Introdução
A depressão pós-parto (DPP) é uma condição que afeta aproximadamente 10% a 17% das mulheres durante o período pós-parto em todo o mundo, e essa porcentagem pode chegar a 40% em países de baixa renda1. A DPP é um transtorno do humor potencialmente grave, caracterizado por tristeza persistente, perda de interesse, distúrbios do sono e da alimentação, ansiedade, irritabilidade, baixa autoestima, autorrecriminação e, nos casos mais graves, até ideação suicida ou homicida2. A DPP está associada a muitos resultados perinatais adversos, incluindo problemas de saúde relacionados ao recém-nascido (RN), como crescimento e desenvolvimento anormais, distúrbios do sono e comprometimento cognitivo, e prejuízos na evolução materna no puerpério (como amamentação, vínculo mãe-RN e cuidados com o RN), na qualidade de vida materna e nos relacionamentos sociais e conjugais3. Além disso, a DPP também tem um impacto econômico para as famílias, para os empregadores, para as seguradoras de saúde e também para os governos. Essa condição está associada a uma maior dependência de programas de assistência pública, uma sobrecarga aos sistemas de saúde, tanto para as mães quanto para as crianças, e um declínio na renda e na produtividade maternas4.
Nas últimas décadas, diversas estratégias têm sido propostas para prevenir e tratar a DPP. Em primeiro lugar, é crucial identificar as mulheres com maior risco de desenvolver a DPP. Em 2019, a U.S. Preventive Services Task Force (USPSTF) recomenda que todas as gestantes e puérperas sejam rastreadas para a depressão, e aquelas com risco aumentado devem ser encaminhadas para intervenções de aconselhamento5. Isso inclui mulheres com histórico de DPP ou doença psiquiátrica, com experiência de parto negativa, falta de apoio social e aquelas que vivem em contextos sociais frágeis (vivenciando violência, abusos ou com baixo status socioeconômico)6. Em relação à prevenção da DPP, tem havido maior interesse em estratégias que se concentram no vínculo mãe-RN, como o Método Canguru (MC) e o contato pele a pele (CPP).
O MC foi desenvolvido empiricamente no final dos anos 1970 em Bogotá, Colômbia, por Edgar Rey e Hector Martinez7. Inicialmente, foi uma resposta às altas taxas de mortalidade entre RNs prematuros, com sua prática essencial inspirada na maneira como os cangurus carregam seus filhotes. Envolve colocar o RN nu em contato pele a pele contínuo no peito descoberto da mãe8. Embora a definição do MC tenha alguma heterogeneidade, atualmente ele é entendido como um conjunto abrangente de intervenções que engloba não apenas o CPP, mas também a educação parental, o aleitamento materno exclusivo, a alta hospitalar precoce e o acompanhamento rigoroso de bebês prematuros e/ou de baixo peso ao nascer. Reconhecido como uma política de saúde pública desde o início dos anos 2000 pelo Ministério da Saúde do Brasil9, o programa do MC foi direcionado primariamente a RNs prematuros; no entanto, o seu componente essencial, o CPP, é altamente recomendado para todos os bebês, independentemente da idade gestacional ao nascer10-12.
Dessa forma, é de suma importância diferenciar os dois conceitos. Enquanto o CPP se refere estritamente à colocação do RN desnudo sobre o tórax materno ou paterno, por tempo variável, o MC constitui um modelo de assistência neonatal estruturado que envolve, além do CPP, pilares como o estímulo ao aleitamento materno, a educação parental e a alta hospitalar assistida. Ambos estão fortemente associados a uma série de resultados perinatais favoráveis, incluindo a diminuição da mortalidade neonatal, a redução da incidência de sepse neonatal, hipotermia e hipoglicemia e taxas mais baixas de reinternação hospitalar13,14. Além disso, o MC e o CPP demonstraram aumentar as taxas de amamentação e aleitamento materno exclusivo, reduzir o risco de sintomas de DPP de moderados a graves, diminuir os níveis de estresse e ansiedade maternos e melhorar o vínculo mãe-bebê13,14. Ambas as abordagens são de baixo custo, viáveis e acessíveis.
Portanto, o objetivo desta revisão narrativa é pesquisar a literatura sobre o papel potencial do MC e do CPP na redução da DPP materna. Esta revisão também visou resumir as evidências atuais, explorar potenciais mecanismos subjacentes e identificar lacunas para futuras pesquisas.
