ISSN (on-line): 2238-3182
ISSN (Impressa): 0103-880X
CAPES/Qualis: B2
Esteroides androgênicos anabolizantes: avaliação do conhecimento de estudantes de medicina
Anabolic androgenic steroids: assessment of the knowledge of medical students
Henrique Laerte Ferreira Santos; Giovanna de Melo Dayrell; Flávia Coimbra Pontes Maia
Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais, MG, Brasil
Endereço para correspondênciaHenrique Laerte Ferreira Santos
Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais, MG, Brasil
E-mail: henriquelaerte7@gmail.com
Recebido em: 4 Junho 2025.
Aprovado em: 22 Outubro 2025.
Data de Publicação: 17 Março 2026.
Editor Associado Responsável: Enio Roberto Pietra Pedroso
Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais
Belo Horizonte, MG, Brasil
Fontes apoiadoras: Não há.
Conflito de Interesse: Não há.
Comitê de ética: Número do Parecer - CAAE 69903223.7.0000.5134
Resumo
INTRODUÇÃO: Esteroides androgênicos anabolizantes (EAA) são substâncias derivadas da testosterona, utilizadas em larga escala e ilicitamente com objetivo estético, ganho de massa muscular e performance esportiva. Diversos estudos comprovaram que EAA podem induzir inúmeras adversidades aos usuários.
OBJETIVO: Identificar as crenças e o conhecimento de estudantes do curso de Medicina a respeito de EAA e possíveis complicações relacionadas a seu abuso.
MÉTODOS: Estudo observacional transversal qualitativo e descritivo, conduzido através de questionário online elaborado pelos autores.
RESULTADOS: O estudo incluiu amostra de 309 estudantes de Medicina de uma única faculdade. Dentre os participantes, 89% discordam que o uso de EAA promove hipertrofia muscular de modo rápido, eficiente e saudável. Apenas 25% estão cientes das indicações para prescrição de EAA. Ademais, 73% concordam com a resolução que proíbe o uso dessas substâncias com finalidades estéticas e de performance no Brasil; no entanto, apenas 14% acreditam que essa medida será eficiente. Em relação às complicações relacionadas aos EAA, a amostra identificou que os riscos mais significativos são problemas cardíacos, hipertensão, agressividade, hepatotoxicidade, disfonia e hirsutismo em mulheres.
CONCLUSÃO: O estudo identificou o desconhecimento de estudantes de Medicina sobre as indicações de EAA e riscos relacionados à sua administração. Foi observado que esses tópicos não são adequadamente abordados na educação médica. O currículo deveria abordar esse tema por sua alta prevalência para capacitar os futuros profissionais com práticas éticas, habilitá-los a educar a população sobre os riscos relacionados a EAA, e prepará-los para manejar a complexidade de efeitos adversos relacionados ao uso inapropriado.
Palavras-chave: Esteroides androgênicos anabolizantes; Estudantes de medicina; Eventos adversos; Inquéritos e questionários; Testosterona.
INTRODUÇÃO
Os esteroides androgênicos anabolizantes (EAA) são hormônios derivados da testosterona que exercem efeitos biológicos relacionados ao aumento de massa muscular e à indução ou manutenção de características sexuais secundárias masculinas1. Entre as preparações mais comuns estão a nandrolona, estanozolol, oxandrolona, metandrostenolona e trembolona2. A testosterona possui indicações específicas, como no tratamento do hipogonadismo masculino e na terapia hormonal cruzada para pessoas transgênero3. Apesar disso, sua aplicação em outras finalidades terapêuticas ainda carece de comprovação de eficácia, especialmente em longo prazo3. Contudo, o uso abusivo dessas substâncias para ganho muscular, melhoria de desempenho esportivo e objetivos estéticos é amplamente difundido, acarretando diversos efeitos adversos e aumentando o risco de morte entre os usuários.
