INTRODUÇÃO
Primordialmente, a implantação de um serviço de saúde para adolescentes requer a garantia de acesso ao tratamento de doenças e reabilitação, bem como a ações de promoção à saúde e prevenção, isto é, a garantia da atenção integral e interdisciplinar. Na adolescência, esse tipo de atenção se faz necessária, haja vista todas as mudanças biopsicossociais por que passam os adolescentes e suas novas demandas, que vao além de questoes orgânicas e pontuais. Essas mudanças são vivenciadas de maneira diversa nos diferentes contextos e os fragilizam, tornando-os vulneráveis a muitas situações e agravos.1-5
Devido ao alto índice de evasão escolar, gravidez, doenças sexualmente transmissíveis, prostituição, uso de drogas e outras infrações entre a população adolescente do Norte de Minas Gerais6,7 numa perspectiva de implementação da prática docente e assistencial e de melhoria do atendimento prestado àquela população, em 2002 foi implantado o Projeto "Adolescentes para o Terceiro Milênio". A atenção foi organizada, na época, segundo áreas específicas: educação sexual, serviço de planejamento familiar, pré-natal e assistência ao parto e puerpério; orientações sobre aleitamento materno; atenção pediátrica para adolescentes e seus filhos; atividades de educação física e artística; atividades de atenção psicológica e atenção odontológica.
Ao longo do tempo, algumas modificações ocorreram no projeto, entre elas a mudança de chefia e do local de atendimento e a sua transformação em programa, o qual continua atravessando processo de reestruturação. Não obstante, a equipe atual do Programa "Adolescentes para o Terceiro Milênio" que presta assistência no Centro Ambulatorial de Especialidades Tancredo Neves (CAETAN) é composta apenas de profissionais médicos e estudantes de graduação, a maioria deles sem capacitação para atenção integral a essa faixa etária ou para atenção aos grupos mais vulneráveis, como os usuários de drogas, as vítimas de violência e aqueles em situação de rua ou abandono.
Nesse contexto, o presente estudo objetiva: a) estimar as oportunidades perdidas de atenção integral ao adolescente durante as consultas realizadas pelos médicos e estudantes que atuam no Programa "Adolescentes para o Terceiro Milênio"; b) propor medidas que possam produzir formas de atuação médica voltadas não só para o tratamento, mas também para a promoção de saúde e prevenção de agravos e doenças.
MÉTODOS
O estudo é do tipo descritivo e foi realizado a partir do questionário "Avaliação sobre Oportunidades Perdidas de Atenção Integral ao Adolescente", proposto e publicado pela Organização Pan-americana de Saúde (OPS), que tem como objetivo avaliar a qualidade da atenção dada pelo serviço de saúde aos adolescentes, mediante a identificação das ocasioes em que estes entram em contato com o serviço e não recebem as ações de promoção, proteção e recuperação que lhes cabem, como a abordagem de temas relevantes para sua saúde e a execução de anamnese e exame físico completos.8,9
A coleta dos dados foi feita entre julho e dezembro de 2011, por meio de entrevistas individuais realizadas por dois acadêmicos de Medicina familiarizados com o instrumento e preparados para esclarecer dúvidas quando necessário. Adotaram-se como critérios de elegibilidade dos pacientes: ter idade entre 10 e 19 anos, ser paciente usuário do serviço, estar presente em sala de espera na data e hora da aplicação do questionário e demonstrar concordância em participar da entrevista. Os participantes foram informados a respeito dos objetivos da pesquisa, reforçando-se o anonimato, a fim de se obter mais fidedignidade dos relatos. Todos os sujeitos (ou seus responsáveis) que participaram assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, atendendo aos preceitos da Resolução Nº 196/96 do Conselho Nacional de Saúde.
O presente trabalho é parte de um projeto de pesquisa e extensão sobre atenção integral ao adolescente, teve sua execução aprovada pelo Comitê de Ética da Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) e contou com o apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG).
RESULTADOS
A amostra foi composta de 168 adolescentes com média de idade de 13,8 anos. Dessa amostra, 81 entrevistados eram do sexo masculino (48,2%) e 87 do sexo feminino (51,8%).
Do total de consultas médicas realizadas, 63,7% se tratava de retorno, enquanto 36,3% dos adolescentes vieram pela primeira vez. Em relação ao motivo, 34,5% procuraram o serviço por doença e 25,5% para consulta de rotina. Destaca-se que a maioria dos adolescentes entrevistados (40%) relatou ter procurado o serviço por outros motivos, sendo o principal deles solicitar encaminhamento para as atividades pedagógicas, esportivas e recreativas oferecidas pelo Programa "Adolescentes para o Terceiro Milênio".
Em relação às anamneses médicas, a maioria dos adolescentes entrevistados afirmou ter sido questionada sobre sua situação escolar, hábitos alimentares, prática de esportes ou atividades físicas, enquanto apenas 16,0% afirmaram terem sido interrogados sobre sua situação financeira. Da mesma forma, 47,6% informaram terem sido interrogados sobre sua vida sexual, 49,4% sobre uso de substâncias tóxicas, como álcool e drogas (Tabela 1).
