua flexibilidade.

Palavras-chave: Relacionamento médico-paciente; Anamnese; Consulta médica

Ao se fazer a anamnese, o significado de uma pergunta pode ser totalmente diferente para o médico e para o paciente, como se pode observar a partir do relato do encontro clínico descrito, a seguir, em cinco atos.

• Primeiro Ato

Um paciente que morava nas margens de um afluente do rio Negro, ao se sentir adoentado, sem poder trabalhar, decidiu ir à procura de um médico em Manaus. Levantou cedo, guardou no embornal a farofa que sua mulher preparara naquela madrugada, pegou sua rede, uma camisa e uma cueca. Embarcou em sua canoa e remou durante várias horas para chegar ao rio Negro no final daquela tarde, a tempo de pegar o barco que o levaria a Manaus. Não se esqueceu de levar um radinho de pilha, único elo entre ele e o mundo.

• Segundo Ato

Naquela mesma noite o médico que o atenderia no dia seguinte e que era professor da faculdade de medicina fora para seu escritório, em sua casa, para estudar e preparar uma aula, hábito que cultivara durante toda sua vida. Consultou livros, visitou alguns sites da internet, ouviu um pouco de música clássica e foi dormir ao lado de sua mulher.

• Terceiro Ato

O sol nascia sobre a floresta amazônica quando o ribeirinho saiu da rede após uma noite maldormida, já que estava intranquilo e inseguro. Era a primeira vez que deixava sua casa, sua mulher e seus filhos em busca de assistência médica. Na mesma hora, o médico acordava, bem disposto, contente com a vida, pois gostava de seu trabalho como médico e como professor. Tinha grande interesse pelos pacientes e seus alunos. Tomou um bom café da manha, beijou sua mulher, pegou seu carro para deixar os filhos no colégio e ir para o hospital, onde atenderia os pacientes no ambulatório de clínica médica. No mesmo momento o ribeirinho desembarcou no cais de Manaus, tomou um café com leite no primeiro boteco que encontrou e pediu informações a um guarda sobre como chegar ao Hospital Universitário.

• Quarto Ato

O médico e o paciente chegaram quase juntos ao hospital. Era um dia tranquilo de atendimento, e a funcionaria que o atendeu foi atenciosa e prestativa; deu-lhe uma ficha para que fosse examinado naquela manha mesmo na clínica geral.

• Quinto Ato

O médico já havia tomado seu lugar na sala de consulta do ambulatório. Naquele dia não havia estudantes, estavam em greve. O paciente permaneceu sentado em um banco em frente à sala cujo número correspondia à sua senha. Ele era analfabeto, mas conhecia números. Uma auxiliar abriu a porta e chamou seu nome. Levantou-se, caminhou um passo assustado naquele ambiente totalmente estranho, tendo em seus pensamentos a lembrança de sua mulher e de seus filhos. O médico, demonstrando educação, colocou-se de pé para receber o paciente, com ar amistoso, convidando-o a sentar-se diante da escrivaninha.Naquele momento tinha início um "encontro clínico" com toda a sua complexidade, embora parecesse algo tao simples, ou seja, "dentro dos padroes": um paciente em busca de assistência médica!É fácil imaginar a distância entre aquelas duas pessoas com tantas diferenças - socioeconômicas, culturais, educacionais. Viviam em mundos diferentes: os desejos, as expectativas, os sonhos, as possibilidades, as limitações, tudo era diferente. Ao iniciar a entrevista, o médico, que sempre se interessou pela relação médico-paciente, levou em conta tudo isso. Contudo as vivencias e as expectativas eram diferentes, como se pode perceber pelo seguinte diálogo:

- Bom dia, seu José! [O médico sabia o nome dele porque estava no prontuário]

- Bom dia, doutor. [ O paciente não sabia o nome do médico. Era apenas o "doutor"]

- O que o senhor sente? [Era sua maneira de iniciar a anamnese]

- O que eu sinto, doutor, é muita saudade da minha mulher e de meus meninos! Deixei eles ontem de madrugada. Minha mulher toma conta direitinho deles. Eu sei, mas estou preocupado

- Seu José, o que o senhor tem? [O médico reformulou sua pergunta, pensando que o paciente não havia entendido o seu "significado"]

- Ah! Doutor, não tenho quase nada. Só tenho umas galinhas, um porquinho engordando no chiqueiro, uma rocinha de mandioca, pouca coisa, doutor!

- Seu José, qual é a sua doença? [O médico pensou novamente que fizera a pergunta de maneira errada. Na mente do paciente, naquele momento "sentir" e "ter" não estavam relacionados com sua doença. Por isso, o médico decidiu, mesmo contrariando o que ensinava a seus alunos, fazer uma pergunta mais direta]

- Ah! Doutor, o senhor é que sabe, o senhor é médico. O senhor sabe muita coisa, vim aqui para o senhor me curar, para eu poder voltar logo a minha casa. Preciso tomar conta da minha família e de minhas coisinhas

- Seu José, por favor, tire a camisa e deite-se nesta mesa para eu poder examiná-lo. [O médico percebeu que precisava mudar a estratégia para encontrar um ponto de contato entre ele e o paciente]

A partir de entao, as expectativas do médico e do paciente entraram em sintonia. Naquele momento, o encontro clínico teve início de verdade, uma vez que o médico se deu conta de que teria de fazer uma adaptação das "técnicas de entrevista" para aquele paciente. Naquele caso, a melhor técnica foi fazer a história durante a realização do exame físico. A medida que examinava o paciente, fazia as perguntas que tornavam possível a construção de uma história clínica.

Esse relato serve para explicar a necessidade de conhecer não apenas as bases e as técnicas de uma entrevista clínica, mas, também, algo mais: ter consciência de que o mundo do paciente, incluindo tantos aspectos que o médico desconhece, pode ser tao diferente do dele que só será possível levar adiante a elaboração da anamnese.

Celmo Celeno Porto

Afiliação:

Universidade Federal de Goiás, Faculdade de Medicina, Programa de Pós-Graduaçao em Ciências da Saúde. Goiânia, GO - Brasil

Recebido em: 11/11/2017

Aceito em: 20/12/2017

Instituiçao: Universidade Federal de Goiás - UFG, Goiânia, GO - Brasil

Endereço para correspondência

Celmo Celeno Porto
E-mail: celeno@cardiol.br

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Como citar este artigo

Porto, CC. Relato de um encontro clínico "fora dos padroes". Rev. Méd. Minas Gerais. 28(1):e-1953. DOI: 10.5935/2238-3182.20180043

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