O abuso de EAA envolve práticas como prescrições ilícitas, comércio ilegal, produção em laboratórios clandestinos e contrabando, dificultando a estimativa precisa de sua prevalência4. Estima-se que a prevalência global do uso ao longo da vida seja de 6,4% entre homens e 1,6% entre mulheres, sendo o início do uso mais comum na fase adulta jovem5,6.
Dados indicam que entre 15% e 25% dos frequentadores masculinos de academias utilizam EAA, o que é alarmante, especialmente considerando que muitos desses indivíduos permanecem invisíveis aos testes antidoping e raramente reportam o uso aos profissionais de saúde7,8. Assim, uma parcela significativa de usuários de EAA está em risco não somente pelos efeitos diretos das substâncias, mas também pela ausência de acompanhamento médico e educação em saúde, que poderiam ser promovidos por profissionais qualificados.
O principal fator motivador do uso de EAA é a busca por melhora da aparência física, superando o objetivo de aprimorar o desempenho esportivo7. Esse fator pode estar associado a preocupações com a imagem corporal e ao dismorfismo muscular, um subtipo de transtorno dismórfico caracterizado pela insatisfação com o tamanho corporal e pela preocupação com o desenvolvimento de músculos8.
Os efeitos colaterais decorrentes do uso de EAA incluem hipertensão arterial, dislipidemia, doença aterosclerótica, hipertrofia miocárdica, redução da fração de ejeção do ventrículo esquerdo, cardiomiopatia, anormalidades na condução cardíaca, alterações de coagulação, policitemia, glomeruloesclerose segmentar focal, hepatotoxicidade, acne e alopecia1,8-11. No sexo masculino, destacam-se ginecomastia, atrofia testicular e oligospermia/azoospermia; já no sexo feminino, os efeitos também incluem hirsutismo, disfonia, hipertrofia do clitóris e irregularidade menstrual1,8-10.
Um estudo revelou que usuários de EAA apresentam incidência três vezes maior de doenças cardíacas não isquêmicas e um risco cinco vezes maior de distúrbios tromboembólicos12. Além disso, verificou-se mortalidade significantemente elevada, com um risco 2,81 vezes maior entre usuários13.
Outro fator preocupante é a combinação frequente de EAA com outras substâncias, como hormônio do crescimento, hormônios tireoidianos, glicocorticoides, insulina, diuréticos e agonistas dos receptores beta-2-adrenérgicos, para potencializar resultados ou mitigar reações adversas indesejadas9,14. Inibidores da aromatase e antagonistas dos receptores de estrogênio, por exemplo, são usados para prevenir ginecomastia9.
Além dos efeitos físicos, os EAA também estão associados a consequências neuropsiquiátricas, incluindo mania ou hipomania, depressão, agressividade, déficit cognitivo e dependência7,9. A dependência geralmente segue um padrão em que o uso inicial, motivado por ganhos estéticos, evolui para o consumo compulsivo devido à abstinência e à regressão dos efeitos desejados de crescimento muscular, dificultando a interrupção do uso15.
No Brasil, a regulamentação vigente estabelece que a reposição hormonal deve ser realizada apenas em casos de deficiência comprovada, com nexo causal claro, ou em casos nos quais a reposição apresenta evidência de benefício clínico comprovada16. A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, junto a outras entidades, posiciona-se contra à administração de EAA para fins estéticos, de desempenho esportivo, ou antienvelhecimento, devido à ausência de respaldo científico e aos riscos bem documentados3,17,18. Em 2023, o Conselho Federal de Medicina proibiu o uso de EAA para tais finalidades através da resolução nº 2.333/2023, destacando as preocupações com o abuso, a falta de benefícios comprovados e a alta incidência de efeitos colaterais19.
A educação médica baseada em evidências, desde a graduação, desempenha um papel fundamental na prevenção da prescrição indevida de EAA, reduzindo iatrogenias, além de capacitar os profissionais para o manejo de complicações relacionadas ao abuso dessas substâncias. Além disso, ela é crucial para a orientação de pacientes sobre os riscos inerentes ao uso impróprio de tais hormônios.
