INTRODUÇÃO
A esporotricose é uma micose de implantação causada por fungos termodimórficos do gênero Sporothrix, sendo classificada como uma infecção subcutânea subaguda ou crônica. É a micose de implantação mais prevalente no mundo, com alta incidência em regiões tropicais e subtropicais, incluindo a América Latina1. No Brasil, a esporotricose humana foi oficialmente incluída na Lista Nacional de Notificação Compulsória em 2025, refletindo seu crescente impacto em saúde pública e a necessidade de vigilância sistemática2.
O gênero Sporothrix compreende aproximadamente 53 espécies, incluindo um clado de importância clínica representado por S. brasiliensis, S. schenckii, S. globosa e S. luriei. Além disso, espécies pertencentes a clados ambientais, como S. chilensis e S. mexicana, também podem estar associadas a infecções em humanos e outros mamíferos3.
As espécies de Sporothrix são encontradas em vegetação viva ou em decomposição, excretas de animais e no solo. Historicamente, a transmissão da doença ocorria por meio da inoculação traumática dos propágulos do agente etiológico durante atividades como agricultura, jardinagem, horticultura e ocupações semelhantes. No entanto, a transmissão zoonótica por meio de arranhaduras de determinados animais, especialmente felinos, tem aumentado de forma significativa4.
No Brasil, a transmissão por gatos constitui a principal via de infecção por S. brasiliensis; entretanto, estudos experimentais recentes demonstraram que essa espécie pode permanecer viável em diferentes superfícies (por exemplo, tecido, madeira e aço inoxidável) por até 25 dias, sustentando a possibilidade de transmissão saprofítica e por fômites, além da transmissão direta gato-homem5.
A forma linfocutânea é a manifestação clínica mais frequente da esporotricose, seguida pela forma cutânea fixa. A doença cutânea também pode se apresentar sob as formas multifocal ou cutânea disseminada, caracterizadas pela presença de três ou mais lesões não contíguas, que são globalmente incomuns, mas têm sido crescentemente relatadas em surtos zoonóticos causados por S. brasiliensis. As formas cutâneas disseminadas e extracutâneas são mais frequentemente descritas em indivíduos imunocomprometidos, como pacientes com HIV/AIDS, diabetes mellitus, etilismo crônico ou em uso de corticosteroides sistêmicos6,7.
Nesse contexto, relatamos um caso de esporotricose cutânea multifocal, por S. brasiliensis em paciente com lúpus eritematoso sistêmico (LES), residente na região semiárida do Nordeste brasileiro, região onde ainda são escassos os casos publicados.
RELATO DE CASO
Paciente do sexo feminino, 44 anos, residente na região semiárida do Brasil, especificamente no município de Serra Talhada, estado de Pernambuco, procurou atendimento no serviço público de dermatologia de seu município devido ao surgimento de múltiplas lesões cutâneas iniciadas há cerca de três meses. Inicialmente, as lesões surgiram nas palmas de ambas as mãos, com posterior disseminação para os dedos, seguida do aparecimento de uma lesão na região abdominal e outra na região femoral direita (Figura 1A-D).
Clinicamente, as lesões apresentavam-se como placas, com centros crostosos e bases eritematosas. Eram pruriginosas, descamativas e, ocasionalmente, apresentavam drenagem de secreção serosa. A paciente não referia febre, perda de peso ou outros sintomas sistêmicos sugestivos de disseminação hematogênica.
A paciente relatou presença frequente de gatos domésticos de vizinhos e de gatos errantes em seu quintal e informou que, por vezes, mantinha contato próximo com esses animais, embora não se recordasse de arranhaduras ou mordidas, bem como mencionou o hábito de manusear plantas e solo, porém não soube informar se o surgimento das lesões esteve associado a algum contato traumático específico.
Seus antecedentes pessoais incluíam hipertensão arterial sistêmica, lúpus eritematoso sistêmico, osteoartrite e dor neuropática como sequelas do LES. Para o manejo dessas comorbidades, fazia uso crônico de carvedilol, hidroxicloroquina, gabapentina, amitriptilina, cálcio, prednisona, paracetamol e codeína. No momento da avaliação, utilizava prednisona na dose de 40 mg/dia, prescrita havia aproximadamente um mês, entretanto o tempo exato do diagnóstico de LES não pôde ser determinado a partir dos dados clínicos disponíveis no serviço de saúde.