Métodos
Esta revisão narrativa utilizou uma pesquisa bibliográfica abrangente e não sistemática para explorar a associação entre MC, CPP e depressão pós-parto. A pesquisa foi realizada em quatro bases de dados (PubMed, Scopus, Google Scholar e SciELO) utilizando uma combinação das seguintes palavras-chave: 'kangaroo mother care', 'skin-to-skin contact', 'depression' e 'postpartum depression'. Para garantir a objetividade, os artigos foram primeiramente triados com base em seus títulos e resumos, e então os dados relevantes foram selecionados e extraídos independentemente por dois autores.
Evidências atuais sobre MC/CPP e DPP
Os dados relativos às evidências mais recentes de estudos de pesquisa originais sobre MC, CPP e DPP são apresentados na Tabela 115-30.
Tabela 1. Resumo de artigos de pesquisa sobre o Método Canguru (MC) ou Contato Pele a Pele (CPP) e Depressão Pós-Parto (DPP).
| Autor/ano | População | Intervenção | Principais achados |
|---|---|---|---|
| Ahn (2010)15 | 20 mães (10 grupo MC; 10 controle) de RNs prematuros (<36 semanas) | Não detalhada | Após três semanas de MC, ambos os grupos mostraram declínio nos escores de depressão, sem diferença significativa. Mães do grupo MC tiveram escores de vínculo significativamente maiores. |
| Alencar (2008)16 | 177 mães de RNs prematuros com PN <2000g | MC iniciado com RNs estáveis após alta da UTIN; CPP com bolsa especial o máximo possível (sessões mínimas de 1–2h). | A taxa de DPP caiu de 37,3% na admissão da UTIN para 16,9% na alta (p<0,001); nenhum caso novo de DPP surgiu durante o programa de MC. |
| Bigelow (2012)17 | 90 mães (30 no grupo CPP e 60 no grupo de controle) de RNs a termo (>37 semanas) | 6h diárias de CPP na 1ª semana; 2h diárias até o RN completar um mês. | O grupo CPP teve escores de depressão significativamente menores após uma semana e maior redução de cortisol no primeiro mês (p<0.001). |
| Bigelow (2014)18 | 77 mães (26 no grupo CPP e 51 no grupo de controle) de RNs a termo (>37 semanas) | 6h diárias de CPP na 1ª semana; 2h diárias até o RN completar um mês. | O grupo CPP teve escores de depressão significativamente mais baixos na visita de uma semana em comparação com o grupo de controle (p=0.029). |
| Cañadas (2022)19 | 112 mães (56 no grupo MC e 56 no grupo de controle) de RNs prematuros com uma IG ao nascer de 28 a 34 semanas | Sessões de MC de pelo menos 90 min/dia por 12 dias. | O grupo MC mostrou melhora significativa na DPP (p=0,02), menores níveis de cortisol e melhor ganho de peso dos RNs. |
| Chen (2022)20 | 126 mães (63 no grupo MC e 63 no grupo de controle) de RNs prematuros com uma IG ao nascer de 28 a 34 semanas | Sessões de 1h de MC toda manhã, 3x/semana, por quatro semanas consecutivas. | O grupo MC demonstrou níveis significativamente menores de depressão após a intervenção (p<0,001). |
| Cho e Jeong (2021)21 | 101 mães de RNs a termo | Sessões de MC por pelo menos 1h/dia durante 14 dias. | Redução significativa no escore médio de depressão (p<0,001). Cada hora extra de MC reduziu a depressão em 4,02 pontos na EPDS. |
| Erduran (2023)22 | 60 mães (30 no grupo MC e 60 no grupo de controle) de RNs prematuros | MC intermitente de 30 min/dia por 10 dias. | Sem diferença estatisticamente significativa nos escores de DPP entre os grupos (p>0,05). |
| Feldman (2002)23 | 146 mães (73 no grupo MC e 73 no grupo de controle) de RNs prematuros | Sessões de MC por pelo menos 1h/dia por no mínimo 14 dias seguidos. | Às 37 semanas (idade corrigida), mães do grupo MC relataram significativamente menos sintomas depressivos (p<0,05), efeito maior em RNs de baixo risco. |
| Kronborg (2025)24 | 2.142 mães e 1.582 pais de RNs prematuros ou a termo | Estudo observacional medindo a duração do CPP realizado pelos pais nas primeiras 72h. | Maior duração de CPP nos primeiros 3 dias associada à redução de sintomas depressivos maternos (p=0,02). Sem efeito nos pais. |
| Kucukkaya (2025)25 | 136 mães (34 por grupo: controle, enfaixamento, MC e associação dos dois últimos) de RNs a termo | Duas sessões de 30 min de MC/dia por 6 meses. | Intervenções com MC levaram a uma redução significativa e sustentada na DPP. O efeito mais forte foi no grupo MC combinado com enfaixamento. |