Este estudo visa avaliar o nível de conhecimento e as crenças de estudantes de Medicina sobre os esteroides anabolizantes, com foco nas complicações de seu abuso para fins estéticos, aumento de massa muscular e desempenho esportivo, além de analisar como a formação médica pode influenciar a percepção e a prática em relação ao uso dessas substâncias.
MÉTODOS
Delineamento do estudo
Estudo observacional transversal qualitativo e descritivo com o objetivo de identificar as crenças e o conhecimento de estudantes de Medicina a respeito de EAA, aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CAAE 69903223.7.0000.5134). Os princípios de ética foram respeitados e estão de acordo com a Resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde.
Amostra
Os participantes deste estudo foram selecionados utilizando uma amostra de conveniência, ou seja, indivíduos que estavam disponíveis e dispostos a participar no momento da coleta de dados. Composta por alunos do curso de Medicina de uma única instituição privada localizada em Belo Horizonte, Minas Gerais (n=309). A amostra foi dividida entre 3 grupos correspondentes ao ciclo no curso de Medicina: Básico (n=108), Clínico (n=104) e Internato (n=97).
Instrumentos
Questionário elaborado pelos autores através da plataforma Google FormsT, composto por questões de múltipla escolha relacionadas ao uso de EAA para fins estéticos, ganho de massa muscular, performance esportiva, além de possíveis efeitos colaterais associados.
Procedimentos
Realizada busca ativa por participantes, com envio do link de acesso ao questionário em grupos na rede social WhatsApp. A coleta de dados ocorreu entre julho de 2023 e março de 2024.
Análise estatística
Foi utilizada a linguagem R versão 4.4.1 para criar as rotinas e gerar as estatísticas necessárias para caracterizar e descrever o conjunto de dados, além da realização dos principais testes estatísticos.
RESULTADOS
O estudo analisou respostas de 309 estudantes de Medicina, majoritariamente do sexo feminino (63,4%), enquanto 36,6% eram do sexo masculino. A faixa etária predominante foi entre 18 e 25 anos (92,6%), com uma distribuição equilibrada entre os ciclos Básico (35%), Clínico (33,3%) e Internato (31,7%). A caracterização da amostra está detalhada na Tabela 1.

Para interpretação dos resultados, os dados obtidos através do formulário foram divididos em grupos contendo: itens relacionados ao conhecimento; relacionados à opinião; relacionados a eventos adversos; e relacionados ao uso entre os acadêmicos do curso de Medicina. Não houve diferença significativa entre os sexos nas respostas.
No que se refere ao conhecimento sobre os EAA (Tabela 2), 89% dos participantes discordaram da afirmação de que essas substâncias promovem ganho muscular de forma saudável (p=0.5), enquanto 69% acreditaram que os usuários de EAA desconhecem os riscos associados ao uso (p=0.8). Apenas 25% dos estudantes afirmam ter ciência sobre as indicações clínicas corretas para uso de EAA, com diferenças significativas entre os ciclos acadêmicos (p=0.008). A porcentagem foi de 15% no ciclo Básico, 30% no ciclo Clínico e 32% no Internato, indicando maior familiaridade com as indicações terapêuticas entre os estudantes em estágios avançados do curso e com maior exposição às práticas médicas; entretanto, o fato de apenas um quarto da amostra reconhecer as indicações corretas reflete lacunas significativas na formação médica.