Antes de procurar o serviço público de dermatologia, a paciente buscou atendimento ambulatorial em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) municipal, onde lhe foram prescritos cefalexina, ciprofloxacino e penicilina benzatina, sem melhora do quadro clínico, em decorrência de diagnóstico inicial equivocado. Após avaliação clínica no serviço de dermatologia, foram realizadas biópsias das lesões da mão direita e da região abdominal, cujas amostras foram encaminhadas ao Laboratório de Microbiologia e Parasitologia da Universidade de Pernambuco para diagnóstico micológico. As amostras clínicas foram cultivadas em ágar Sabouraud dextrose e, após sete dias, observou-se o crescimento de colônias com características macroscópicas e microscópicas compatíveis com Sporothrix sp. (Figura 2A-C).
Em seguida, foi obtido DNA genômico e realizada a amplificação e o sequenciamento parcial do gene da calmodulina (CAL), conforme metodologia descrita por Marimon et al. (2007)8, com adaptações. O isolado foi identificado como Sporothrix brasiliensis (número de acesso GenBank: PP583620) por meio da comparação de similaridade de sequências nucleotídicas no GenBank, utilizando a ferramenta Basic Local Alignment Search Tool (BLAST). A relação filogenética do isolado (HC323) com isolados globais selecionados do gênero Sporothrix foi determinada pelo método de máxima verossimilhança, com suporte de 1.000 bootstraps, utilizando o software XSEDE hospedado no CIPRES9 (Figura 3).
Adicionalmente, foi realizado teste de suscetibilidade antifúngica pelo método de microdiluição em caldo, de acordo com as diretrizes do BrCAST, as concentrações inibitórias mínimas (CIMs) encontradas foram de 0,25 µg/mL para itraconazol, 0,5 µg/mL para cetoconazol, 1 µg/mL para anfotericina B e de 0,03 µg/mL para terbinafina. O agente etiológico foi considerado sensível a todos os antifúngicos testados.
Dessa forma, após a confirmação diagnóstica, instituiu-se tratamento com itraconazol na dose de 100 mg/dia por 60 dias, com remissão completa de todas as lesões cutâneas. Entretanto, a paciente não retornou às consultas de acompanhamento após o término do tratamento, o que impossibilitou a avaliação de recidiva em longo prazo.
DISCUSSÃO
Este caso enfatiza a esporotricose no Brasil em expansão para novas áreas, como a região semiárida do Nordeste, ressaltando a importância do diagnóstico preciso para um melhor tratamento e para a compreensão da dinâmica dessa doença. A esporotricose zoonótica é considerada endêmica em algumas áreas das regiões Sul, Sudeste, Norte e Nordeste do Brasil10,11. Embora seja reconhecida como micose emergente no Nordeste brasileiro, a maioria dos surtos relatados tem sido historicamente concentrada em áreas urbanas e metropolitanas, como Recife e Natal12,13.
O caso também destaca a ocorrência de esporotricose cutânea multifocal causada por S. brasiliensis em paciente com LES. O diagnóstico micológico foi obtido por meio do crescimento do agente etiológico em cultura, e a identificação taxonômica da espécie foi realizada por sequenciamento genético. Hernández-Castro et al. (2022)1 elucidaram que a cultura fúngica permanece como o método padrão-ouro para o diagnóstico desta micose.
O presente caso foi classificado como esporotricose cutânea multifocal, visto que a paciente apresentava lesões em ambas as mãos, abdome e coxa, mas não havia evidência clínica ou laboratorial de acometimento extracutâneo ou doença sistêmica grave. Embora o LES e a terapia corticosteroide crônica possam ter aumentado a suscetibilidade à infecção, o curso relativamente benigno e a boa resposta ao itraconazol 100 mg/dia se assemelham ao padrão descrito em hospedeiros imunocompetentes com doença cutânea multifocal, em vez da forma disseminada sistêmica. Outro caso de esporotricose em mulher com LES já foi relatado na Malásia, porém a paciente apresentou a forma linfocutânea clássica, e a espécie isolada foi S. schenckii14.