Quanto ao exame físico realizado, a análise dos questionários mostrou que 77,4% dos adolescentes foram pesados, 71,4% foram medidos e 67,8% tiveram sua pressão arterial aferida, enquanto apenas 39,9% referiram terem sido submetidos a exame físico completo (com estadiamento puberal) (Tabela 1).
No tocante à educação em saúde, dos pacientes entrevistados 79,2% negaram terem recebido informações sobre sexualidade e 88,7% sobre prevenção de doenças sexualmente transmissíveis. Prevenção de acidentes também foi um tema pouco abordado, com 93,4% dos entrevistados afirmando não terem recebido qualquer orientação a respeito. Ainda em relação à promoção de saúde, 88,1% dos adolescentes negaram terem sido orientados sobre saúde bucal, 83,9% sobre tabagismo e 83,3% sobre violência na família, na escola ou sexual (Tabela 2).
DISCUSSÃO
No presente trabalho verificou-se que a maioria dos adolescentes procurou atendimento médico sem que houvesse um problema evidente de doença. No entanto, observou-se que o profissional privilegiou questoes relacionadas ao crescimento físico, como alimentação, em detrimento a outras questoes de extrema relevância na adolescência: sexualidade, prevenção de DSTs, acidentes, violências, tabagismo, uso de álcool e outras drogas.
O adolescente não é mais uma criança para ser atendido nos moldes da Medicina infantil, mas também o tratamento direcionado aos adultos pode não abranger todas as necessidades que o jovem apresenta. Assim, ele deve receber atenção diferenciada, o que requer um serviço que verdadeiramente atenda às demandas especiais dessa faixa etária. Se eles procuram atendimento médico sem queixas clínicas específicas e encontram atendimento clássico, com enfoque biológico e curativo, dificilmente pode-se esperar que retornem para outra consulta ambulatorial. Por outro lado, ainda que a queixa seja de ordem física, o atendimento centrado em queixas circunstanciais não permite ao médico cumprir sua tarefa perante o paciente adolescente, que é oferecer não só tratamento, mas também prevenção de doenças e agravos e verificar e responder às reais demandas dessa população.3-5,10-14
Motivados por exemplos de comportamento na família, pressão de grupo, autoafirmação na comunidade ou mesmo por dificuldades na esfera emocional, o adolescente pode se colocar em situações de risco imediato ou adquirir hábitos pouco saudáveis que podem originar enfermidades na idade adulta. Para que o sujeito se comprometa com a própria saúde e de seus pares, torna-se necessário orientá-lo quanto aos determinantes de seus problemas. Cabe aos profissionais de saúde incentivar uma conduta responsável nos jovens, prover informações importantes e corretas sobre saúde, além de identificar os que estao em situações de risco para oferecer ajuda adequada e em tempo hábil.1-5
No entanto, estudos revelam pouco conhecimento e muitas dificuldades para lidar com esse grupo, explicados em parte pela abordagem insuficiente, nos cursos de graduação, de temas como adolescência, relações familiares e violência, entre outros. Sexualidade humana, por exemplo, quando contemplada nas grades curriculares, está voltada quase que exclusivamente para o processo reprodutivo.15-18 O pouco conhecimento sobre a adolescência contribui para a emissão de julgamentos e, consequentemente, para a criação de barreiras na relação médico-paciente. Por outro lado, a compreensão dos profissionais a respeito da adolescência pode determinar mais sensibilidade e receptividade para aprender as informações apresentadas pelo adolescente e também de sua adequada percepção quanto à sua vulnerabilidade.15,16
Enquanto a formação acadêmica das áreas afins não der conta do ensino da adolescência no enfoque além do biológico, é preciso que haja elevados investimentos na educação permanente dos profissionais dos serviços de saúde que tenham como proposta a atenção integral e de boa qualidade ao adolescente.3,4,11,16,19 Importante ressaltar que é possível formar e qualificar profissionais de saúde dentro da ideia de aprender com o próprio trabalho e com a equipe, mas para que essa proposta seja mantida, uma equipe mínima composta por médico, enfermeiro, psicólogo e assistente social é item especialmente relevante.4,5,10,16,20 O olhar de diferentes áreas da saúde é o melhor caminho para se compreender a amplitude das modificações biopsicossociais que ocorrem com os adolescentes e reverter a realidade das oportunidades perdidas.
Finalmente, devem-se mencionar as seguintes limitações da pesquisa: este estudo foi realizado a partir de um questionário que, embora validado pela OPAS e aplicado por alunos treinados, sustenta-se apenas pelos dados fornecidos pelo entrevistado, o que pode gerar um viés de informação. Acredita-se, no entanto, que o viés do entrevistador foi minimizado com a condução da entrevista por estudantes de Medicina não ligados diretamente ao serviço. Pressupoe-se, ainda, que o viés devido à não resposta não tenha ocorrido nesta pesquisa, já que todos os adolescentes concordaram em responder às perguntas, não havendo perdas. Apesar dessas limitações, é importante salientar que a avaliação completa desse serviço não foi realizada somente com a utilização desse instrumento. Ressalta-se também que o presente estudo serve de alerta e indica a necessidade de avaliação e melhoria dos serviços assistenciais a adolescentes, sobretudo os de instituições universitárias, em que há estudantes e profissionais em treinamento, potenciais multiplicadores de educação em saúde.
AGRADECIMENTOS
A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG), pelo fomento a esta pesquisa.
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