Quanto aos campos relacionados à opinião dos participantes sobre regulamentação e uso clínico (Tabela 3), 73% dos estudantes demonstraram apoio à resolução do Conselho Federal de Medicina que proíbe o uso de EAA para fins estéticos e esportivos, embora apenas 14% acreditassem que essa medida será eficaz. Foi identificado que 46% dos participantes relataram conhecer médicos que prescreveram EAA para finalidades não terapêuticas. Essa proporção apresentou diferença significativa entre os ciclos acadêmicos (p=0,003), com 35% no Ciclo Básico, 46% no Clínico e 59% no Internato, indicando maior exposição a práticas controversas nos estágios mais avançados da formação médica. Além disso, 73% dos participantes relataram ter observado a influência de figuras públicas nas redes sociais promovendo o uso de EAA para fins inapropriados, evidenciando a popularização dessas substâncias e o fácil acesso a informações desprovidas de embasamento científico.
Os dados apresentados nas Tabelas 1 e 2 evidenciam os efeitos colaterais considerados mais importantes pelos participantes da pesquisa em relação ao uso de EAA em homens e mulheres. Entre os indivíduos do sexo masculino, os efeitos mais frequentemente apontados foram problemas cardíacos (82%), aumento da pressão arterial (65%) e hepatotoxicidade (56%). Alterações de humor e agressividade também foram amplamente assinaladas (57%), seguidas por atrofia testicular (45%), aumento do LDL (31%), redução do número de espermatozoides (30%) e ginecomastia (22%).
Em relação ao sexo feminino, os efeitos mais destacados foram problemas cardíacos (77%), aumento da pressão arterial (54%) e hepatotoxicidade (52%). Outros efeitos frequentemente mencionados incluem engrossamento da voz (47%), hirsutismo (43%), alterações de humor e agressividade (40%), aumento do LDL (37%) e aumento do clitóris (38%).
Esses achados refletem diferenças importantes na percepção dos riscos entre os sexos. Enquanto problemas cardíacos foram os efeitos mais destacados em ambos os grupos, os participantes frequentemente demonstraram preocupação com os aspectos relacionados às características virilizantes nas mulheres usuárias de EAA, como engrossamento da voz, hirsutismo e aumento do clitóris. Nos homens, preocupações com questões relacionadas à fertilidade, como atrofia testicular e redução do número de espermatozoides, estiveram presentes, embora em menor proporção.
Entre os itens relacionados ao uso de EAA por acadêmicos do curso de Medicina, grande parte da amostra demonstrou conhecer essas substâncias, principalmente Trembolona (72%) e Oxandrolona (71%).
Apesar de conhecerem os potenciais efeitos adversos, 1 participante (0,3%) relatou uso atual e 8 (2,6%) indicaram já ter utilizado EAA no passado para fins estéticos, ganho de massa magra e desempenho esportivo, dos quais apenas um indivíduo é do sexo feminino. Além disso, 72 (23,3%) declararam ter cogitado usar EAA visando esses mesmos objetivos. Dentro desse último grupo, 53 são homens, valor que representa 47% da amostra masculina, um dado que reforça o que a literatura já aponta: os homens são a população com maior prevalência de uso e desejo de consumir EAA em comparação às mulheres.
Quanto às fontes de acesso a essas substâncias, os participantes mencionaram prescrição médica (6 casos), venda em academias (1 caso) e outras fontes (4 casos). Observou-se uma discrepância nos dados, uma vez que 11 indivíduos revelaram a fonte do acesso aos EAA e apenas 9 afirmaram o uso dessas drogas, indicando possível subnotificação no relato dos participantes.
DISCUSSÃO
Os resultados obtidos através do presente estudo destacam lacunas significativas no conhecimento de estudantes de Medicina sobre os EAA. Embora a maioria dos participantes reconheça os riscos associados ao uso de EAA, apenas 25% demonstraram conhecimento sobre as indicações clínicas corretas para essas substâncias, com uma evolução modesta nos estágios mais avançados da graduação. Esse achado reflete uma formação médica que, apesar de proporcionar maior familiaridade com práticas clínicas ao longo dos ciclos acadêmicos, ainda carece de abordagens específicas e aprofundadas sobre o tema.