| Miles (2006)26 | 78 mães (46 no grupo CPP e 32 no grupo de controle) de RNs prematuros extremos (<32 semanas). | Sessões de 20 min de CPP/dia por 4 semanas. | Sem diferença significativa nos sintomas de depressão materna em nenhum ponto (alta ou acompanhamento de 1 ano). |
| Morelius (2015)27 | 37 famílias (18 grupo CPP; 19 controle) de RNs prematuros tardios (32–35 semanas) | Meta de 24h de CPP/dia; grupo controle realizou CPP conforme desejado. | Aos 4 meses (idade corrigida), não houve diferenças significativas nos sintomas depressivos entre os grupos para mães ou pais. |
| Rao (201928 | 100 mães (50 pré-MC; 50 pós-MC) de RNs prematuros | Mínimo de 4h de MC diárias por uma semana. | Escore total de ansiedade e depressão (HADS) foi significativamente menor após o MC (p=0,012). |
| Sinha (2021)29 | 1.950 mães (1.047 intervenção; 903 controle) de RNs de baixo peso | MC iniciado na comunidade (ciKMC), incluindo CPP (média 12h/dia) e amamentação exclusiva por 28 dias. | Redução significativa de 25% no risco de sintomas de DPP moderados a graves no grupo ciKMC. |
| Taneja (2020)30 | 552 mães (276 intervenção; 276 controle) | MC iniciado na comunidade (ciKMC), incluindo CPP (média 12h/dia) e amamentação exclusiva por 28 dias. | Sem efeito significativo do ciKMC nos sintomas depressivos maternos aos 1,5 ou 6 meses de acompanhamento. |
Legenda: ciKMC = community-initiated Kangaroo Mother Care (Método Canguru Iniciado na Comunidade); CPP = Contato Pele a Pele; MC = Método Canguru; PN = peso ao nascer; RN = recém-nascido; UTIN = Unidade de Terapia Intensiva Neonatal.
Conforme demonstrado na Tabela 1, a literatura científica não é unânime em relação ao impacto do MC/CPP na redução da DPP em mães, muito provavelmente porque os estudos apresentam cenários, intervenções e populações muito distintas. No entanto, parece haver uma tendência global de redução nos escores de DPP em mães submetidas a essas intervenções, mesmo em estudos nos quais o efeito não foi estatisticamente significativo.
Dois estudos se destacam por mostrar uma possível relação dose-resposta na implementação do MC e a redução dos escores de DPP. Cho e Jeong (2021)21 mostraram que, para cada hora diária adicional de MC, a depressão diminui em 4,02 pontos na Escala de Depressão Pós-Parto de Edimburgo (EPDS), uma ferramenta validada para o rastreamento da DPP. Da mesma forma, Kronborg (2025)24 descobriu que, para cada hora adicional de CPP, o escore de depressão materna diminuía em 0,04 pontos (p=0,02). Além disso, a associação do MC com outros métodos de cuidado perinatal também foi investigada. Kucukkaya et al. (2025)25 detectaram uma redução significativa nos escores de DPP em pacientes que combinaram o meio-enfaixamento (half-swaddling) com o MC, em comparação com os grupos que utilizaram apenas o MC, apenas o meio-enfaixamento e o grupo de controle.
A análise de revisões sistemáticas mostra um cenário de incerteza em relação ao impacto dessas intervenções perinatais na redução da DPP. Para o CPP, a evidência é particularmente fraca. Uma revisão sistemática que incluiu RNs a termo submetidos ao CPP não encontrou um efeito claro na DPP31, enquanto outro estudo com RNs prematuros reportou um efeito protetivo pequeno, mas com provavelmente mínima relevância clínica32. Em contraste, o MC apresenta resultados mais promissores, embora ainda conflitantes. Uma grande revisão sistemática conduzida por Pathak et al. (2023)14, com mais de 7.700 RNs prematuros ou com baixo peso ao nascer, concluiu com alta certeza que o MC reduziu substancialmente os sintomas de DPP materna. No entanto, esse achado é complementado pela revisão sistemática de Anwar et al. (2023)33, realizada com RNs prematuros e de baixo peso ao nascer, que, apesar de observar uma redução moderada nos escores gerais de depressão, não encontrou diferença significativa entre os grupos ao utilizar a EPDS. Diferenças metodológicas entre os estudos podem limitar conclusões definitivas, ressaltando a necessidade de pesquisas mais uniformes.