Quanto à transmissão, a paciente relatou a presença frequente de gatos domésticos e errantes em seu quintal, bem como o hábito de manusear plantas e solo, mas não se lembrava de arranhaduras, mordidas ou outro trauma específico. Estudos prévios demonstraram que muitos pacientes com esporotricose não recordam um histórico claro de trauma de inoculação15. Nesse caso, é possível que tenha ocorrido uma inoculação traumática mínima e não reconhecida durante o contato com os gatos. Além disso, como estudos experimentais já demonstraram que S. brasiliensis pode permanecer viável em diferentes superfícies por períodos prolongados5, também é plausível que a infecção tenha resultado de exposição repetida, possivelmente despercebida, a materiais ambientais contaminados por secreções de gatos infectados.
Após a realização da identificação taxonômica, o isolado foi identificado como S. brasiliensis, espécie frequentemente associada à transmissão zoonótica e considerada um fungo emergente na América do Sul, estando relacionada a casos de esporotricose felina e humana10. Os primeiros casos foram relatados no Brasil, e a doença tem se expandido ao longo das últimas três décadas no país. Ampliando o panorama brasileiro, a esporotricose causada por S. brasiliensis já vem sendo relatada em países limítrofes, como Argentina e Paraguai, evidenciando a necessidade de implementação de medidas de saúde pública1. Dos Santos et al. (2024)10 destacam que a transmissão zoonótica está comumente associada a S. brasiliensis, e uma das hipóteses é de que essa espécie esteja mais amplamente distribuída no ambiente do que S. schenckii e S. globosa, tornando-a mais facilmente adquirida por gatos errantes, abundantes nas ruas brasileiras e provavelmente os principais responsáveis pela cadeia de transmissão.
O itraconazol é reconhecido como um antifúngico eficaz para todas as formas clínicas, incluindo a cutânea multifocal; a dose recomendada varia de 100 a 400 mg/dia dependendo da severidade e condições do hospedeiro16. Diretrizes globais para tratamento das micoses endêmicas recomendam manter a terapia com itraconazol por pelo menos 2-4 semanas após a resolução clínica completa, visando a reduzir o risco de recidiva17. No presente caso, a paciente respondeu positivamente ao tratamento com itraconazol 100 mg/dia por 60 dias, com remissão completa das lesões, porém não foi possível avaliar a ocorrência de recidiva em longo prazo. Poester et al. (2020)16 descreveram o tratamento bem-sucedido de 30 casos de esporotricose zoonótica no Brasil, nos quais o itraconazol foi instituído em 28 pacientes e o iodeto de potássio em dois, sendo necessário um tempo médio de aproximadamente 187 dias para a cura clínica.
CONCLUSÃO
A esporotricose cutânea multifocal é uma forma clínica incomum e, até onde se tem conhecimento, este é o primeiro relato dessa apresentação clínica causada por S. brasiliensis em paciente com lúpus eritematoso sistêmico na região semiárida do Brasil. O LES e a terapia corticosteroide crônica podem ter contribuído para a suscetibilidade à infecção; entretanto, o curso clínico foi favorável e incompatível com disseminação sistêmica grave. Diante do aumento da incidência da doença em novas regiões, como a zona semiárida do Brasil, torna-se essencial manter um alto grau de suspeição clínica e realizar diagnóstico micológico adequado, a fim de instituir tratamento oportuno e apropriado. No caso apresentado, o itraconazol demonstrou ser seguro e eficaz para alcançar a cura clínica, embora o esquema curto, em baixa dose, e a ausência de acompanhamento prolongado ressaltem a importância de seguir, sempre que possível, as diretrizes terapêuticas vigentes.
CONTRIBUIÇÃO DOS AUTORES
As contribuições dos autores estão estruturadas de acordo com a taxonomia (CRediT) descrita abaixo:
Conceptualização, Investigação, Metodologia, Visualização & Escrita - análise e edição: CMM Gomes; MB da Silva; CMF de Lucena; CCC Leite; CM da Silva. Administração do Projeto, Supervisão & Escrita - rascunho original: ACB Farias; CM da Silva. Validação, Software: RG Lima Neto; CM da Silva. Recursos & Aquisição de Financiamento: RG Lima Neto; CM da Silva. Curadoria de Dados & Análise Formal: CM da Silva.
REFERÊNCIAS
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