Os dados também revelaram preocupações éticas relevantes: 46% dos estudantes relataram conhecer médicos que prescreveram EAA para fins não terapêuticos, proporção que aumenta significativamente no Internato. Tal fato indica que a exposição à prática médica pode não apenas ampliar o conhecimento técnico, mas também levar os estudantes a se depararem com práticas controversas, potencialmente influenciando sua formação ética.
É válido ressaltar que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária classifica os anabolizantes como drogas de uso controlado na categoria C5, com necessidade de uso de receita controlada, identificação do prescritor com o Cadastro de Pessoas Física, além da obrigatoriedade do código presente na Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde que justifique sua prescrição7,20. A resolução do CFM nº 2.333/2023 proíbe o uso de terapias hormonais para fins estéticos e de performance, e diversas entidades médicas científicas já se posicionaram contra o abuso dessas drogas para esses fins3,17-19.
No que diz respeito às opiniões dos participantes, embora 73% concordem com a proibição do uso de EAA pelo CFM, apenas 14% acreditam na eficácia dessa medida, sugerindo uma percepção generalizada de que regulamentações, por si só, não são suficientes para mitigar o problema. Essa desconfiança pode estar relacionada à facilidade de acesso a essas substâncias, tanto por vias lícitas quanto ilícitas, e ao papel das redes sociais na promoção de padrões estéticos irreais e na disseminação de informações equivocadas.
Ademais, os gráficos evidenciaram que os estudantes reconhecem os efeitos adversos mais graves dos EAA, como problemas cardíacos, mas também demonstram preocupação com efeitos específicos ao sexo dos usuários, como características virilizantes em mulheres e alterações na fertilidade em homens. Esse reconhecimento dos riscos contrasta com os relatos de uso ou cogitação de uso de EAA pela amostra, o que reforça a necessidade de estratégias educativas que abordem não apenas os efeitos biológicos, mas também os aspectos éticos e sociais do uso dessas substâncias.
Considerando que os efeitos colaterais mais frequentemente apontados pelos participantes da pesquisa, tanto homens quanto mulheres, em relação ao uso de esteroides anabolizantes androgênicos (EAAs), foram os problemas cardíacos, é importante destacar que o uso dessas substâncias está associado a um aumento significativo da mortalidade por doenças cardiovasculares. Diversos estudos apontam uma forte correlação entre o uso de EAAs e o risco elevado de infarto agudo do miocárdio, tromboembolismo venoso, arritmias, cardiomiopatias e insuficiência cardíaca. No entanto, a epidemiologia das doenças cardiovasculares entre usuários de EAAs ainda permanece relativamente pouco explorada21.
A literatura atual ressalta que, mesmo indivíduos fisicamente ativos - geralmente considerados menos suscetíveis a doenças cardíacas - podem desenvolver complicações cardiovasculares graves em decorrência do uso abusivo dessas substâncias. Tais achados evidenciam o impacto negativo substancial dos EAAs sobre a saúde cardiovascular, ressaltando a necessidade de um acompanhamento médico contínuo e de longo prazo, a fim de compreender plenamente o espectro dos riscos envolvidos. Um estudo recente realizado na Dinamarca mostrou uma mortalidade por todas as causas 2,81 vezes maior nos usuários de EAAs comparado com não usuários (p<0.001)21. Diante desse cenário, torna-se fundamental que futuras iniciativas priorizem a ampliação da conscientização entre os profissionais de saúde sobre os riscos cardiovasculares associados ao uso de EAAs, possibilitando, assim, o desenvolvimento de medidas preventivas eficazes e estratégias de tratamento personalizadas para essa população específica21.
A ausência de respostas na categoria "nenhum dos anteriores" nas perguntas que envolvem os efeitos adversos mais importantes relacionados ao uso de EAA em homens e mulheres sugere que os participantes reconhecem amplamente os riscos associados ao uso de EAA, independentemente do sexo. Isso pode indicar um nível significativo de conscientização sobre os potenciais efeitos adversos dessas substâncias, embora a prevalência de seu uso continue a representar um problema de saúde pública.