Diante desses resultados, é essencial explorar os mecanismos biológicos e psicológicos que podem explicar o potencial efeito benéfico do MC e do CPP na DPP.
Potenciais mecanismos da redução da DPP no MC e no CPP
Existem algumas hipóteses sobre o papel do MC e do CPP na redução da DPP materna. Uma das principais hipóteses envolve alterações nas vias hormonais ligadas ao MC e ao CPP, especialmente associadas à ocitocina e ao cortisol. Muitos estudos têm demonstrado, consistentemente, um padrão comum: durante o CPP, níveis maternos mais elevados de ocitocina têm sido associados a níveis mais baixos do hormônio adrenocorticotrófico (ACTH) e de cortisol, o que pode reduzir as taxas de DPP34-39. Nesse contexto, Handlin et al. (2009)36 demonstraram que o tempo de CPP antes da amamentação está inversamente associado aos níveis plasmáticos de cortisol das mães. Esse efeito regulador é corroborado pela revisão sistemática de Schneider-Schmid et al. (2025)39, que confirmou um aumento consistente nos níveis de ocitocina em pais de recém-nascidos prematuros em resposta a intervenções de vínculo físico como o CPP, sugerindo um efeito ansiolítico e redutor de estresse que favorece a saúde mental materna. Além disso, estudos com RNs prematuros descobriram que o CPP aumentou os níveis salivares e plasmáticos de ocitocina enquanto diminuiu o cortisol, tanto nos pais quanto nos bebês. Acredita-se que essas alterações hormonais promovam o envolvimento parental e fortaleçam o relacionamento entre pais e bebês40-43.
A ocitocina é um hormônio peptídico produzido no hipotálamo e liberado pela hipófise, amplamente conhecida pelo seu papel na contração uterina e na lactação. Embora sua forma sintética tenha sido usada para induzir o parto, a ocitocina endógena evoluiu ao longo de milhões de anos para se tornar essencial para a sociabilidade dos mamíferos, fortalecendo o vínculo mãe-bebê ao promover segurança, resiliência e estabilidade emocional44,45. A liberação de ocitocina durante o CPP é impulsionada pela ativação de mecanorreceptores de baixo limiar. Esses receptores respondem a carícias suaves e à pressão leve, excitando fibras aferentes C-táteis não mielinizadas, um tipo específico de nervo cutâneo39. Essa resposta neural é considerada a via fundamental para a liberação de ocitocina nessas terapias. Dado o seu papel central no vínculo e na regulação emocional, o envolvimento da ocitocina na DPP tem sido amplamente investigado.
Revisões sistemáticas têm demonstrado que o uso de ocitocina exógena na redução ou prevenção da DPP ainda é incerto e controverso. No entanto, parece haver uma tendência para uma relação inversa entre os níveis de ocitocina plasmática e os sintomas depressivos46,47. O mecanismo preciso do efeito da ocitocina na redução da depressão ainda não foi totalmente elucidado. No entanto, a ocitocina pode atuar em múltiplas vias, promovendo a neuroplasticidade, regulando neurotransmissores-chave como a serotonina e a dopamina, reduzindo o estresse crônico por meio do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA) e fornecendo proteção anti-inflamatória e antioxidante ao cérebro48,49.
A eficácia do MC e do CPP na redução das taxas de DPP parece ser influenciada pela forma como a ocitocina impacta os marcadores de estresse, especialmente na inibição do eixo HHA e na diminuição da produção e liberação de cortisol. A capacidade da ocitocina de atuar em regiões cerebrais ricas em receptores de glicocorticoides sugere que ela pode suprimir ativamente as respostas neuroendócrinas ao estresse, o que é um mecanismo-chave pelo qual ela ajuda a restaurar os altos níveis de cortisol ao normal após um evento estressante, como o parto50,51. Esse mecanismo está intacto em pacientes sem DPP e parece estar desregulado ou suprimido em mulheres com DPP. Estudos sugerem uma associação entre concentrações mais altas de cortisol e níveis mais baixos de ocitocina na DPP, indicando uma quebra no efeito normal de modulação do estresse da ocitocina, mesmo às 12 semanas de puerpério52.
Sintetizado no córtex adrenal, o cortisol é um hormônio esteroide cuja liberação é mediada pelo ACTH, um produto da hipófise anterior. O cortisol desempenha um papel crucial em diversas funções fisiológicas, incluindo a modulação das respostas imunológicas e ao estresse, o metabolismo e a inflamação53. A depressão maior unipolar é frequentemente associada a níveis elevados de cortisol e ao aumento da inflamação54. Da mesma forma, a DPP também tem sido associada a níveis elevados de cortisol, embora com achados conflitantes52,55.