Corroborando com o achado de que 89% da amostra acredita que o uso e efeitos dos EAA são pouco abordados no curso de Medicina, os resultados apontam para a necessidade de revisão do currículo médico. As escolas médicas desempenham um papel crucial na formação de profissionais capacitados para combater o uso de esteroides anabolizantes com fins estéticos, ao promover uma educação baseada na conscientização e no aprofundamento dos riscos associados a essas substâncias. Incorporar ao currículo disciplinas que abordem farmacologia, endocrinologia e saúde pública, além de discussões sobre os impactos físicos, psicológicos e sociais do uso de esteroides, pode equipar os futuros médicos com o conhecimento necessário para educar pacientes e a sociedade sobre os perigos dessas práticas. Além disso, incentivar habilidades de comunicação e empatia permite que os profissionais desenvolvam estratégias eficazes para abordar esse tema em consultas clínicas, promovendo a adoção de alternativas saudáveis para alcançar objetivos estéticos e fortalecendo o compromisso ético com a saúde e o bem-estar do indivíduo.
Entre as principais limitações deste estudo, destaca-se o caráter transversal, que impede a identificação de relações causais entre as variáveis analisadas. Além disso, o uso de um questionário online pode ter limitado a representatividade da amostra, uma vez que a participação foi restrita àqueles com acesso à internet e disposição para responder à pesquisa. A possibilidade de viés de resposta também deve ser considerada, já que questões relacionadas ao uso de EAA podem ser sensíveis, levando alguns participantes a subnotificarem ou superestimar comportamentos e percepções. Por fim, a amostra foi composta predominantemente por indivíduos jovens, de um único centro universitário, o que limita a generalização dos achados para outras populações.
CONCLUSÃO
O estudo revelou lacunas significativas no conhecimento e na formação ética de estudantes de Medicina sobre os EAA, além de evidenciar crenças e percepções que podem influenciar suas práticas futuras. Apesar do reconhecimento generalizado dos riscos associados ao uso de EAA, a familiaridade com as indicações terapêuticas ainda é limitada, especialmente nos estágios iniciais da graduação.
A presença de práticas controversas, como a prescrição de EAA para fins não terapêuticos, e a disseminação de informações equivocadas por meio de redes sociais reforçam a importância de um currículo médico mais integrado, que aborde não apenas os aspectos técnicos, mas também os éticos e socioculturais relacionados ao uso dessas substâncias.
Conclui-se que a formação médica deve ser revisada para incluir uma abordagem mais sistemática sobre EAA, promovendo maior conscientização sobre seus riscos e fortalecendo o compromisso ético dos futuros médicos. Além disso, é essencial implementar estratégias educativas e de políticas públicas que visem mitigar a banalização do uso de EAA e reduzir sua prevalência, tanto entre profissionais de saúde quanto entre a população geral. Por fim, são recomendados estudos futuros que considerem a utilização de métodos de amostragem aleatória ou estratificada para melhorar a representatividade da amostra e, assim, aumentar a validade externa dos achados; mas também para avaliar o impacto de intervenções educacionais no conhecimento e na prática médica em relação ao uso de EAA.
CONTRIBUIÇÃO DOS AUTORES
As contribuições dos autores estão estruturadas de acordo com a taxonomia (CRediT) descrita abaixo:
Conceptualização, Investigação, Metodologia, Visualização & Escrita - análise e edição: HLF Santos; GM Dayrell; FCP Maia. Administração do Projeto, Supervisão & Escrita - rascunho original: HLF Santos; GM Dayrell; FCP Maia. Validação, Software: HLF Santos; GM Dayrell; FCP Maia. Recursos & Aquisição de Financiamento: HLF Santos; GM Dayrell; FCP Maia. Curadoria de Dados & Análise Formal: FCP Maia.
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