A eficácia dos métodos MC e CPP na redução da DPP tem sido atribuída à modulação da resposta hormonal e aos seus consequentes efeitos psicossociais e comportamentais positivos. Ao modular o eixo ocitocina-cortisol, o MC e o CPP promovem diretamente mudanças benéficas, incluindo a melhora da amamentação, o aumento da qualidade do sono, o fortalecimento do vínculo mãe-RN e uma maior autoeficácia materna, que reduzem o estresse, a ansiedade e os sintomas depressivos.
O MC e o CPP têm sido consistentemente associados a resultados favoráveis na amamentação, levando a melhorias nas taxas de aleitamento materno exclusivo ou quase exclusivo, na duração e na satisfação materna autorreferida56-58. Historicamente, a relação entre DPP e amamentação tem sido vista de forma unidirecional, com a DPP diminuindo as taxas de amamentação e aumentando o risco de interrupção precoce do aleitamento. Contudo, evidências recentes sugerem que a amamentação e a DPP têm uma relação bidirecional: não só a DPP afeta negativamente os resultados da amamentação, mas a amamentação também pode reduzir as taxas de DPP ou atenuar os seus sintomas59. Essa teoria bidirecional também encontra plausibilidade biológica na regulação do eixo ocitocina-cortisol. A amamentação está diretamente associada a um aumento significativo de ocitocina, que promove sentimentos de cuidado e relaxamento, ao mesmo tempo que leva a uma queda acentuada no cortisol59,60. Portanto, ao facilitar a amamentação, o MC e o CPP podem reduzir as taxas de DPP ou aliviar seus sintomas. Além disso, o MC e o CPP aumentaram significativamente a qualidade do sono materno e reduziram os sintomas de ansiedade e estresse, que são fatores associados à melhoria dos sintomas de DPP18,61.
O MC e o CPP também podem melhorar o vínculo mãe-RN35,62,63, o qual é gravemente prejudicado na DPP64-66. Em um estudo qualitativo conduzido por Feng e Zhang (2024)62 com 64 puérperas, as mães relataram uma mudança significativa em sua percepção da maternidade e de sua conexão com os RNs após serem submetidas ao CPP. Essa experiência física e sensorial foi descrita como um poderoso catalisador, transformando um relacionamento antes abstrato em um vínculo tangível. Além disso, o CPP aumentou o sentimento de competência e autoeficácia das mães, promovendo ativamente sentimentos de propósito e confiança em seu novo papel.
Lacunas para pesquisas futuras em MC/CPP e DPP
O MC e o CPP podem desempenhar um papel benéfico na redução da DPP, mas essa conclusão não pode ser feita com certeza, pois as evidências existentes apresentam heterogeneidade significativa. Para esclarecer essa questão, grandes estudos com intervenções padronizadas e homogêneas na mesma população devem ser conduzidos para definir o tempo e a duração ideais para ambas as abordagens para melhorar a DPP. Estudos futuros também precisam investigar se não apenas o eixo ocitocina-ACTH-cortisol, mas outras vias biológicas e metabólicas podem influenciar os efeitos do MC e do CPP.
Conclusão
O MC e o CPP surgem como estratégias promissoras, acessíveis e não farmacológicas para mitigar os sintomas da DPP. As evidências atuais, embora heterogêneas, indicam uma tendência consistente de redução nos escores depressivos maternos associados a esses métodos. Notavelmente, os principais efeitos foram observados com o MC para RNs prematuros e/ou de baixo peso, sugerindo que a natureza abrangente desse método pode ter contribuído para os seus efeitos benéficos. O MC frequentemente inclui não apenas o CPP, mas também a educação parental, o apoio ao aleitamento materno exclusivo, a alta hospitalar precoce e o acompanhamento rigoroso.
O mecanismo central proposto envolve a regulação do eixo neuroendócrino, no qual o aumento da ocitocina e a diminuição dos níveis de cortisol promovem o fortalecimento do vínculo mãe-RN, a facilitação da amamentação, a melhora da qualidade do sono e o aumento da autoeficácia materna, todos fatores que contribuem para a saúde mental no período pós-parto.
Apesar dos resultados promissores, a falta de padronização entre os estudos limita a formulação de recomendações definitivas. No entanto, dado o baixo custo, a segurança e os múltiplos benefícios comprovados para a díade mãe-RN, a implementação do MC e do CPP como um padrão de cuidado no período pós-parto pode ser uma ferramenta eficaz de saúde pública para proteger o bem-estar materno.
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